Conta-me Como Foi
Fotografia: RTP / Divulgação

Conta-me Como Foi: Este regresso deixou-nos mesmo o coração quentinho, não foi?

Já passavam quase dois minutos das nove da noite quando a RTP1 pôs no ar o que esperávamos há tantos anos, o regresso de Conta-me Como Foi.

Quando a série se despediu, em 2011, com a chegada do 25 de abril na ficção, ficámos todos com pena de não acompanhar a família rumo à liberdade. Mas, como Miguel Guilherme disse em entrevista ao Espalha-Factos, talvez tenha sido melhor assim. A versão original, a espanhola, empastelou. Já vai com mais de 20 temporadas e nem tem o Carlitos. Em Portugal fizemos aquilo que fazemos melhor, fomos alimentando o mais poderoso dos nossos sentimentos – a saudade.

Tínhamos saudade de entrar pela casa da família adentro. Saudades daquela família que podia ser a nossa, da mãe sensata, ponderada e discreta que é Margarida (Rita Blanco), do pai casmurro e de bom coração que António (Miguel Guilherme) representa. Da avó Hermínia (Catarina Avelar), a nossa velhota com mão para a cozinha e sabedoria a cada passo de resmunguice.

E, quando eles todos voltam, parece que está tudo na mesma. A televisão volta a permitir-nos o abraço daquela gente que não víamos há tanto tempo. O Carlitos (Luís Ganito) está tão crescido, está um homem e já trabalha. A Isabel (Rita Brutt) e o Toni (Fernando Pires) já têm filhos, e tão queridos que eles são. E claro, os miúdos não gostam de cabrito. Conta-me Como Foi.

Conta-me Como Foi continua a ser simples, com diálogos verdadeiros, e transmite-nos o ambiente e o espírito da época que está a retratar de forma fiel, mas sem nunca nos dar a entender que estamos perante uma injeção hipodérmica de doses fatais de Wikipedia. Passa-nos aqueles anos 80 de que ouvimos falar, com muita cor, muita laca, a euforia de um país que aprendeu há pouco tempo o que é a liberdade. E estes anos 80, que são os nossos, não têm nada a ver com Stranger Things. E nós merecíamos ter os nossos anos 80.

A realização é cuidada, e tem planos lindos, como aquele em que vemos António e Margarida a conversar no quarto, refletidos no espelho. O foco continua a estar nas pessoas, nas suas histórias, e quando a imagem desfoca, vemos aquele grão das fotografias antigas, a remeter para aquela Ceia de Natal em que estávamos todos juntos. A alma aperta-se e aquece um bocadinho, quando vemos a neta Susana a dizer à avó que a leva sempre no coração.

2019, mais um ano nesta era do streaming e dos consumos altamente individualizados e fragmentados, precisa de televisão coletiva, que volte a reunir-nos. Com ficção feita para a família, que nos faça falar, sentar em conjunto em frente ao ecrã, a discutir sobre aquela altura – que não foi assim há tanto tempo – em que se pagavam chamadas telefónicas ao impulso.

A RTP, enquanto operador de serviço público, existe para poder proporcionar estes momentos, com investimento, com dignidade, a tratar o telespectador como alguém inteligente. E é um milagre conseguir fazê-lo, com os orçamentos que tem, com as limitações do mercado português, e ainda assim cativar os espectadores que têm à sua disposição as produções milionárias da Netflix, da Amazon ou mesmo da Globo.

Obrigado, RTP. É bom estarmos aqui. De volta.

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