O Irlandês chega à Netflix esta quarta-feira (27), em Portugal tem lançamento exclusivo na plataforma de streaming, e fá-lo pouco tempo depois de, com alguma polémica, o realizador Martin Scorsese ter afirmado que os filmes da Marvel, que têm dominado as bilheteiras ao nível planetário, não são cinema.

Por contraste, podemos afirmar que a nova película do cineasta é exatamente isso. Um filme a sério, daqueles que fazem a história da sétima arte, e com uma narrativa que nos remete também para vários momentos na nossa história enquanto espectadores, em que nos entretemos frente ao ecrã com enredos sobre o submundo do crime e as ruas escuras habitadas pelas criaturas que nele vivem.

A película conta a história verídica de Frank Sheeran (Robert De Niro), um homem que pinta casas para a máfia nos Estados Unidos. Este indivíduo, de ascendência irlandesa, rapidamente nos ajuda a perceber que pintar casas não é só pintar casas. Ou até é, mas de sangue. É um assassino a soldo.

Este Irlandês, que começa por ser um camionista que transporta carne, rapidamente se mostra útil para outros tipos de serviço, mas subir no mundo da máfia vai obrigá-lo a sacrifícios enormes. Alguns, diríamos nesta altura, que podem inclusivamente levar a ações e a votos contra a direção de si próprio.

É perante esta escolha – em nome da família e d’A Família – que assistimos à evolução de uma personagem que, sem remorsos, e como se de um soldado se tratasse, não hesita uma única vez em cumprir as ordens dos seus generais.

Ao longo de 209 minutos, que são, nada mais nada menos, três horas e 29, nunca nos sentimos entediados, distraídos ou com vontade de desviar o olhar do ecrã. A visita ao mundo da máfia, na sabedoria de um De Niro que nos leva com maestria e facilidade por todas as épocas e todas as idades na confissão ligeira de Sheeran.

Os efeitos de rejuvenescimento digital funcionam perfeitamente e, a nosso ver, muito credíveis. Como se o filme tivesse sido filmado em várias épocas, com os vários De Niro ou Pesci, de cada fase da vida. No meio de tudo, são mais distrativos os brilhantes olhos azuis que Frank Sheeran ostenta, mas que não são naturais do protagonista, do que qualquer outro efeito no filme.

O Irlandês conta-nos uma história de vida e Scorsese relembra-nos porque é o seu cinema tão convincente: porque não só tem ritmo, cor e tensão a guiar-nos pelas cenas de ação, como faz isso sem nunca sacrificar a alma das personagens ou aquilo que elas têm para nos contar e dizer.

O Irlandês - Al Pacino

Fotografia: Divulgação / Netflix

E se De Niro tem uma performance sólida a ser aquilo que Sheeran era: discreto, invisível, um executante perfeito e sem compasso moral, Al Pacino surge para ser o homem espetáculo. Jimmy Hoffa, líder sindicalista elevado a celebridade, é interpretado com vigor, carisma e nervo.

É precisamente na dissonância entre estas duas personagens que o filme se constrói. Entre a coragem de viver intensamente, de lutar por uma convicção ou ambição e a subserviência de sobreviver na sombra das ordens dos outros, sem consciência, sem remorso. Nos olhos de Peggy (Lucy Gallina / Anna Paquin), que brilham intensamente do início ao fim do filme, foi sempre tudo muito claro. Sobre quem brilha e quem traz escuridão.

O Irlandês Robert De Niro Joe Pesci

Fotografia: Divulgação / Netflix

Do lado da escuridão está também Joe Pesci, com Russell Bufalino. Parece um velhote simpático, mas encerra em si a prática do mal como ‘business as usual’. E o ator dá-lhe essa ligeireza, como se fosse fácil fazê-lo, a interpretação suave de uma espécie de Pai Natal malvado, avôzinho matreiro dos mafiosos.

Quando a confusão passa, quando depois da correria estamos finalmente fora do local do crime, nos livramos da arma, temos de lidar é connosco próprios. É sobre isso, e sobre o quanto pesam as decisões erradas quando ficamos a sós connosco, cansados, doentes, vencidos, de que este filme fala.

A Netflix permitiu aos jornalistas ver O Irlandês esta segunda-feira (25) na Culturgest, em Lisboa. O mais aproximado de uma sala de cinema a que tivemos direito em Portugal. O mérito da empresa norte-americana é financiar esta obra e apostar nela, como mais ninguém fez, com esta duração e com este orçamento, mas não podemos deixar de ter pena pelos espectadores que não vão ter oportunidade de, de forma mais imersiva e intensa, mergulhar no filme como ele merece. 3h30 em streaming vão sempre incluir pausas para bolachas, wc ou resposta rápida à DM da crush. E este filme é para ver olhos nos olhos, sem distrações.

O Irlandês

Fotografia: Divulgação / Netflix

Crítica. 'O Irlandês' está aqui para mostrar o que é cinema a sério
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