Anna Karina, uma das mais emblemáticas atrizes do período da Nouvelle Vague francesa nos anos 60 do século XX, morreu ontem nos seus 79 anos de idade. Connosco deixa um dos maiores legados do cinema europeu.

O Van Gogh uma vez disse que a morte nos levava a outra estrela“, afirma Bruno (personagem de Michel Subor) no Le Petit Soldat, de 1963, enquanto Jean-Luc Godard fazia um grande plano de Anna Karina, na altura uma atriz ainda na sua menoridade e que acaba de se estrear na filmografia Godard. E as estrelas, para onde vão?

Anna Karina nasceu Hanna Karin Blarke Bayer em Copenhaga, a 22 de setembro de 1940. Começou rapidamente a pavimentar a sua carreira no mundo das artes e apenas com 14 anos apareceu em Pigen og Skoene, uma curta-metragem de Ib Schmedes e o seu primeiro trabalho no mundo do cinema. Mais tarde em 1959 marcou também a sua primeira presença no Festival de Cannes, já que esta curta-metragem acaba por vencer o prémio de “Melhor Curta-Metragem poética”.

Mudou-se da Dinamarca para a França, mais concretamente Paris, aos 17 anos, depois de arrufos familiares. Até a sua chegada à cidade parece retirada de um dos seus futuros filmes, já que foi à boleia de Copenhaga a Paris. Começou a trabalhar como modelo e chegou à capa da ELLE. No início da sua carreira teve um encontro com Coco Chanel que a aconselhou a mudar de nome e a batizou de Anna Karina.

Jean-Luc Godard encontrou-a num anúncio de sabonete e convidou-a imediatamente para protagonizar o À Bout de Souffle (Acossado em Portugal), hoje uma das obras mais conhecidas do realizador. Na altura Anna recusou e o papel acabou por ser entregue a Jean Seberg. Em 1960 finalmente estreia-se na filmografia de Godard, com Le Petit Soldat (O Soldado das Sombras em Portugal), mas o filme só estreou anos mais tarde por ser cortado pela censura francesa.

Depois de Le Petit Soldat, Anna Karina entra em mais 6 filmes de Jean-Luc Godard (realizador que foi também o seu marido até 1965): em 1960 filma o seu segundo filme com o realizador, Une Femme est une Femme (Uma Mulher É Uma Mulher em Portugal) que acabou por ser o primeiro filme a estrear da parceria Godard x Karina.

Seguiu-se depois ainda mais 5 filmes com Godard, que ficaram para a história do movimento da Nouvelle Vague e que iconizaram Anna Karina como um dos seus principais símbolos: Vivre Sa Vie (1962), Bande à Parte (1964), Pierrot Le Fou (1965), Alphaville (1965) e Made in USA (1966).

Rapidamente se tornou na “musa” mais conhecida de Jean-Luc Godard e tornou-se numa das atrizes mais requisitadas e conhecidas do cinema francês. Ainda nos anos 60 trabalhou com nomes como: Michel Deville, Agnès Varda, Jacques Rivette, Luchino Visconti, George Cukor. 

Nos anos 70, Anna Karina estreia-se na realização com Vivre Ensemble, filme que estreou na França em 1973, protagonizado pela própria. Foi nesta década também que trabalhou com Rainer Werner Fassbinder, em Roleta Chinesa (1976). Já nos anos 80, fez parte d’A Ilha do Tesouro, filme de Raul Ruiz (1985).

Chega aos anos 90 e inícios dos 2000 com menos presença no grande ecrã, mas como uma das mais reconhecidas atrizes do movimento da Nouvelle Vague francesa e entra para sempre para a História do cinema mundial.

Em 2018, Anna Karina e Jean-Paul Belmondo, seu companheiro de representação no Pierrot Le Fou, foram a cara do Festival de Cannes – o Festival escolhe um filme para homenagear em todas as suas edições, sendo esse filme o destacado depois nos materiais gráficos dessa edição.

Em 2019, Anna Karina foi a heroína indie do Festival IndieLisboa, que lhe fez uma grande retrospetiva em toda a sua carreira e nos seus papéis mais icónicos. Nessa altura não conseguiu estar presente no Festival já por motivos de saúde.

Ao Público, numa entrevista em abril de 2019, admitia que não tinha quaisquer arrependimentos e que vivia feliz. “A vida deu-me muito mais do que eu poderia esperar quando era miuda. Foram tudo presentes maravilhosos. A minha vida é um presente maravilhoso.

Uma galeria dos momentos mais marcantes da carreira de Anna Karina: