Rui Veloso atuou este sábado no Pavilhão Rosa Mota. O espaço renovado recebeu um concerto do maior ícone musical da cidade Invicta.

O concerto começou com 15 minutos de atraso, já que o artista quis esperar pelas pessoas que ainda estavam a entrar à hora marcada. “Eu sei que o trânsito está complicado então decidi esperar pelo pessoal que também pagou bilhete”, disse Rui Veloso ao entrar em palco.

Guardador de Margens foi a canção escolhida para iniciar o espetáculo. Logo a seguir, Bairro do Oriente o primeiro de muitos grandes clássicos que compunham o alinhamento. “Estou em casa, estou em família”, admite Rui Veloso. O músico mostrou-se feliz e descontraído durante todo o concerto.

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Balada da Fiandeira e Nunca me esqueci de ti, algumas das “canções importantes” na vida de Rui Veloso e dos seus fãs, foram as próximas. Depois, Sei de uma camponesa, um dos grandes poemas de Carlos Tê.

A Origem do Mal fala de Adão e Eva no Palácio de Cristal e a mais recente renovação desse espaço histórico merece elogios de Rui Veloso: “Antes pediam-me para tocar no Palácio e dizia nem pensar, mas isto agora está muito bom. Está uma bela sala”.

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Fotografia: Rui Veloso no Marés Vivas 2016

O concerto teve direito a convidados. Antonio Serrano e a sua harmónica já são visitantes habituais. Tocou-se Sexta-Feira nem que chova Elétrico Amarelo. O músico espanhol deslumbrou o Pavilhão Rosa Mota com os seus solos sensacionais.

JuraRegras da Sensatez antecederam Primeiro Beijo, uma das grandes baladas de Rui Veloso. A prova maior do estatuto icónico deste poema desesperado são os aplausos que surgem só com a escuta dos primeiros acordes. A canção uniu a voz da plateia com a do músico para criar um dos momentos mais bonitos da noite.

A atualidade das letras de Carlos Tê foi um aspeto realçado ao longo de todo o concerto. Depois de se ouvir as críticas sociais presentes em Eles compram tudo e Beautiful People é difícil afirmar o contrário. “São precisos muitos séculos para mudar mentalidades. Somos tugas e acabou“, reflete Rui Veloso.

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É esse povo português que se recorda de O prometido é devidoPorto CôvoJá não canções de amor, todas elas tocadas ao longo do espetáculo.  Um dos melhores momentos instrumentais surgiu em Não me mintas, canção feita para o filme Jaime (1999). A banda de apoio a Rui Veloso não tem um único elemento fraco, cada músico contribui e acrescenta algo importante às músicas atuadas.

O outro convidado da noite foi Bezegol. A voz inconfundível do “amigalhaço” portuense juntou-se aos restantes elementos em palco para cantar Maria.

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Fotografia: Bezegol e Rui Veloso a gravar “Maria”

O fim da parte principal do concerto aproximava-se. Lado Lunar colocou a sala dançar e Sayago Blues fez regressar Antonio Serrano. Seguiu-se uma batalha de harmónicas entre Rui Veloso e o músico espanhol que terminou nos acordes de Chico Fininho. Foi com este “blues à moda do Porto” que os artistas se despediram do palco.

O adeus foi curto e pouco depois estavam todos de volta em palco. Rui Veloso fez um brinde com um copo de vinho que não era do Porto “mas é bom”Falta de Quorum, uma canção feita há mais de 30 anos, arrancou o encore.

Não há estrelas no CéuUm trolha da areosa acabaram de vez com o pudor do público e colocaram toda a plateia a dançar. As pessoas dançavam e gritavam, Rui Veloso sorria e acenava. Não era um artista a atuar para espetadores. Era um velho amigo a fazer uma festa com os seus camaradas.

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Os ânimos acalmaram, mas todos continuaram de pé, com a melodia da harmónica do músico portuense. Tinha chegado a hora de A Paixão, talvez a balada mais transcendente do repertório de Rui Veloso. O anel de rubi não dá nome à canção, mas é o símbolo maior do amor falhado.

Quando já todos se sentavam nos lugares, ouviu-se os acordes que introduzem Porto Sentido e voltaram a ficar de pé. Os portuenses cantaram o hino tão melancólico como a própria cidade que homenageia.

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Fotografia: Rui Veloso

Para terminar o alinhamento, uma canção de Natal: Presépio de Lata. Acontecimentos recentes provaram de novo a tese que as letras de Carlos Tê continuam atuais. A quadra natalícia, tal como esta música,  não apaga as condições desfavoráveis em que muitos vivem, mas pode trazer-lhes esperança.

O concerto programado terminou, o público ofereceu uma enorme ovação aos artistas que se abraçaram e fizeram uma vénia. “Não posso senão abraçava-vos a todos”, diz Rui Veloso. Não pode dar um abraço, mas pode dar um presente. E deu.

Do nada, Rui Veloso fala com os músicos em palco e diz que vai cantar mais uma.  Cavaleiro Andante, o clássico que faltava e que surgiu como se de um milagre de Natal se tratasse. Foi o inesperado último momento de união entre a audiência que esteve sempre ao lado do músico portuense. “Bom Natal! Vão para casa, caralho!”, despede-se, definitivamente.

Rui Veloso regressou a casa para celebrar o Natal. A família da cidade Invicta recebeu o seu ícone de braços abertos.

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