Crítica. ‘Judy’, assim cai uma estrela

Estreado em outubro deste ano, Judy, o filme que marca o regresso de Renée Zellweger ao grande ecrã, é um dos possíveis nomeados ao Óscar na categoria de Melhor Atriz.

Realizado por Rupert Goold, o biopic de Judy Garland deu que falar assim que os primeiros passos do projeto começaram a desenvolver-se. Renée Zellweger foi confirmada no papel principal e, a juntar ao mediatismo que a estrela que seria retratada já tinha, os astros alinharam-se e os críticos prepararam-se para aclamar Judy. Porém, foi sol de pouca dura.

Focado nos últimos meses de Judy Garland, o filme retrata principalmente a luta de custódia pelos filhos que a atriz enfrentou nos seus últimos tempos, o vício no álcool e nas drogas, mas também a turbulenta relação com o mundo do cinema, em especial quando era nova.

Quem foi Judy Garland?

Judy Garland é, talvez, um dos maiores ícones – se não mesmo o maior – da Época de Ouro de Hollywood. Descoberta quando era uma mera jovem, Frances Gumm, o seu nome de nascimento, rapidamente alcançou o estrelato e eclipsou atrizes que tal, como ela, sonhavam com um lugar ao sol.

Dona de uma voz inesquecível, Garland protagonizou vários musicais, entre eles o clássico The Wizard of Oz, quando tinha apenas dezassete anos, e outros como Não Há Casa como a Nossa, Festas no Campo ou Até as Nuvens Passarem, tudo durante o tempo em que manteve contracto com a produtora MGM.

Quando a produtora decidiu cortar Garland dos seus planos em 1950, a atriz teve muitas dificuldades em voltar ao grande ecrã. Protagonizou o seu próprio musical na Broadway em 1951, conseguindo vencer um Prémio Tony pela sua atuação em teatro, mas foi apenas em 1954 que voltou a conseguir um papel num filme que parecia capaz de lhe salvar a carreira: Assim Nasce uma Estrela.

Na altura, o primeiro remake do filme de 1937, que entretanto já ganhou versões com Barbra Streisand e Lady Gaga, a nova versão de Assim Nasce uma Estrela contava a história de uma ator que consegue colocar uma atriz nos píncaros do estrelato, à medida que a sua própria carreira mergulha nas drogas e no álcool. Contudo, a expectativa não correspondeu à realidade e a história de Vicki Lester não só não fez maravilhas à carreira de Garland (apesar da nomeação que recebeu ao Óscar pelo papel), como também acabou por resultar como presságio para os anos que estariam por vir.

The Judy Garland Show (1963 – 1964).

Na década de 60, Garland chegou a tentar a televisão. The Judy Garland Show durou cerca de dois anos, mas ao passar por inúmeras transformações, perdeu a essência e nunca foi realmente um sucesso. Ainda rendeu uma nomeação ao Emmy para Garland, mas também não foi a salvação que a estrela precisava.

Longe da vida que antes conhecera, Garland viu-se obrigada a ficar longe dos filhos, longe da América e forçada a focar-se na carreira musical, pois já nenhum estúdio lhe reconhecia o brilho de outrora. É neste trágico evento da vida da estrela de Hollywood que o filme de Rupert Goold se desenvolve.

O ícone de uma batalha

As suas aventuras para lá do arco-íris marcaram a sua carreira e transformaram-na num ícone LGBT. A Revista The Advocate chegou a apelidá-la de “O Elvis dos gays“, que sempre nutriram uma grade admiração pela estrela. Alguns afirmam ter sido pela sua garra e força nos seus momentos traumáticos, outros pela vida amorosa turbulenta que segundo alguns, serve de reflexo para a gay culture.

A frase “amigo de Dorothy” (personagem vivida por Garland em O Feiticeiro de Oz) tornou-se um código para a comunidade homossexual, de forma a identificarem-se uns aos outros, quando as limitações da sociedade impunham normas que baniam as viagens ao outro lado do arco-íris.

Apesar de nunca ter carregado bandeiras, Garland e o seu ativismo são expressos no filme de Goold, através de uma cena em que a atriz tem um breve encontro com um casal homossexual, que rapidamente se transforma numa amizade. “Anybody’ who’s different… They can’t stand it. Well, to hell with them!” é uma das frases do filme.

Do bom e do melhor

Renée Zellweger interpreta Judy Garland, em ‘Judy’.

Fazer nascer uma estrela não é tarefa fácil, mas vestir a pele de uma parece ser igualmente complicado. Renée Zellweger estava afastada dos grandes papéis há vários anos, encabeçando, recentemente, comédias românticas de qualidade duvidosa. Porém, Judy serve como viagem aos tempos glórios da sua fama, mas também como lembrança de que esses tempos ainda não estão terminados.

Passaram-se quase dezoito anos desde que Zellweger vestiu a pele de Roxie Hart, a protagonista de Chicago, mas a sua voz continua a surpreender. Apesar de nunca conseguir chegar perto da voz incomparável de Judy Garland – uma tarefa injusta, diga-se – Zellweger não desaponta e entrega-nos atuações brilhantes, numa performance memorável.

A banda sonora da longa está também ela carregada do bom e do melhor. Desde Get Happy – de Festas no Campo – a By Myself, Judy apresenta-se como um musical low-profile, carregado de intensas emoções, conflitos dramáticos e uma atuação poderosa de Zellweger.

Mas… Já não vimos isto?

Os filmes biográficos começaram a esgotar-se. Marion Cotillard e a sua Édith Piaf estrearam a fórmula que veio a dar-nos Bohemian Rhapsody, e Rocketman, sobre Elton John. Em Portugal, tivemos até direito a Variações. Infelizmente, uma biografia sobre Judy Garland já não conquista, já não impacta e muito menos surpreende. Talvez tenha estreado na altura errada. Talvez.

Para mal de muitos pecados, a realização de Rupert Goold também não é particularmente interessante. Oferece-nos planos aborrecidos e pouco frescos, aliado a uma cinematografia que também não nos traz nada de novo.

Os números musicais, apesar do grande estofo vocal de Zellweger, também não são memoráveis e mesmo tratando-se de um musical discreto, Judy não se adapta à sua versatilidade genérica e parece ser apenas mais um filme.

O restante elenco também não conquista. Na verdade, podemos até dizer que Renée Zellweger carregou todo o filme às costas, pois existem poucos atrativos a sustentar a longa-metragem. A realização é mediana, o elenco é fraco e o ângulo escolhido para contar a história de vida de uma das maiores estrelas do século passado é, no limite, deprimente.

Judy mostra-nos a queda de uma estrela, mas mostra-nos também a queda de um estilo. Já se perdeu a conta aos filmes sobre cantores que, após perderem duas horas a mostrar a sua conturbada vida, terminam com uma grande ovação de um público desconhecido que parece querer dizer-nos “Esqueçamos o artista e admiremos a arte“, quando todo o objetivo do projeto foi focar-se no artista. Vá se lá entender.

Com uma atuação vibrante, que irá certamente render uma nomeação a Renée Zellweger nos próximos Óscares, Judy é pouco mais que isso. Não faz jus à estrela que Judy Garland foi, mas não deixa de ser um filme satisfatório que nos prepara para a saga de prémios que está a chegar.

Título original: Judy
Realização: Rupert Goold
Argumento: Tom Edge
Elenco: Renée Zellweger, Rufus Sewell, Peter Quilter, Finn Wittrock
Género: Biografia, Drama, Romance
Duração: 118 minutos

LÊ TAMBÉM: BAR EM LISBOA VAI PERMITIR-TE ENTRAR NO MUNDO DE ‘THE WITCHER’
Reader Rating0 Votes
0
6
Mais Artigos
Ricardo Araújo Pereira participa nas conversas da FFMS
Ricardo Araújo Pereira discute ‘O País Que Se Segue’ em ciclo de conversas digitais