A Netflix decidiu apostar num tema bastante recorrente para séries: o vampirismo. No entanto, decidiu enveredar por uma abordagem diferente. V Wars estreou dia 5 de dezembro. O protagonista dos dez episódios é Ian Somerhalder – já conhecido no universo dos vampiros. Até que ponto é que V Wars vem efetivamente revolucionar este lado do sobrenatural? Ou é só mais uma série de vampiros?

Ian Somerhalder é Dr. Luther Swann, a personagem principal. Não afetado pelo vírus, o médico tenta encontrar o padrão genético que evidencia que alguém pode contrair a infeção e iniciar o processo de se tornar um vampiro. Do outro lado da batalha está Michael Fayne (por Adrian Holmes), melhor amigo de Luther que sucumbe perante a infeção e que, sendo o ‘paciente zero’, liderará a “nação do sangue” (blood nation).
O restante elenco é composto por Jacky Lai (Kaylee Vo), Peter Outerbridge (Calix Niklos), Laura Vandervoort (Mila Dubov), Kyle Harrison Breitkopf (Desmond “Dez” Swann), Kimberly-Sue Murray (Danika Dubov), Nikki Reed (Rachel Swann), Sydney Meyer (Ava O’Malley), Kandyse McClure (Claire O’Hagan), Jessica Harmon (Jess Swann) e Michael Greyeyes (Jimmy Saint).
Terminadas as apresentações, vamos ao que interessa: vale a pena ver V Wars?

É estranho que Ian Somerhalder não interprete um vampiro

Passados sensivelmente oito anos enquanto Damon Salvatore, torna-se difícil assimilar Ian Somerhalder noutro papel. Depois de interpretar o vampiro de forma tão bem conseguida e de este se ter tornado emblemático, o choque de ver Ian enquanto humano é real. Ainda para mais quando se trata de outra série de vampiros, o que daria espaço para um papel semelhante, mas, desta vez, está do lado oposto.

V Wars

Ian Somerhalder é o protagonista de V Wars. Depois do vampiro Damon Salvatore, interpreta Dr. Luther Swann.

Segundo a entrevista que deu à Schön!, Ian Somerhalder esteve perto de rejeitar o papel de Dr. Luther Swan: “Eu recusei umas três vezes. Não me parecia que o ideal fosse voltar a protagonizar uma série de vampiros… No entanto, quando mergulhei nos livros, entendi o nível de tecnologia e ciência na história. V Wars não é sobre sobrenaturais, é mais sobre ciência e a sociedade, sobre relacionamentos e amor. Trata questões atuais: fronteiras, racismo, medicina, comida, segurança.” Sobre o seu novo papel, Somerhalder revela ainda que “Depois de interpretar o Damon durante tantos anos – o vampiro divertido, sexy, meio maluco, muito perigoso e muito egocêntrico – queria interpretar alguém que fosse muito humano. O seu único super-poder é ser um pai, um grande médico.”

Foram muitos anos a retratar uma personagem amada por muitos e talvez por isso se torne difícil contentarmo-nos com esta versão humana e humilde. É interessante ver o toque sensual que Ian dá ao físico Luther Swann, mas não enche, de todo, as medidas.

As personagens – tal como as suas narrativas – são ocas e mal construídas

Não é só o protagonista que deixa muito a desejar: é o elenco inteiro. Apesar de haver boas performances – como a de Peter Outerbridge ou a de Nikki Reed -, ao contrário do que é habitual acontecer, as personagens de V Wars não cumprem a missão de estabelecer uma conexão com o público.

Falo por mim – não consegui torcer por ninguém ou ficar ligeiramente afetada com alguma morte. Cheguei a ficar triste, sim, mas nada demais. Penso que uma das principais conquistas de uma série é exatamente essa – a de criar personagens tão cativantes a ponto de o espectador sofrer com elas e por elas. Infelizmente, não é o caso. Talvez porque não temos informação suficiente sobre cada uma, por não existir a devida contextualização. Nota-se que optaram por estruturar a história e não os envolvidos, mas penso que tem de haver um equilíbrio.

Nikki Reed

Nikki Reed (Twilight) é casada com Ian Somerhalder fora dos ecrãs. Em V Wars, é sua ex-mulher.

Gostei da personagem principal, mas penso que há espaço para melhorar. A nível de personagens, penso que as mais interessantes sejam Kaylee Vo (por Jacky Lai) e Mila Dubov (por Laura Vandervoot). É mais propício simpatizarmos com estas, ainda que sejam exploradas de uma forma superficial. No que toca a desempenho dos atores em si, Peter Outerbridge e Nikki Reed estão de parabéns. A personagem Calix Niklos, de Peter Outerbridge, tem a quantidade certa de mistério e de interesse. Por sua vez, Nikki Reed consegue retratar Rachel Swann – a ex-mulher desequilibrada de Luther – na perfeição. Só dentro do ecrã é que o casamento corre mal – sendo que, na vida real, Reed é casada com Ian Somerhalder.

Uma temporada depois, não desenvolvi qualquer shipp – e, tendo em conta que não é preciso muito para que isso aconteça, considero-o grave. Tira logo alguma magia à narrativa. As relações que se formam são, a meu ver, forçadas e aleatórias. Não há um processo, um desenvolver da paixão, uma história. Apenas ficam juntas do dia para a noite, sem sentido algum.

Os diálogos, fatídicos e desinteressantes, estragam a história

A certa altura, a própria narrativa torna-se repetitiva. Dei por mim a pegar no telemóvel por aborrecimento e a querer avançar algumas partes. Há conversas interessantes, mas, infelizmente, não são a maioria. Uma série como esta conseguiria ter diálogos com muito potencial e uma narrativa muito mais impactante do que aquela que tem. Poderia agarrar-nos, coisa que não faz.

Vampiros assustadores? Sim, fomos nós que pedimos

V Wars

A caraterização dos vampiros é sem dúvida um dos pontos fortes desta nova série da Netflix.

Depois de Drácula, da saga Twilight e de séries como as do universo de The Vampire Diaries, foram várias as representações destas criaturas. No entanto, e também por isso, existem diferentes abordagens quanto à forma que estes seres sobrenaturais assumem. No caso de V Wars, parece que optaram por negligenciar o interior de cada personagem, mas conseguiram exceder-se no exterior.Para mim, um dos pontos mais favoráveis da série é o visual dos vampiros. Os seus dentes, que lembram os de Pennywise, do It (2017), aliados ao seu olhar preenchem a necessidade da existência de vampiros que fossem, efetivamente, assustadores.

Campos de concentração para vampiros

Em V Wars, é percetível o quanto tentaram manter a narrativa o mais coerente possível. Conseguimos perceber como a história se poderia tornar realidade, logo à partida por ser desenvolvida do ponto de vista científico e não mitológico. Além disto, vemos as várias fações de humanos que, no caso de ser uma epidemia verídica, se reconheceriam: os curiosos, que aproveitariam a situação para tentar ganhar algo com a mesma; os justiceiros, que quereriam agir pelas próprias mãos; os revoltados, que não descansariam enquanto este mal não fosse extinto e os humanistas, que tentariam fazer com que estes seres fossem retratados enquanto dignos de viver.

Se imaginássemos estes acontecimentos enquanto legítimos, entenderíamos o constrangimento que representariam para os Governos dos diferentes países. Em V Wars esta é uma das narrativas mais exploradas – enquanto alguns governantes pretendem aniquilar os vampiros, que só trarão tragédia à humanidade e que não podem coexistir com a mesma, outros lutam para que sejam vistos enquanto pessoas que, perante as circunstâncias, sofreram mutações genéticas, mas que merecem os mesmos direitos.

V Wars

V Wars explora uma guerra entre vampiros e humanos, que tem tudo para acabar mal.

Este debate trouxe à tona as piores caraterísticas dos seres humanos. Na tentativa de excluírem os ‘diferentes’ e de fazer com que tudo regressasse à normalidade, são desenvolvidos campos de concentração para vampiros. Quem preenche os requisitos para ser considerado um destes seres – ou até quem partilha casa com os mesmos – é despachado para estes locais terríveis. Com um extermínio em massa no horizonte, resta tentar impedi-lo. A meu ver, esta forma de retratar o desespero humano perante o desconhecido é a melhor narrativa de toda a série. Parece inconcebível, mas, se refletirmos bem sobre o assunto e se analisarmos o passado, percebemos que, se os vampiros fossem, de facto, uma realidade, este seria um dos desfechos possíveis.

Uma abordagem alternativa com potencial, mas que não vinga

Outra caraterística a favor de V Wars é a forma como a série escolheu desenvolver o surgimento destas criaturas. Desta vez não foi por magia e sim através da ciência: mais precisamente de partículas que se encontravam adormecidas no Ártico. Em V Wars, não são abordados fatores como a repulsa a alho ou a impossibilidade de exposição ao sol – é, em vez disso, explorado como o vampirismo se pode contrair sem ser através da típica mordida no pescoço. 
Enquanto vírus, esta infeção propaga-se pelo mundo sem existir cura. Basta respirar o ar em que o agente habita para se contrair a “doença” – sim, a Netflix escolheu retratar o vampirismo enquanto doença. É uma abordagem sem sombra de dúvida interessante, tal como a de que os vampiros não são monstros e sim pessoas com diferentes caraterísticas, que se encontram doentes. 
Contrariando as abordagens mais recorrentes até à data, em V Wars a existência dos vampiros é conhecida pela humanidade. Estamos habituados a que estes seres convivam entre humanos em segredo, escondendo a sua verdadeira essência. Neste caso, todos estão cientes de que estão entre si criaturas com sede de sangue.  

A série, baseada no livro V-Wars: Chronicles of the Vampire Wars, de Jonathan Maberry (2012), tinha tudo para conquistar aquilo a que se propôs. Porém, a narrativa não foi explorada da melhor maneira e acabou por não se aproveitar na totalidade o potencial que tinha. Resta desejar que a segunda temporada (ainda por confirmar) corrija os erros da primeira.

Crítica. 'V Wars', a nova série de vampiros da Netflix, tinha tudo para vingar, mas não foi capaz
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