Seja rumor ou não a Hungria apelidar a Eurovisão de “demasiado gay”, o facto é que o Festival é um dos maiores palcos do mundo e, por diversas vezes, foi pioneiro em território europeu na promoção da visibilidade LGBTI. Mas quão gay é afinal a Eurovisão no século XXI?

É notória a mutação à qual o Festival Eurovisão da Canção foi sujeito desde a sua criação em 1956. De 1 câmara e 7 países a arenas com 20 mil pessoas e 41 países participantes, a Eurovisão mudou em quase tudo e tornou-se num dos maiores eventos televisivos do mundo. Com este crescimento a música foi-se tornando cada vez mais pop, dançável e rítmica, perfeita para agradar de uma forma mais massificada o público do Festival.

No meio desta mutação – e algo que aconteceu na generalidade dos países onde a Eurovisão é transmitida -, o evento começou a ficar cada vez mais conectado com a comunidade LGBTI, seja pelas roupas extravagantes, as cores garridas ou as canções mexidas, o facto é que o Festival é conectado a esta comunidade muito mais por ideias pré-concebidas e preconceitos que por momentos verdadeiramente de visibilidade LGBTI.

Não me interpretem mal, é inegável que a comunidade LGBTI faz hoje parte integral do ADN da Eurovisão, basta olhar para a audiência e ver as múltiplas bandeiras arco-íris (símbolo LGBTI) a abanar ao lado das de todos os outros países, deste e outro continente. Mas algo que já é difícil de comprovar e até perigoso de associar é que a Eurovisão é toda uma “armada homossexual”, tal qual foi descrita pelo jornalista citado na peça do The Guardian, e que as cores, os fatos e as purpurinas são tudo exemplos disso.

Não existem cores gays, nem fatos, nem ritmos. Um homem a usar purpurina não revela nada sobre a sua orientação sexual, nem uma mulher com um corte de cabelo rente ao pescoço. É preciso desconstruir estes tipos de preconceito e desmistificar de uma vez por todas duas coisas: primeiro, um evento não tem orientação sexual, logo a afirmação “a Eurovisão é demasiado gay” significa realmente nada; segundo, se o uso da palavra “gay” é feita em substituição de algo como “foleiro” ou “kitsch”, este é talvez o momento em que temos de parar de usar desse tipo de comparações, já não estamos nos 90, nem a mentalidade do bully da escola básica.

Em conclusão? Quão gay é a Eurovisão? É tanto quanto é hetero, tanto quanto é sueca, russa, portuguesa ou húngara. A Eurovisão promove-se e celebra-se através da multiculturalidade e por assumir que há espaço para qualquer pessoa, vinda de onde for (olá Austrália), amando quem for e acreditando em quem for. Assim como há visibilidade e demonstrações LGBTI existem outra dúzia de demonstrações heterossexuais.

Se a Eurovisão atrai muito público LGBTI em todos os países que sintonizam? Talvez. Não tenho dados estatísticos sobre tal, falo apenas por experiência própria e de conhecer fãs de vários locais do mundo. Imaginando certos países em que a visibilidade das comunidades fora da norma são quase iguais a zero na televisão e na cultura popular, deve ser bastante motivante, quase até emocionante, ver algum tipo de representatividade na televisão, nem que sejam por meras horas em três noites por ano. Uma vez mais, não por o evento ser exclusivamente “gay”, mas porque nele não existe censura à realidade da existência de pessoas LGBTI.

Momentos efetivamente “gay” (LGBTI) da Eurovisão

Respondida que está a questão do “quão gay é a Eurovisão”, é talvez tempo de vermos alguns exemplos de momentos que são efetivamente considerados de celebração e visibilidade LGBTI, não caindo nos lugares comuns do “aquele cantor belga usou umas leggins de Leopardo e cantou em falsete por isso é gay“, e perceber como alguns deles foram essenciais para a comunidade LGBTI europeia.

A participação de Dana International na Eurovisão 1998

Créditos: Peter Bischoff/Getty Images

Dana International, uma mulher transexual, representou Israel em 1998 numa altura em que a visibilidade para pessoas transexuais era praticamente nula – sendo um assunto ainda tão polémico nos dias de hoje. Em 1998 acabou por ganhar o Festival e levar a Eurovisão para Israel, mas sem antes sofrer uma série de ameaças de morte por parte de israelitas mais conservadores que a consideravam uma “abominação“.

O beijo lésbico da Finlândia em 2013

Krista Siegfrids chega à final de 2013 com a canção “Marry Me” e aproveita a sua última prestação na Eurovisão para beijar a sua dançarina no fim da atuação. Este beijo gerou bastante polémica na Finlândia, país representado por esta música, já que a cantora admitiu em entrevista que era um ato de protesto contra o banimento do casamento homossexual no seu país.

Conchita Wurst a ganhar o concurso em 2014

Créditos: Jonathan Nackstrand/AFP/Getty Images

Talvez dos momentos LGBTI mais significativos na memória coletiva mais recente dos europeus a nível da Eurovisão, a vitória da drag queen austríaca Conchita Wurst foi um marco. Não sendo a primeira drag a concurso (Ucrânia e Dinamarca 2007), foi a primeira a ganhar e também a chatear alguns países. Na Arménia, Bielorrússia e Rússia – onde uma lei contra a “propaganda gay” foi aprovada em 2013 – circularam algumas petições para removerem a Conchita da competição, acrescentado ainda algumas ameaças da EBU na desclassificação da Rússia caso não aceitasse transmitir a atuação da drag queen. O caso foi tão sério que Vitaly Milonov – um membro conservador da Assembleia Legislativa de São Petersburgo – chegou a pedir ao comité organizador da Eurovisão na Rússia que boicotasse concursos futuros, caracterizando a Eurovisão como “propaganda flagrante da homossexualidade e degradação moral“.

Os dançarinos da Irlanda em 2018

No ano em que Lisboa acolheu a Eurovisão era suposto a final do concurso ter sido transmitida na China, através do canal Mango, mas ficaram-se apenas pelos diretos das semifinais, depois de a EBU ter cancelado o acordo de transmissão. O que aconteceu? O canal chinês omitiu toda a atuação da Irlanda por ter dois dançarinos do mesmo sexo na atuação, além de que desfocou todas as bandeiras LGBTI da audiência.

Uns quantos beijos aqui e ali, bandeiras às cores e drag queens