2019 foi um ano de surpresas no meio artístico nacional, desde obras como Variações à ascensão do fenómeno Conan Osiris. A televisão portuguesa subiu também a parada ao trazer de volta Conta-me Como Foi, a emblemática série que reivindicou um pedestal capaz de transcender gerações. O Espalha-Factos atribui-lhe o título de série nacional do ano.

De 2007 a 2011, Portugal conhece a família Lopes nas imediações do 25 de abril de 1974, época cinzenta onde os recursos e a liberdade escasseiam. O quotidiano de Carlitos (Luís Ganito), Isabel (Rita Brütt), Tóni (Fernando Pires), António (Miguel Guilherme), Margarida (Rita Blanco) e Hermínia (Catarina Avelar) pontua a narrativa, levando à rememoração de um passado talvez demasiado recente.

No entanto, fica muito por contar, algo que não passa despercebido à RTP. A estação pública decide provar a persistência da série no imaginário coletivo ao reinventá-la para os espampanantes anos 80. A família cresce, a nostalgia também e a série entra de novo no alinhamento do canal em dezembro de 2019.

“Há muito, muito tempo…”

Entre o icónico genérico de O Tal Canal ao frenesim do rally Paris-Dakar em 84, a sexta temporada de Conta-me Como Foi ressuscita a fórmula de sucesso utilizada nos cinco ciclos antecedentes.

“Retratar, em forma de ficção, a vida e o país […] sem espírito saudosista, sem abordagens moralistas, sem juízos de valor, sem tomar partido por nenhum lado da história […] com a ambição de entreter […]  e reviver um tempo que faz parte da história pessoal de milhões de portugueses”, como se pode ler na sinopse disponibilizada pela estação.

O elenco original regressa para mostrar um Portugal que deixa a dormência em prol da democracia. O país está disposto a aventurar-se em novos tópicos, como as primeiras discussões sobre a legalização do aborto, e horizontes, à semelhança da esperançosa entrada na Comunidade Económica Europeia. Os 52 episódios confirmados até ao momento ganham cores garridas, sem esquecer o lado negro da euforia e o contexto exterior à cosmopolita capital.

Rita Blanco e Miguel Guilherme em Conta-me como foi

Fotografia: RTP / Divulgação

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Para José Fragoso, diretor de programas da RTP, a estreia constitui “um dos maiores eventos televisivos do ano”. De facto, os números falam por si. Conta-me Como Foi arrecada já o título de programa de ficção mais visto na RTP Play, com cerca de 60 mil visualizações na plataforma. Tal procura traduz um importante marco para a transmissora, apenas ultrapassado por emissões da competição musical The Voice.

As filmagens, iniciadas em agosto, irão decorrer até fevereiro de 2020. Avizinham-se, assim, voltas e reviravoltas suficientes para continuar a animar as noites de sábado. Em retrospetiva, o retorno da série impacta o ano pela arte de fazer muito com pouco, aproximando aquilo que parece longínquo. De ‘20 anos’ por José Cid a ‘Dunas’ de GNR, Conta-me Como Foi continua a quebrar barreiras. Afinal, juntar a família à volta do televisor não é coisa do passado.