Numa edição da Web Summit em que se discutem os problemas que uma “crise da verdade” pode trazer para a nossa sociedade, bem como os perigos da pós-verdade para o jornalismo moderno, a transparência na informação volta a ser tema de destaque.

Desta vez, a mensagem surge na voz de quem luta em primeira mão contra a corrupção através da exposição de ações governamentais contra-censura. Juan Branco, consultor jurídico de Julian Assange, da Wikileaks, afirmou convictamente a Ryan Broderick, jornalista do Buzzfeed e moderador da conversa, que “estamos no início de uma grande revolução na informação“.

A conversa desviou-se para o caso dos Estados Unidos da América (EUA). Desde o início da discussão em torno do impeachment do presidente Donald Trump, reflete-se continuamente sobre as eleições de 2016 e o impacto social e político que a eleição do atual presidente tiveram. O envolvimento da Wikileaks na eleição foi referida por Juan Branco como um ponto de “referência“.

Falando nos media, temos de pensar no nosso papel em toda esta histeria“, que foi criada com o lançamento destes documentos pela Wikileaks. A função da imprensa tradicional foi, em casos como este, a de fazer “títulos e mais títulos sobre o assunto. A Wikileaks apenas colocou as informações no cenário público“.

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A reflexão sobre o lançamento em formato aberto de conteúdos até então ocultos suscita opiniões diversas. Branco contesta, dizendo que “é fácil ficar contra nós, que apenas fizemos o que sempre fazemos“. É mais relevante, por outro lado, “refletir sobre a posição de cada um  [dos envolvidos] e estender a lição aos próprios democratas“, aplicando a máxima de que a transparência é a arma contra a corrupção. Assim, a revelação da verdade “não cria corrupção“, no momento em que se “revelam documentos que são verdadeiros” e nos quais se “deve acreditar“.

A falta de confiança nos media tradicionais

A posição de Juan Branco é concisa: os meios de comunicação tradicionais não têm a capacidade de filtrar toda a informação, fornecendo uma fonte de confiança aos seus leitores. Em contraste, considera que a Wikileaks representa o lado totalmente oposto da questão, afirmando que “não há nenhum órgão no mundo que nunca tenha publicado uma notícia falsa, não há nenhum que nunca tenha cometido um erro“, e provoca: mas a Wikileaks não”.

Isto porque, nas palavras do consultor jurídico, a imprensa faz o seu trabalho com base na perceção do que se passa e nas narrativas propostas pelos governos e o aparato destas fontes, “sistematicamente orientadas”, das quais os jornalistas são “prisioneiros” e “dependentes“, muitas vezes representantes de uma “agenda política“.

Uma questão que, mais tarde, fez Branco recusar-se a responder sobre o assunto, acusando a moderação de uma imposição de ideias, razão pela qual, a título de exemplo, existe uma enorme crise nos meios de comunicação.

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Afirma, porém, que a Wikileaks representa o contraste a esta forma de informar. Branco é perentório quando reforça que a exposição de factos da forma em que a plataforma o faz é possibilitadora de se “formar opinião própria, sem que se esteja dependente de outros; é suposto pensarmos por nós próprios“. É, no fundo, “uma enorme mudança que vai permitir uma alteração no sistema político e no seu funcionamento“.

Em apelo à libertação de Assange, que realizou ontem numa outra sessão na Web Summit, dá o exemplo de um caso semelhante a nível nacional. O advogado referiu-se ao português Rui Pintohacker que expôs informação confidencial relacionada ao mundo do futebol português, como alguém que “apenas divulgou informação e não cometeu violência“, nem atentou “contra a dignidade de ninguém“.