A ex-diretora da Cambridge Analytica esteve presente na Web Summit e realçou o papel do jornalismo de investigação nos dias de hoje. No caso dos whistleblowers, a norte-americana defende o uso da tecnologia para a sua proteção.

Acompanhada por James Ball, editor global do The Bureau of Investigative Journalism, e John Tye, fundador da Whistleblower Aid, Britanny Kaiser apontou a necessidade de se criar uma “consciencialização pública” como elemento crucial para ter abandonado a Cambridge Analytica.

A norte-americana acabou por se tornar uma denunciadora das práticas da empresa que dirigiu a campanha eleitoral de Donald Trump em 2016. No palco “Content Makers” da Web Summit, Kaiser falou dos motivos pessoais que a convenceram a ser whistleblower (denunciante de práticas imorais em empresas) e a expôr o caso para conhecimento público. Considera também que o próximo passo consiste em proteger os denunciantes para o bem-estar das democracias.

“Fi-lo por uma questão de interesse público. De forma geral, o melhor conselho que posso dar é que uma pessoa tem que ser confiante dela própria e das suas próprias convicções. Acho também que devia existir uma ‘lugar seguro’ para proteger os denunciantes. Seria importante até mesmo criar mecanismos tecnológicos com o objetivo de fortificar a democracia” comenta.

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Nesse aspeto, James Ball aponta para a existência de um “renascimento do jornalismo de investigação”, visto que é do “interesse público”. Mas para o fazer, a proteção das fontes dos jornalistas tem que ser prioridade máxima. [Na minha opinião] há poucos motivos para estarmos otimistas. De certa forma, o jornalismo de investigação acontece quando a justiça falha”, afirma.

Sobre a possibilidade desse tipo de investigação ser rentável para a publicação, Ball prefere analisar a questão sob outro prisma. “Conheço poucos colegas que o fazem [jornalismo de investigação] por dinheiro. Na verdade, não é impedimento de os jornais não apostarem nisso. Por exemplo, no The Guardian, publicação onde já trabalhei, conseguem conciliar um lado mais leve da publicação, mas não se esquecem das investigações ‘a sério’. Os diretores não podem ter medo”, sublinha o editor The Bureau of Investigative Journalism.

No que diz respeito à fundação Whistleblower Aid, John Tye explica que a mesma é uma organização  sem fins lucrativos que ajuda funcionários públicos a relatar as suas preocupações. Tye dá conselhos sobre este assunto. “Antes de falarem com alguém sobre qualquer assunto, o que um possível whistleblower tem que fazer é arranjar um advogado e conversar sobre o assunto que tem para falar sem usar equipamentos tecnológicos”, realça.

Por questões de transparência, a fundação norte-americana não aceita donativos fora do seu país. “Não pode haver ninguém a ser proibido de seguir a sua consciência, pondo a sua carreira profissional em primeiro lugar”.