São dez os anos que separam o início de uma carreira promissora de um dos maiores cantautores da sua geração. Depois de festejar uma década de canções em Lisboa, Braga e Coimbra, João Só subiu ao palco da Casa da Música, no Porto.

Com lotação esgotada, a Sala 2 prepara-se para um concerto de memórias, onde a ténue linha temporal  facilmente celebra o presente como recua até ao ano de 2009. As surpresas e convidados especiais não se fariam tardar, mas antes Bárbara Tinoco abria as honras da casa.

O relógio marca as 22h00 e o público ocupa já os cerca de trezentos lugares que compõem a segunda maior sala de espetáculos do epicentro cultural da Invicta. Estão visivelmente prontos para cerca de duas horas de música em português e recebem calorosamente a jovem cantora que conquistou o país no programa The Voice Portugal.

Bárbara Tinoco

Fotografia: Maria Jorge

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De poucas palavras, mas com um sorriso contagiante e uma confiança que em nada se relaciona com a timidez com que se apresentou no concurso da RTP, começa por agradecer ao “produtor que tornou a minha música num sucesso”. O tema ‘A Fugir de Ser’ rapidamente leva a plateia a focar-se na voz da compositora que se apresenta em palco unicamente acompanhada pela sua fiel companheira, a guitarra.

Segue-se aquele que será o seu próximo single. ‘Sei Lá’ apresenta um registo mais melancólico mas que se enquadra na sonoridade que já lhe é característica. Após fechar o trio de canções de abertura com ‘Uma Loira’, Bárbara Tinoco levanta o véu daquilo que será o concerto de 18 de dezembro, exatamente na mesma sala, “com banda e tudo”.

Sem que o público tivesse tempo para digerir todo o swing na voz de Bárbara Tinoco, já João Só estava em palco pronto para fazer das palavras a personificação de dez anos de carreira. Também acompanhado à guitarra, começa o espetáculo com ‘Bom Vento’, seguido de ‘A Marte’, cujo refrão é timidamente acompanhado pelo público.

Depois de ‘Vem’, o tema que escreveu quando pediu a mulher em casamento, eis que surge a primeira surpresa da noite. Vencedora de um concurso levado a cabo por João no Instagram, Branquinha, uma jovem de 16 anos, conquistou a oportunidade de cantar com o artista. As harmonias convenceram, com ‘Não Sou Eu’ a ser uma das canções mais aplaudidas da noite.

João Só

Fotografia: Maria Jorge

Estava dado o pontapé de saída para um espetáculo repleto de convidados especiais. Diretamente da cidade de Évora, Manuel Guerra interpreta ‘Um Só Sentido’, tema escrito por João Só e que faz parte do seu segundo álbum, ‘Sem Porquês’. O cantor enalteceu ainda que, fora dos palcos, Só contribui frequentemente para a carreira de outros artistas. E admite, “tive o prazer e a honra de ser ajudado por ele”.

Eis que Bárbara Tinoco volta ao palco para cantar ‘Eu Não’ e, em dueto com João Só, interpretar aquele que é o seu maior sucesso. O tema ‘Antes Dela Dizer Que Sim’ fez, pela primeira vez, um número considerável de telemóveis gravar o momento de intimidade entre os dois artistas.

Depois de uma primeira parte com características acústicas, onde apenas guitarras marcavam a entoação das canções, Só chama ao palco Nuno Alex. O músico traz-nos o baixo e a percussão ao passo que Só passa para a guitarra elétrica. Juntos tocam ‘Sofia’ e ‘Mais Ninguém’, com o tema ‘Próxima Estação’ a trazer Margarida Capelo às teclas e voz. A banda estava completa e a energia pronta para percorrer cada recanto da Sala 2.

O público bate o pé e mostra-se rendido ao artista com ‘É Para Ficar’, ao passo que ‘Não É Verdade’ prova mais uma vez a mestria de João Só na composição. Escrito para Carolina Deslandes, o sucesso tornou-se num dos temas mais acompanhados pela audiência. A veia do rock n’ roll volta a vir ao de cima com ‘Queres’ e a boa disposição do cantautor é notória.

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João Só

Fotografia: Maria Jorge

O último convidado da noite esteve o concerto todo do lado de cá. Foi da plateia que Miguel Araújo partiu para o palco para entoar ‘Documentos de Amor’, ‘Vai Por Mim’ e ‘Só a Ti’. As canções, que fazem parte do projeto Mendes e João Só, foram naquele dia tornadas públicas em todas as plataformas digitais e a receptividade do público aprovou a manutenção da parceria.

A plateia atinge o seu rubro com ‘Maridos Das Outras’ que, segundo Araújo, foi pensada para ser “uma música à João Só”. No entanto, ninguém esperava o momento que se seguia e que faria o público levantar-se para a primeira ovação da noite. Discretamente sentados na última fila estavam os três membros d’Os Azeitonas. Marlon, Nena e Salsa são convidados a subir ao palco para protagonizar aquele que foi, indiscutivelmente, o pico do espetáculo.

Foi com ‘Meu Bem’, o seu primeiro single, que João Só levou o público ao rubro num quinteto com Miguel Araújo e os próprios Azeitonas juntos em palco. O momento não passou despercebido ― com os fãs a levantar-se e a dançar do princípio ao fim ― e marcou uma reunião do grupo original da banda portuense, nem que fosse por alguns minutos.

Concerto de João Só com Os Azeitonas

Fotografia: Maria Jorge

A tarefa de manter um concerto depois de tamanha surpresa não era fácil, mas Só tinha ainda reservado o seu maior sucesso. ‘Sorte Grande’ é acompanhada a plenos pulmões por todos e, após um encore, ‘Não Sou Eu’ volta a ser interpretado, desta vez a solo. A viagem pelos dez anos de carreira acaba com uma merecida ovação por parte de um público que, se ao início precisou de ser estimulado, no fim estaria certamente pronto para outra dose de João Só.

O palco da Casa da Música tornou-se pequeno para a quantidade de personalidades da música portuguesa que nele mostraram a transversalidade das composições de Só. A assistir estavam ainda João Couto, David Dias (dos We Find You) e Tiago Nacarato que, depois de atuar na gala dos Dragões de Ouro, fez ainda questão de assistir ao final do concerto.