Foto: VisualHunt

4 poemas de Natal na voz de poetas portugueses

É Natal, a apelidada época mais mágica do ano. O Espalha-Factos não se esqueceu de uma das formas de escrever mais mágicas também: a poesia. Deixamos-te alguns poemas de Natal, escritos por poetas portugueses, para entrares de forma poética no espírito natalício. Saboreia a época natalícia enquanto lês Manuel Alegre, José Jorge Letria, Miguel Torga e Pedro Tamen.

Natal

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Era gente a correr pela música acima.

Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.

Guitarras guitarras. Ou talvez mar.

E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.

No teu ritmo nos teus ritos.

No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).

Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.

E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.

No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).

Todo o tempo num só tempo: andamento

de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.

Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva

acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva

na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.

Como se fosse na palavra a rosa brava

acontecia. E era Dezembro que floria.

Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.

E era na lava a rosa e a palavra.

Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

Manuel Alegre em Poemas de Natal

MA
Manuel Alegre

Este poema de Natal é bem ao jeito do poeta Manuel Alegre: intenso e cheio de significados. Alegre descreve não apenas a noite de natal em si mas também todo um ambiente natalício, propício à poesia e ao encanto. O poeta escreve sobre encontrar o natal em cada canto e em cada pormenor da vida mundana.

O Natal da escola

O Natal vai à escola

com roupas de fantasia;

num bolso leva os sonhos

e no outro a poesia.

O Natal pousa nos livros,

no quadro e nas carteiras

e deixa um pó de estrelas

no fundo das algibeiras.

E até o telemóvel,

que na aula não deve entrar,

quando toca de repente

é o Natal que vem lembrar.

O Natal entra na escola,

na mochila e nos cadernos

e segreda ao ouvido

os votos que são eternos.

O Natal é o recreio

que a campainha anuncia; 

todos celebram contentes

O sentido desse dia.

(…)     

 José Jorge Letria em O Livro do Natal

Fonte: Portal da Literatura

José Jorge Letria é um dos incontornáveis nomes da poesia portuguesa. Tem vários poemas escritos sobre a época natalícia. Neste em particular, escreve sobre a magia do Natal na escola. Escola essa, lugar onde se cresce, onde se aprende o sentido das coisas: entre elas, o sentido do próprio Natal. O espírito natalício invade todo o lado, até as salas de aula.

LÊ TAMBÉM: O NATAL AOS OLHOS DOS GRANDES POETAS PORTUGUESES
Não Digo do Natal

Não digo do Natal – digo da nata

do tempo que se coalha com o frio

e nos fica branquíssima e exacta

nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade

esses tempos relíquidos e pardos

e faz assim que o coração se agrade

de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então

é que descobre dias de brancura

esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura

moídas numa só, e feitas pão

com que a vida resiste, e anda, e dura.

Pedro Tamen, em Antologia Poética

Fonte: Wook

Este poema de Pedro Tamen fala-nos da época natalícia de uma forma peculiar, mas não menos interessante. Tal como nos indica o título, o autor não pretende falar do Natal em si, mas sim de outros pormenores da época que se enaltecem com a chegada da época e do mês de Dezembro.

Último Natal (1990)

Menino Jesus, que nasces

Quando eu morro,

E trazes a paz

Que não levo,

O poema que te devo

Desde que te aninhei

No entendimento,

E nunca te paguei

A contento

Da devoção,

Mal entoado,

Aqui te fica mais uma vez

Aos pés,

Como um tição

Apagado,

Sem calor que os aqueça.

Com ele me desobrigo e desengano:

És divino, e eu sou humano,

Não há poesia em mim que te mereça.

Miguel Torga, em Diários

Miguel-Torga
Foto: Miguel Torga

Um poema de Miguel Torga sobre o Natal, de entre os muitos poemas que Torga em vida escreveu. Este poema é uma ode ao menino Jesus, uma homenagem feita pelo poeta que se descreve como apenas humano, já que Jesus Cristo é divino. O poeta remata esta ideia com o verso “Não há poesia em mim que te mereça”.

LÊ TAMBÉM: GUIA TV: OS CLÁSSICOS E AS ESTREIAS DESTE NATAL NOS CANAIS DO CABO

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