Se 2009 foi um grande ano para a música pop, em 2010 começamos a sentir os efeitos de toda a loucura do final da década anterior.

Por exemplo, foi em 2009 que se deu uma das mais polémicas premiações da MTV, em que tivemos simultaneamente o conflito mais fervoroso no pop americano e também a atuação mais chocante no mesmo – com uma forte competição de Miley Cyrus e Robin Thicke em 2013, mas seguramente ganha aqui.

“I made that b**** famous”

Foi nos VMA de 2009 que Kanye West e Taylor Swift se consagraram como dois dos maiores artistas da segunda década do novo século, ainda antes de sequer terem tocado no prémio. E tudo isto valeu também aos dois um dos momentos mais humilhantes e difíceis de rever – o momento em que Kanye interrompe o discurso de Taylor, enquanto vencedora do Melhor Vídeo Musical Feminino, para ‘You Belong With Me’.

Todo o momento foi potenciado por uma injustiça alegada por West, que se referiu a Beyoncé como a verdadeira merecedora do prémio.

Aliás, Beyoncé tornou-se na figura humilde da noite que, além de chocada com a interrupção de Kanye, cedeu o seu discurso a Taylor Swift quando venceu o prémio do Melhor Vídeo Musical do Ano. Afinal, a cena causada por Kanye fora desnecessária.

A história de Kanye West e Taylor Swift prolongou-se ao longo dos anos, os pedidos de desculpa de Kanye desfalecendo com as suas ações. West é um artista de polémica, e confirma-o a toda a hora: em 2016, com o singleFamous‘, a rivalidade entre os dois artistas voltou à praça pública.

Pegamos primeiro na letra ou no videoclipe? O grafismo é evidente nas duas. Enquanto canta que “I feel like me and Taylor might still have sex / Why? I made that bitch famous“, o vídeo mostra-nos imagens de várias personalidades americanas pintadas da forma como vieram ao mundo. Kanye encontra-se entre a sua esposa, Kim Kardashian, e a sua rival, Taylor Swift. No vídeo vemos ainda Donald Trump, George Bush e o também polémico Chris Brown.

O respeitado Yeezus 

Mesmo com as críticas recebidas após o feito nos VMA de 2009, Kanye West, já conhecido por vários hits nos anos 2000, tornar-se-ia num forte candidato a um dos melhores artistas mundiais (atualmente).

Desde My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010) que ninguém duvida que Kanye West fica para a história da música no início deste século. Yeezus (2013) e The Life of Pablo (2016) confirmam-no.

Ye: 23 minutos na mente de Kanye West

Kanye West não é só músico, e se assim fosse talvez não fosse tão relevante. O artista destaca-se pela sua honestidade, como ele a apelida, e pelo seu ego. Porém, ninguém lhe pode tirar o mérito pelo optimismo e pela motivação.

Depois de dizer que se quer poder comparar a DaVinci ou a Jesus, Kanye regressou à música com Jesus Is King (2019), onde expressa a sua fé. No seu vídeoclipe mais recente, de ‘Closed On Sunday’, mostrou a família num cenário que, nos comentários, os fãs brincam ao descrever como inspirado no “Velho Testamento” ou como sendo bastante “pós-apocalíptico“.

Entre isto, destacam-se ainda momentos-chave como o seu apoio incondicional a Donald Trump, que foi mostrando em imagens, no Twitter ou até presencialmente. Hoje, sabemos até que Kim Kardashian West (a esposa) é a mais recente advogada do 45.º Presidente dos Estados Unidos da América.

Populares da música e da política: Kanye West e Donald Trump

Kanye West e Donald Trump, na Casa Branca, em 2018 (Andrew Harrer/Bloomberg)

Taylor, a artista da década?

Verdade ou não, depois do incidente com Kanye, Taylor destacou-se, ganhando a simpatia do público. Quando deixou de ser a menina inocente do country, que canta sobre Romeu e Julieta e sobre a paixoneta de liceu, as coisas mudaram – e a música pop também.

Este é mesmo o melhor ano da carreira de Taylor Swift

Em 2012, Taylor gerava polémica pela sua vida amorosa, em quem se inspirava para escrever a sua música, geralmente criticando relações passadas. De alguma forma, Taylor passou a ser conhecida por estes detalhes, e pela forma como os explorou nos seus singles. ‘We Are Never Ever Getting Back Together‘ e ‘I Knew You Were Trouble‘ são exemplos disso.

A situação piorou quando a artista norte-americana se juntou a Harry Styles, na altura integrante dos One Direction. Não são certos os pormenores da relação, mas isso não foi um detalhe relevante para as fãs dos britânicos, que começaram (ou juntaram-se) à legião de haters de Taylor Swift.

Em ‘Blank Space‘ (2014), a artista explora essa reação exagerada do público à sua música e ao quanto da sua vida amorosa figura na mesma.

Aliás, nos últimos anos a cantora alterou completamente a forma como se apresenta, aproveitando a desaprovação de alguns para o que escreve. Vimos isto na mensagem despreocupada de ‘Shake It Off‘ (2014) e no hit vingativo ‘Look What You Made Me Do(2017).

No marco de uma década da sua carreira, Taylor Swift apresenta-se com Brendon Urie e ‘ME!‘, do álbum Lover (2019). Apesar de Taylor se ter acalmado após o álbum anterior, Reputation (2017), ainda há o que dizer:

Beyoncé e Gaga, as artistas incontornáveis do pop

Nos VMA 2009, Beyoncé estava na liderança de nomeações, juntamente com Lady Gaga, cada uma somando nove. As duas artistas levaram três prémios para casa, tal como os punk de serviço, Green Day.

Se há algo que deveríamos ter mantido para a história dos VMA 2009, esse algo é a atuação de Lady Gaga, um misto de choque e brutal esplendor:

Tanto Stefani Germanotta como Beyoncé Knowles(-Carter) se estabeleceram como artistas verdadeiramente versáteis e merecedoras do reconhecimento por todo o mundo.

Mother Monster

Lady Gaga começou a sua carreira na primeira década do século, primeiramente como compositora para outros artistas da cena pop e, só depois, estreando-se como a artista que canta, dança e assusta. Esta foi a Artista Revelação nos MTV VMA de 2009.

Se com os primeiros singles, ‘Just Dance‘ e ‘Poker Face‘, a cantora nos pareceu uma artista pop ambiciosa à procura de quem dançasse fervorosamente com ela, foi a partir do polémico ‘Paparazzi‘ que se destacou como a Mother Monster, o que lhe apelidariam nos próximos anos.

The Fame (2008) e a sua reedição, The Fame Monster (2009), garantiram a Gaga primeiras posições nos charts mundiais, nomeadamente com ‘Bad Romance‘ e ‘Alejandro‘. Com este último, Gaga tornou-se na segunda artista feminina a conseguir que os seus primeiros sete singles se posicionassem entre as 10 melhores posições no Billboard Hot 100.

As ações e representações inconvencionais da artista garantiram uma diferente representação na música pop. Lembremo-nos do vestido de carne nos VMA 2010, que ficou marcado para a história.

Lady Gaga: além do pop, os seus outfits

Lady Gaga com… o seu vestido de carne, VMAs 2010 (Getty Images); um outfit “casual”, à saída do seu hotel em Londres, 2013 (Neil P. Mockford/FilmMagic); um vestido de… estrela?, em Paris, 2014 (Cau Antoine/Sipa/Rex).

Ao longo da década, Lady Gaga procurou também extrair alguma seriedade dos seus fãs: depois da arte extravagante em The Fame (2008), Born This Way (2011) e Artpop (2013), Joanne (2016) trazer-lhes-ia a balada countryMillion Reasons‘ ou o amoroso ‘Come To Mama‘, cuja letra se revê bem no co-autor de Gaga para esta canção, Josh Tillman/Father John Misty.

E, por falar em baladas, não podemos deixar de fora a carreira de Lady Gaga na atuação, e a poderosa soundtrack do filme de Bradley CooperA Star Is Born (2018), que garantiu à cantora prémios cinematográficos, musicais e os corações chorosos de muita gente por todo o mundo, com ‘Shallow‘ ou ‘I’ll Always Remember Us This Way‘.

Mas voltemos ao início. Em 2010, mostrava-se ao mundo a popcollab do século: Lady Gaga e Beyoncé telefonam-nos.

A partir daqui, não restam dúvidas de que ambas são uma forte competição ao título de Rainha da Pop (até agora detido pela icónica Madonna).

Queen B

Beyoncé estreou-se no final da década de 90, ao lado de Kelly Rowland e Michelle Williams nas Destiny’s Child. Foi, aliás, uma das co-autoras do conhecidíssimo ‘Say My Name’. O grupo separou-se em 2006, mas não sem garantir o seu lugar no Hollywood Walk of Fame e, por três vezes, a premiação de Melhor Grupo nos BET Awards (2001, 2005 e 2006).

Beyoncé lançou-se na carreira a solo em 2003, quando lançou o álbum Dangerously In Love. E, apesar do enorme sucesso de hits como ‘Crazy In Love‘, foi a partir de I am… Sasha Fierce (2008) que começamos a ver a cantora a bater sucessivamente os charts, nomeadamente no Reino Unido e nos Estados Unidos.

Em 2009, Beyoncé ganhou o Vídeo Musical do Ano nos MTV VMA, com ‘Single Ladies (Put A Ring On It)‘. Este videoclip garantiu-lhe também o prémio de Melhor Coreografia. As performances da cantora de Houston impactaram o público desde cedo – lembremos o Superbowl de 2013.

Em 2010, Beyoncé levaria para casa seis Grammys, dos 10 para os quais estava nomeada. Atualmente, conta com mais de 20 Grammys na coleção, consagrando-se como uma das artistas mais premiadas numa das maiores cerimónias musicais, ao lado de Stevie Wonder, artista em quem se inspirou para o seu álbum 4 (2011), o seu marido Jaz-Z, o já referido Kanye West ou a lendária banda U2.

Entretanto viria uma pequena pausa porque Beyoncé anunciava a sua primeira gravidez – em 2012, nascia Blue Ivy. E Beyoncé revela-nos tanto como artista quanto como mãe. Depois do mediatismo que obtivera a sua gravidez em 2012, especialmente após ter sofrido um aborto espontâneo no ano anterior, Beyoncé deu à luz, em 2017, dois gémeos: Rumi e Sir.

Em abril de 2016, Beyoncé deu-nos Lemonade, acompanhado de um documentário na HBO. Diz a Pitchfork que, apesar de haver um filme, o álbum em si sente-se enquanto um. Lemonade chegou-nos na altura em que Beyoncé vivia com a traição do marido longe das câmaras dos jornalistas.

Mas isso não significa que o álbum se tenha, entretanto, focado nisso: tocando nos pontos essenciais daquilo que é a sua vida pessoal, Beyoncé manteu também a leal imagem de empowerment que, desde o início da carreira, fomentou. A maturidade de Beyoncé é louvável.

A par de tudo isto…

De 2010 a 2019, colecionámos clássicos de artistas que já conhecíamos: são exemplos, além dos referidos, Katy Perry e Rihanna. Mas também nos trouxe novas pérolas sem as quais a década não teria sido a mesma, como Bruno Mars. Confere a lista de singles que impactaram a década:

  • Katy Perry, ‘California Gurls‘ (2010)
  • Travis McCoy, Bruno Mars, ‘Billionaire’ (2010)

  • Rihanna, ‘Only Girl (In The World)‘ (2010)
  • Eminem, Rihanna, ‘Love The Way You Lie‘ (2010)

  • PSY, ‘Gangnam Style‘ (2012)

  • Ke$ha, ‘Die Young‘ (2012)
  • Robin Thicke, T.I., Pharrel Williams, ‘Blurred Lines‘ (2013)
  • Miley Cyrus, ‘We Can’t Stop‘ (2013)

  • Macklemore, Ryan LewisRay Dalton, ‘Can’t Hold Us‘ (2013)
  • Justin Timberlake, ‘Mirrors‘ (2013)
  • Drake, Majid Jordan, ‘Hold On, We’re Going Home‘ (2013)

  • Charlie XCX, ‘Boom Clap‘ (2014)
  • Wiz Khalifa, Charlie Puth, ‘See You Again‘ (2015)

 

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