O Lux Film Prize foi entregue esta quarta-feira (27) em Estrasburgo, pelo Parlamento Europeu. Ao longo desta semana, o Espalha-Factos esteve presente em conferências de imprensa sobre o festival e assistiu à entrega do prémio. Porém, fica a questão: o que separa a política do cinema?

De galardões de cinema já está o mundo cheio. Desde os Óscares ao Festival de Cannes, o que não faltam são cerimónias que premiam o melhor que se faz pelo mundo. Sempre com críticas devido à sua credibilidade – ou falta dela, em alguns casos – os festivais de cinema são sempre dos assuntos mais comentados do ano e a cerimónia da entrega de prémios da Academia Cinematográfica dos Estados Unidos continua a ser a mais relevante. Porém, é inevitável deixar de reparar que os vencedores dos Óscares – em especial na categoria de Melhor Filme (cujos últimos vencedores foram Green Book, The Shape of Water e Moonlight) – acabam por tender para uma vitória política. Retratos de histórias racistas ou discriminatórias têm levado a melhor quando chega a altura de vencer o Óscar, o que não é necessariamente uma coisa má. Na verdade, deve premiar-se o ativismo e quando este acontece através da plataforma que o realizador e cineasta tem nas suas mãos, apesar de tal, segundo alguns rancorosos cinéfilos internautas, afetar a credibilidade da premiação.

O Prémio Lux de Cinema, porém, atira-se logo para as questões políticas. Não só por ter sido criado em 2007 pelo Parlamento Europeu, mas também devido ao carácter temático das histórias nomeadas. “Os cineastas e os políticos têm mais em comum do que aquilo que pensamos“, referiu Klára Dobrev, a Vice-Presidente do PE, esta terça-feira (26) numa conferência de imprensa sobre o festival. E de facto, há alguns casos em que a linha que separa as duas realidades se torna praticamente imperceptível. Os políticos enchem-nos com mensagens de desejo pelo futuro melhor, algo que também cabe na algibeira de alguns cineastas que acreditam que a sua missão na terra é precisamente essa, lutar por um futuro melhor.

O ativismo e o cinema

Oleg Sentsov (esquerda) ao receber o prémio, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo.

Ativismo foi a palavra mais ouvida no Lux Film Prize deste ano. Não só porque as questões humanitárias são sempre pertinentes em ambientes parlamentares europeus, mas também porque a edição deste ano contou com a presença de Oleg Sentsov, o vencedor do Prémio Sakharov de 2018, que na altura não o pode receber em mãos por estar preso na Rússia.

O prémio em questão é entregue a pessoas ou organizações que se destacam na defesa dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. No entanto, o ativista que é também, curiosamente, um realizador, referiu não misturar a vida política com a vida cinematográfica. Uma escolha infeliz, no meu ver. Apesar de estar neste momento sob vários holofotes, o vencedor do Prémio Sakharov escolheu separar a vida política da vida cinematográfica, quando tem, mais do que nunca, uma plataforma para tornar o seu ativismo ainda mais significativo.

O cineasta confessou não assistir “ao cinema moderno russo, porque é totalmente incapaz de ser objetivo e mantém-se em silêncio perante questões importantes“, porém, a sua decisão de silêncio cai precisamente numa hipocrisia política que por si só já revela que o prémio poderá ter caído nas mãos erradas. Dono de uma carreira insignificante enquanto realizador, Oleg Sentsov é agora dono de uma vida ativista silenciosa e discreta.

No outro lado do espectro, contudo, está Teona Strugar Mitevska, a realizadora de God Exists, Her Name is Petrunya, vencedor do Prémio Lux de Cinema de 2019. A cineasta macedónia cai na categoria de realizadores que acredita que “o cinema é uma media incrivelmente poderosa” e que deve marcar por tentar fazer a diferença.

‘God Exists, Her Name is Petrunya’ foi o vencedor deste ano do Lux Film Prize.

O filme vencedor do festival é baseado numa história verídica e retrata a luta das mulheres num mundo de homens, assim como a guerra entre a sociedade que avança e a igreja que se mantém na última carruagem do progresso. Delineado por injustiças sociais, políticas, religiosas e económicas, God Exists, Her Name is Petrunya é o típico filme que marca pelas suas temáticas. É um filme com uma mensagem e com uma realizadora que pretende ser mais do que aquilo que já é.

A identidade europeia

Klára Dobrev é uma das Vice-Presidentes do Parlamento Europeu.

Um dos principais objetivos do Lux Film Prize, para além de premiar o cinema europeu, é lutar pela criação de uma identidade europeia de cinema. “A mesma de Hollywood“, referiu a Vice-Presidente, que acredita que para os americanos é extremamente mais fácil, por conseguirem fazê-lo em inglês e rapidamente garantirem a perceção de todo o público. “O Lux Film Prize luta pela criação de um idioma europeu“, um idioma que supera a linguagem falada; uma linguagem cinematográfica.

Klára Dobrev confessou ainda que nunca tinha ouvido falar da premiação até se tornar Vice-Presidente do Parlamento Europeu, o que a motivou a tentar trazer repercussão ao projeto. Doze anos depois, o festival continua a passar despercebido, mas é notável a vontade de fazer melhor e premiar o melhor.

Portugal já figurou duas vezes entre os principais finalistas, com Belle Toujours de Manoel de Oliveira, e com Tabu, de Miguel Gomes, mas nunca conseguiu a maioria dos votos para se sagrar vencedor do Lux Film Prize.

O Lux Film Prize 2020 acontecerá em novembro do próximo ano, mais uma vez em Estrasburgo.