Amy Winehouse, antes de "Frank"
Amy Winehouse, antes da fama (https://beforefrank.com/)

Retrospetiva. Amy Winehouse e Adele, em direto de 2011

Estamos em 2011. Os LCD Soundsystem tocam juntos naquela que seria, supostamente, a última vez. Os R.E.M. separam-se. A Kelly Clarkson volta a toda a força, literalmente, com o álbum Stronger.

E hoje, o Espalha-Factos traz-te duas das vozes femininas que fizeram a ponte entre três gerações – a X na retaguarda, os destemidos millennials e a condecorada Z. Ambas marcaram o panorama musical de 2011 e o panorama musical de uma década (2009-2019). E encontramo-las em pontos muito distantes da sua carreira: uma, no fim; a outra, no começo.

O contralto do jazz, do blues e do soul

Amy Winehouse teve uma carreira e uma vida curta – aos 27 anos, voltava ao negro.

Amy Winehouse, antes de "Frank"
Amy Winehouse, antes da fama (before frank)

Em tempos profundamente marcados pela música pop e pelo crescimento de seus subgéneros, Amy Winehouse trouxe de volta o gosto de ouvir soul, aqui cantado por uma mulher branca, e o improvisado prazer do jazz, embora a compositora e multi-instrumentista o fizesse mais com a sua voz.

A história da cantora britânica foi contada através desse som invulgar e das letras melancólicas que o acompanharam. E foi com isto mesmo que se espelharam os vícios de Amy.

Ironicamente ou não, o seu nome nomeia logo um: bebidas alcoólicas. Basta ouvir uma ou duas canções de Amy Winehouse para entender que substâncias psicoativas fizeram parte do seu dia-a-dia, inclusive no momento em que o seu dia-a-dia deixou de existir.

Rehab‘ (2006) foi o single que a lançou no estrelato, misturando ritmos do R&B, do soul, e tornando-se num dos blues em que Amy, além de também se sentir azul, apresenta desde logo parte da sua biografia: tentativas falhadas (ou recusadas) de ser internada numa clínica de reabilitação para lidar com estes problemas.

Ao consumo de substâncias juntava-se a presença de Blake Fielder-Civil. Blake, hoje apenas conhecido como o ex-marido de Amy Winehouse, foi várias vezes acusado de ser o responsável pela morte da cantora, principalmente por incitar a mesma ao uso destas substâncias. Acusações de adultério, e rumores que na altura presumiram abuso psicológico dentro da relação, culminaram em 2009 no divórcio.

Apesar da tentativa de regresso de Amy Winehouse depois de várias recaídas nos primeiros anos da sua carreira, que a levaram a optar por se afastar dos palcos, o destino fatal de Amy lia-se nos seus olhos. E também se lia, nas entrelinhas, que Amy precisava de descanso.

A decadência

Para aqueles que estiveram mais atentos no início da década, há atitudes na persona de Amy Winehouse em palco que ficaram para a história:

Ainda antes do começo da nova década, Amy Winehouse passava em Portugal para atuar no Rock In Rio Lisboa, em 2008, e as opiniões dos que estiveram presentes não foram favoráveis. “Ela foi, mas o espectáculo ficou para a história do festival pelas mais estranhas razões: não foi um bom concerto, a voz da cantora londrina estava em dia não e pairou sempre entre a plateia o tom constrangedor de quem não sabe se há-de rir ou chorar“, leu-se no Público

Ela foi, mas podia não ter ido – como aconteceu com vários dos concertos que, ao longo dos anos, Amy foi cancelando. As entrelinhas disseram-nos que Amy não queria estar ali, ou em qualquer dos concertos que antecederam o último.

E, caro leitor, as imagens que se seguem não são apenas suscetíveis mas certamente capazes de ferir sensibilidades.

Amy Winehouse apresentou-se pela última vez em palco em Belgrado, na Sérvia, em junho de 2011. Um mês antes, Winehouse estava no processo de reabilitação, pelos seus problemas de alcoolismo, o qual abandonou para iniciar uma tour pela Europa – da qual o único concerto que se conheceu foi este. Além da notória embriaguez da cantora, a quem não foi permitido que abandonasse o palco mesmo após ter sido vaiada pelo público, chegaram ainda relatos de que a cantora foi forçada a atuar naquela noite.

23 de julho de 2011

Seria encontrada na sua residência, já sem vida, a cantora cujo tom contralto se continua a ouvir na rádio através da popular ‘Valerie‘ (2006). Tendo sido presumida a overdose de álcool, os primeiros rumores apontaram para o suicídio.

Mais tarde, confirmar-se-ia que a morte de Amy Winehouse foi acidental, provocada por uma forte ingestão de álcool após um período de abstinência, ao que se juntou o sistema nervoso em colapso e a sua débil saúde física, culminando numa paragem respiratória. Aos relatos da autópsia acrescentou, o irmão da cantora, os problemas alimentares de que Amy nunca recuperara.

Independentemente de uma morte acidental ou não, e isto ainda se discute em relação a outros músicos que partiram na mesma situação, Amy Winehouse juntou-se ao Clube dos 27, o que contribuiu para a sua eternização na cena musical. O Clube fundou-se com membros honrários como Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison. Na década de 1990, recrutaram Kurt Cobain e então, duas décadas depois, Amy Winehouse.

Querida Amy: não te deixamos morrer

Hoje, olhamos para Amy Winehouse indubitavelmente como um exemplo de como o consumo (abusivo) de substâncias ilícitas pode levar à decadência humana. Embora, infelizmente, continuemos a ver músicos partir por motivos semelhantes. Esta análise não deve ignorar, por outro lado, os motivos que levaram os artistas a recorrer a estas substâncias.

Muito bem: agora, enrolemo-nos no profundo

Nem tudo são más notícias. É certo que perdemos uma das grandes vozes a sair de um bebé dos anos 80, mas foi também em 2011 que descobrimos o vozeirão que se perdera a perseguir calçadasNão queremos, no entanto, substituir o poder insubstituível de Amy Winehouse – aliás, enaltecemo-lo aqui também:

Se não fosse pela Amy e por Frank [álbum], 100% de certeza que eu não teria pegado numa guitarra, não teria escrito ‘Daydreamer‘ ou ‘Hometown‘, e eu escrevi ‘Someone Like You‘ na guitarra também.”, são palavras da dona do vozeirão, para a i-D. “Contrariamente ao que é dito, eu e a Amy nunca nos conhecemos, não éramos amigas ou algo assim. Eu andei na Brit School e ela também. Eu adorava-a.

Estamos a falar da, também britânica e aliás, londrina, Adele Atkins.

Passaram nove anos e o certo é que ninguém deixou de sentir o arrepio no refrão “We could have had it all / Rolling In The Deep / You had my heart inside of your hand / And you played it to the beat“, que antecipou o álbum 21, a ser lançado em janeiro de 2011.

O seu segundo álbum de estúdio, antecedido pelo álbum de estreia 19 (2008), foi uma lufada de ar fresco que soprou um pouco de pop, R&B e soul, à moda verdadeiramente britânica, com tons de folk aqui e ali.

Com 21, Adele conseguiu igualar-se a The Beatles, ao ter um álbum e um single ao mesmo tempo na primeira posição dos charts britânicos. E deve-o ao seu hino emocional, ‘Someone Like You, que temos ouvido as nossas mães e tias a cantar, quando passa nas estações de rádio desde então.

Em 2015, Adele voltaria com 25 (temos aqui uma senhora que diz a sua idade sem qualquer receio). Ao contrário de 21, que classificara como o desabafar de uma desilusão amorosa, a cantora classificou o seu novo álbum como o espelho da pessoa em que se foi tornando. Mesmo assim, o tom melancólico de algumas das canções continuou caraterístico, e o grande hit do seu regresso foi ‘Hello‘, onde mais uma vez encontramos arrepios mas, também, muitas piadas acerca dos primeiros versos.

Ou ainda, comparações a hits cuja palavra-chave é a mesma, como se ouve o clássico “Hello, is it me you’re looking for?” de Lionel Richie e, para os menos românticos, um “Hello darkness, my old friend” do duo Simon & Garfunkel.

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Entretanto, Adele foi provando o seu talento ao trazer para casa várias estatuetas que ilustram o seu sucesso. A britânica tornou-se mediática nas premiações mais condecoradas da música e da indústria do entretenimento, nomeadamente nos Grammy Awards.

Este romance bonito entre Adele e os pedaços de metal com significado começou em 2009, onde foi galardoada com o prémio de Artista Revelação, com o seu álbum de estreia 19.

Adele nos Grammys, 2009, 2012 e 2017 (Getty Images)
Adele nos Grammy Awards, em 2009, 2012 e 2017. (Getty Images)

Três anos depois, 21 era o Melhor Álbum e Melhor Álbum Vocal de Pop do Ano, ‘Rolling In The Deep‘ era a Melhor Canção, Melhor Gravação e tinha o Melhor Vídeoclipe do Ano, e ‘Someone Like You‘ era a Melhor Performance a Solo de Pop. Adele fazia história: levou 5 prémios para casa, das 5 categorias para as quais foi nomeada.

Em 2017, a cena repetiu-se: 5 categorias e 5 prémios vencidos. Desta vez com o singleHello’ e com o álbum 25, o mérito esboçou-se com as mesmas categorias a expôr na prateleira. Mas desta vez, a contagem poderia ter sido 4,5. Adele partiu o prémio de Melhor Álbum do Ano em dois, oferecendo a outra metade a Beyoncé, que considerou a verdadeira merecedora do prémio, por Lemonade (2016).

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Onde andas agora, Adele?

Não sendo novidade aos fãs, Adele lançou a bomba que foi 25 e, desde aí, tem estado calada em termos musicais. Isto é, tirando as especulações de um próximo álbum, que foram tiradas de uma descrição do Instagram no aniversário da cantora: “Cambada de selvagens, 30 será uma gravação de bateria e baixo para vos espicaçar“.

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This is 31…thank fucking god 💀 30 tried me so hard but I’m owning it and trying my hardest to lean in to it all. No matter how long we’re here for life is constant and complicated at times. I’ve changed drastically in the last couple years and I’m still changing and that’s okay. 31 is going to be a big ol’ year and I’m going to spend it all on myself. For the first time in a decade I’m ready to feel the world around me and look up for once. Be kind to yourself people we’re only human, go slow, put your phone down and laugh out loud at every opportunity. Learning to REALLY truly love yourself is it, and I’ve only just realized that that is more than enough. I’ll learn to love you lot eventually 😂 Bunch of fucking savages, 30 will be a drum n bass record to spite you. Chin up eh ❤️

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Com um divórcio, a perda de peso e novos amores, Adele estava pronta para este ano: “Mudei drasticamente nos últimos anos e continuo a mudar e isso é okay. Os ’31’ serão um grande ano e vou gastá-lo todo comigo mesma“.

Adele é um role model por e para tudo: pelos bons valores (dentro de uma indústria corrompida), pela positividade (especialmente quanto à imagem do corpo) e pelo empowerment que as mulheres vêem nela, tudo isto escondido numa voz que vagueia desajeitadamente entre o mezzo-soprano e o contralto.

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