Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto, a 6 de novembro de 1919. Foi uma das melhores poetisas portuguesas do século XX. Hoje, a assinalar aquele que seria o 100.º aniversário, recordamo-la – e damos-te a oportunidade de a conheceres através do seu legado.

Sophia não foi apenas uma poetisa – aliás, uma larga parte do seu legado é constituído por prosas, especificamente contos infantis. Além de escritora, Sophia foi tradutora, uma cidadã politicamente ativa (mesmo quando a impediram de o fazer) e, sobretudo, mãe.

A sua veia materna desdobra-se nas suas palavras e na forma íntima como as deixou expostas. A simplicidade tocou os portugueses e os estrangeiros. Em 1999, foi galardoada com o Prémio Camões, aquele que é considerado o mais importante prémio a ser atribuído a um autor de língua portuguesa.

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É frequentemente dito que os escritores se inspiram nas suas experiências pessoais para as suas histórias, e espelham a sua alma naquilo que escrevem.

O Espalha-Factos reuniu 5 obras imprescindíveis para conheceres um pouco da alma de Sophia:

“Mar
Metade da minha alma é feita de maresia”

Poesia, 1944

Poesia foi a primeira obra publicada por Sophia – na altura, uma edição da própria autora. O título é mais que adequado – é nada mais nada menos que poesia, com a feição inteligível e intimista de Sophia.

Noite, mar, o céu, a pátria e o sentimento de exílio. Os temas prediletos da poesia de Sophia são-no desde o início.

“E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.”

Mar Novo, 1958 (reeditado em 2003)

Mar Novo tem uma história a ser explorada, que não envolve diretamente Sophia até ao momento em que ela utiliza a expressão como título do livro. Anos antes, um projeto de Júlio Resende (pintor), Barata Feyo (escultor) e João Andresen (arquiteto e irmão de Sophia) com o mesmo título foi recusado durante o Governo salazarista.

Mar Novo, Júlio Resende, João Andresen

Mar Novo, obra nunca exposta em Sagres (Fotomontagens de Teófilo Rego, DR)

A esta obra escultória que ficou esquecida no escuro, Sophia dedica versos como:

“Quem são os vencedores desta agonia?
Quem os senhores sombrios desta noite
Onde se perde morre e se desvia
A antiga linha clara e criadora
Do nosso rosto voltado para o dia?”

Esta é uma das obras em que Sophia demonstra o seu descontentamento para com o regime instaurado em Portugal de 1933 a 1974. Fê-lo também em Livro Sexto. Fê-lo ao apoiar convictamente a candidatura do “General sem MedoHumberto Delgado às deturpadas eleições presidenciais de 1958. Fê-lo ao condenar a Igreja Católica pelo seu apoio a este regime e à falta de reprovação da mesma quanto à Guerra Colonial. E fê-lo já largos anos depois da liberdade, ao continuar a apoiar a independência dos povos (nomeadamente Timor-Leste, em 2002).

Menina do Mar, 1958

Entramos agora na secção infantil da bibliografia de Sophia, esta que marca significativamente a sua carreira. Alguns palpitam que a motivação para escrever contos infantis proveio dos seus filhos, a quem contava estas histórias, ainda antes de as publicar.

“- (…) As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
– Isso é por causa da saudade – disse o rapaz.
– Mas o que é a saudade? – perguntou a Menina do Mar.
– A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.”

A Menina do Mar apanha os amores de Sophia – o mar, a areia, a praia como sítio predefinido para a ação da história. História esta que fala sobre a amizade entre um rapaz que vive na Terra e uma bailarina que vive no fundo do mar. É preciso muita imaginação – assim, nasce a obra.

Sophia e os filhos mais velhos

Sophia e os seus filhos mais velhos (fotografia de Fernando Lemos)

A Floresta, 1968

A Floresta conta as pequenas aventuras de Isabel, mas a inspiração para esta personagem não veio do acaso: a história é inspirada na infância de Sophia, e os detalhes que o livro explora são provenientes de memórias da sua avó e do local onde esta viveu.

Sophia de Mello Breyner Andresen no Jardim Botânico do Porto

Buste de Sophia no Jardim dos Jotas, Jardim Botânico do Porto

Sendo um conto infantil, o imaginário continua a ser o mote deste livro – mas destacamos também a natureza e a ligação que Sophia tem com a mesma. Se na maioria das suas obras Sophia descreve o mar, nesta vemos uma descrição dos espaços verdes que nos rodeiam. Neste caso específico, aquele que é o atual Jardim Botânico do Porto.

 

O Nome das Coisas, 1977

Aqui, voltamos a ter a Sophia interventiva. Despida de palavras bonitas e íntimas, a verdade nua e crua diante dos nossos olhos – sem algo mítico a encobrir a mesma além da habitual beleza da poesia, O Nome das Coisas porque as coisas devem ser tratadas pelo nome.

Podemos assumir que existe uma postura até um pouco contemplativa, que abrange os erros políticos do passado e a esperança de um futuro mais livre.

“E se a política deve desalienar a nossa vida política e a nossa vida económica, é a poesia que desaliena a nossa consciência.”

Sophia de Mello Breyner

Tenhamos em conta que a Revolução de Abril acontecera apenas três anos antes da publicação da obra; e demos relevo até ao facto de Sophia ter sido eleita para a Assembleia Constituinte em 1975, pelo Círculo do Porto, se quisermos procurar legitimidade nas suas palavras. Ainda que se tenha envolvido na militância política, pelo projeto do Partido Socialista, Sophia de Mello Breyner Andresen acabaria por concluir: “(…) pensei, de repente, que escrever era a minha verdadeira participação política”.

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