A 4 de dezembro, já na correria das listas de fim-de-ano, o Espalha-Factos abriu uma votação a toda a equipa para escolher as figuras e acontecimentos mais marcantes do ano. Fizemos um disclaimer: deviam ser relevantes nas áreas da cultura, das artes e do entretenimento.

Todos os disclaimers servem, em grande parte, para serem ignorados. E assim aconteceu, com uma concertação silenciosa e não combinada em torno de Greta Thunberg. Quando começámos a votar ainda faltava uma semana para a Time divulgar que a tinha escolhido como Personalidade do Ano, mas essa distinção só comprova a justiça da nossa escolha.

Greta Thunberg

Fotografia: Time / Divulgação

Um ícone de 2019

Não é difícil entender que a cultura, a arte, o entretenimento, são impactados pelo mundo que nos rodeia e Greta tornou-se, em grande parte, um ícone da cultura contemporânea. A primeira representante da angústia de milhões de jovens que, depois de terem encontrado um mundo que já não lhes dá garantias de um emprego justo e de uma vida melhor que a dos seus antepassados, constatam agora que podem também ficar sem um mundo em que possam viver. É muito além da paz, pão, habitação, saúde e educação.

The 1975 lançaram em 2019 uma nova faixa, com o mesmo nome da banda, e que desta vez é “narrada” pela jovem sueca. Destaca a emergência em que nos encontramos, sublinha o alerta para a existência de crise climática e ambiental e relembra que esta só se vai resolver se pararmos de fazer certas coisas.

É justamente quando Greta relembra que há certas coisas que temos de parar de fazer que encontra alguns adultos que se opõem firmemente a ela. Aos 16 anos, a ativista já foi chamada de pirralha por Bolsonaro e aconselhada por Trump a controlar a fúria. Os mesmos que, alegremente, recusam a existência de alterações climáticas e se propõem a nada mudar enquanto hipotecam o futuro de gerações inteiras.

Num mundo em que dizer as coisas certas e verificadas cientificamente é um fator que gera acalorado debate, Greta fez-se uma figura controversa. Estimulou o aparecimento de greves climáticas por todo o mundo – com alunos a faltarem às aulas para protestarem pela preservação do ambiente – e passou a ser aconselhada por milhares de tios chatos de todo o mundo para que não deixe de ir à escola, isto, claro está, nas mensagens nas caixas de comentário dos jornais e do Facebook. Não se preocupem, ela terminou o ano com 14 As e três Bs.

Diagnosticada com síndrome de Asperger, hiperatividade, transtorno obsessivo-compulsivo e mutismo seletivo, tem provocado desconforto pela forma como se expressa, e relembra os conservadores que não acredita que se resolva esta situação “a jogar pelas regras“. Até porque foram essas mesmas regras que nos trouxeram aqui.

O sistema reagiu. Os governos da Alemanha e da França acusam-na de se virar contra quem está a fazer alguma coisa, ao invés de insistir com aqueles que teimam em não fazer nada. Vladimir Putin considerou-a “gentil e sincera“, mas não hesita em chamá-la de “mal informada” e de que considera legítimo que “num mundo moderno complexo e diferente, as pessoas em África e em muitos países asiáticos queiram viver com o mesmo nível de riqueza que na Suécia“.

Greta, que parece longe da unanimidade, é a Mulher Sueca do Ano de acordo com a Swedish Women’s Educational Association, foi nomeada ao Prémio Nobel da Paz por dois deputados suecos e três deputados noruegueses e teve a Universidade de Mons a dar-lhe um doutoramento honoris causa.

Se uma adolescente sueca, nerd das ciências, que se recusa a andar de avião, e que nunca usou maquilhagem ou foi a um cabeleireiro pode ser escolhida como uma Mulher do Ano por uma das maiores revistas de moda do mundo, então acho que quase nada é impossível. Isso é esperançoso, porque é disso que precisamos agora para evitar uma catástrofe climática. Nós devemos fazer o impossível“, escreveu no discurso de agradecimento do prémio Mulher do Ano da revista Glamour, lido por Jane Fonda.

2019 é só o começo. E as coisas continuam a aquecer. Será que o impulso de Greta vai ajudar a que nos consigamos salvar?