Eddie Redmayne e Felicity Jones em The Aeronauts
Imagem: Amazon Studios

Crítica. ‘Os Aeronautas’ voam alto, mas com turbulência

Eddie Redmayne e Felicity Jones reúnem-se no grande ecrã para retratar a história (quase) verídica de um cientista inglês cujas teorias, na altura ridicularizadas, vêm mudar o mundo. Não estamos a falar de A Teoria de Tudo, mas sim de Os Aeronautas, um filme co-produzido pela Amazon Studios.

Este drama histórico, realizado por Tom Harper (Peaky Blinders, Misfits), estreia nos cinemas esta quinta-feira (5) e, como seria de esperar, no Amazon Prime Video a 20 de dezembro.

Este filme acompanha a viagem de balão pioneira do meteorologista James Glashier (Redmayne) e a balonista exímia Amelia Wren (Jones), em 1862. Neste voo, Glashier e Wren voam até onde ninguém foi enquanto testam os limites do ser humano à procura de respostas quanto à natureza do clima.

(Nota: O trailer contém várias cenas que podem ser consideradas spoilers. É um filme que apesar de não desafiar as expectativas a nível narrativo, vale a pena ver com o mínimo de informação prévia possível).

Apesar da descrição familiar, o filme consegue destacar-se da maré de dramas biográficos que chega aos cinemas mesmo a tempo dos Óscares. Nos seus pontos mais altos, Os Aeronautas é uma viagem intensamente cativante que nos deixa sem ar através do ecrã.

Por vezes, quando estamos encurralados no cesto do balão, à medida que o perigo aumenta em tempo real, tudo encaixa de forma impressionante.

No entanto, uma geral indecisão criativa e alterações históricas questionáveis puxam o resultado final alguns metros abaixo do seu potencial.

Rumo aos céus

The Aeronauts
Imagem: Amazon Studios

Estamos em Londres, em meados do Séc. XIX. James Glashier está com dificuldades em conseguir financiamento para a expedição de balão onde pretende recolher medições climatéricas a várias altitudes, de modo a criar um modelo de previsão climatérica.

Amelia Wren é viúva de Pierre, um famoso piloto que morreu num acidente de balão. Esta tragédia deixou Amelia desolada, tendo prometido que nunca mais iria voar, apesar de não querer abandonar a sua paixão.

Enquanto protagonistas, James Glashier e Amelia Wren são boas execuções de território já explorado. Glashier é fascinado pelo mundo natural mas prefere estudar a teoria e apoiar-se nos números do que experienciar em primeira mão. Wren é uma mulher prática e capaz, numa altura em que a sociedade não vivia bem com isso.

Estas personagens ganham vida nas performances de Eddie Redmayne e Felicity Jones, que dividem o protagonismo quase em partes iguais e injetam um nível de charme e gradual intimidade em cada interação.

Eddie Redmayne em The Aeronauts
Imagem: Amazon Studios

Um bocado como a sinopse do filme, isto é território familiar para ambos os atores. Redmayne invoca uma energia semelhante ao seu Newt Scamander da saga Fantastic Beasts, embora seja uma caracterização mais subtil e menos socialmente inepta do mesmo arquétipo.

No papel de Amelia, Felicity Jones atravessa um caminho semelhante ao de Jyn Erso em Rogue One: A Star Wars Story — ambas têm de voltar à sociedade depois de serem envolvidas por apatia.

Felicity Jones como Amelia Wren em The Aeronauts
Imagem: Amazon Studios

Ao longo do filme, permanece a sensação de que todas as restantes personagens são ferramentas para avançar a história, servindo como acessórios de James ou Amelia.

Apesar desta função diminutiva, os restantes atores encaixam bem os seus papéis, navegando a linha entre autenticidade histórica e uma interpretação carismática.

Batalha de géneros

Tal como divide a sua atenção entre o cientista James Glashier e a destemida Amelia Wren, Os Aeronautas também tem alguma dificuldade em decidir se quer ser um drama histórico biográfico ou um filme de aventura.

O filme acompanha a viagem de balão em tempo real, intercalando flashbacks que nos elucidam sobre o contexto e passado destas personagens e da viagem em que se encontram.

Quando se foca em James, é uma história competente mas mundana sobre o genuíno espírito científico no contexto vitoriano. Por comparação, a crise de Amelia no começo da história tem mais peso e acaba por ser o conflito mais interessante.

Mas são as cenas no balão a gás que elevam o filme (perdoem o trocadilho). Estas cenas são mostradas de forma intimista a nível de cinematografia e realização e, só em si, justificam ver o filme no maior ecrã possível com o melhor som possível.

Os planos oscilam entre calma beleza estética e uma intensidade violenta a um ritmo que surpreendentemente resulta. Sentimos-nos um terceiro passageiro no claustrofóbico cesto do balão, sujeitos à falta de oxigénio, vento e frio que Amelia e James enfrentam.

É nestes momentos que Os Aeronautas brilha, quando se deixa levar pela pura adrenalina e vulnerabilidade da situação extraordinária que retrata.

Felicity Jones em The Aeronauts
Imagem: Amazon Studios

No entanto, estas escolhas criativas tornam-se menos arrojadas quando descemos à terra. Tal como a história, a perspetiva sobre a qual a vemos é muito menos cativante nestes flashbacks. Contudo, sempre adequada.

É uma pena que, embora sejam essenciais para a narrativa, estas cenas se tornem quase apêndices que acabam por retirar peso e coesão ao filme como um todo.

Reescrever a história

Ainda que Os Aeronautas seja apresentado como um biopic histórico, fãs de história e aeronáutica vão reparar num pequeno senão: enquanto que James Glashier foi de facto um cientista e aeronauta que viveu em Inglaterra no séc. XIX, Amelia Wren não existe.

Felicity Jones em The Aeronauts
Imagem: Amazon Studios

A personagem é inteiramente fictícia e resulta de uma mistura de várias pessoas reais, principalmente Henry Coxwell (o verdadeiro parceiro co-piloto na viagem retratada no filme) e Sophie Blanchard, a primeira mulher aeronauta cujo marido morreu. Felicity Jones citou Blanchard como a principal inspiração para a sua personagem.

Esta alteração foi justificada pelo realizador do filme, Tom Harper, como uma tentativa de aproximar o filme às expectativas de audiências modernas, podendo assim debruçar-se sobre o tema de representação de género na ciência.

No contexto do filme, a troca é inofensiva. Amelia é uma personagem inspiradora e bem integrada no contexto da época, mas a sua existência levanta algumas questões sobre a relação entre biopics e a realidade na qual se baseiam.

Se é para alterar a história de forma tão drástica, porque não assumir a ficção e criar personagens novas? Porquê excluir uma figura histórica que foi instrumental nos eventos que deram base ao filme?

Eddie Redmayne e Himesh Patel em The Aeronauts
Imagem: Amazon Studios

Assim, Os Aeronautas mantém-se neste limbo entre dois géneros que, para serem bem executados, requerem sensibilidades diferentes.

Por um lado, é um drama biográfico sobre um cientista inglês cujas teorias, na altura ridicularizadas, vão mudar o mundo…

… e por outro, existe nesta premissa algo mais a dizer e tem momentos em que atinge algum deste potencial, mesmo quando não justifica inteiramente as alterações substanciais que faz à história real.

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