Arrancou, esta segunda-feira (4 de novembro), mais uma edição da Web Summit, a quarta sediada em Lisboa. A edição de 2019 daquela que é descrita como a maior cimeira de tecnologia no mundo conta com centenas de convidados, divididos por 24 palcos e dois espaços de conferências e exposições.

O primeiro dia ficou marcado pela conversa com Edward Snowden, que participou na conferência através de videochamada, diretamente da Rússia. Em igual destaque, as habituais honras de Paddy Cosgrave, CEO e co-fundador da Web Summit, que juntou no palco Fernando Medina, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e Pedro Siza Vieira, ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital, no final da noite de abertura.

A Altice Arena parece pequena para acolher todos os participantes e, com a Web Summit a ficar cada vez mais repleta de gente, Paddy Cosgrave teve de atrasar o seu discurso de abertura por questões de segurança. Depois de um vídeo promocional exibido nos ecrãs gigantes do pavilhão, surge a cara do evento tecnológico.

Paddy Cosgrave, Pedro Siza Vieira e Fernando Medina abriram oficialmente a edição de 2019 da Web Summit. | Fotografia: Tiago Serra Cunha/EF

É a quarta edição a realizar-se em Lisboa e Cosgrave gosta de manter as tradições de networking que tem cultivado nestes últimos anos. “Antes de começarmos, quero que todos vocês se levantem e cumprimentem as pessoas que estão a vosso lado“, anuncia.

No discurso de abertura, Siza Vieira faz alusão ao período dos Descobrimentos para realçar a importância de Lisboa como um ponto de encontro para o futuro das start-ups. Medina complementa esta ideia e revela que a capital portuguesa estará sempre aberta para acolher diversidade de desafios nas áreas tecnológicas.

O futuro das mulheres na tecnologia em Portugal

Com uma crescente aposta no setor tecnológico português, quer de companhias nascidas localmente como de vários gigantes internacionais, ambas as perspetivas estiveram em discussão no palco central do Altice Arena.

Filomena Cautela, apresentadora da RTP, voltou a subir ao palco lisboeta depois das aventuras eurovisivas do ano passado, para moderar uma conversa com Michelle Zatlyn, co-fundadora e COO da Cloudflare, empresa de segurança na Internet, e a portuguesa Daniela Braga, fundadora e CEO da start-up DefinedCrowd.

A conversa, que inicialmente se prenderia apenas com os desafios da tecnologia no cenário português, acabou por tomar um rumo inesperado (embora, no entanto, juntando-se a um dos temas mais aplaudidos no dia) ao ter um foco especial no papel das mulheres no mundo tecnológico, com especial atenção para o que se passa no nosso país.

Filomena Cautela moderou a conversa com Daniela Braga e Michelle Zatlyn, empresárias no ramo da tecnologia com empresas sediadas em Lisboa. | Fotografia: Tiago Serra Cunha/EF

Michelle, que começou a sua empresa nos Estados Unidos e agora muda a sua divisão de engenharia totalmente para Lisboa; e Daniela, que iniciou o negócio por cá, são casos de referência nas áreas em que atuam. De acordo com Filomena, são mesmo “duas das primeiras mulheres a tornar-se milionárias self-made em todo o mundo“.

Para ambas, Lisboa é o sítio a ter debaixo de olho no que ao setor tecnológico diz respeito. Michelle Zatlyn considera a escolha da capital portuguesa para garantir um dos setores essenciais da sua empresa não foi óbvia ao início, mas clarificou-se com a observação do “talento incrível” no país, tanto ao nível da engenharia como do ensino universitário. Lisboa é, no fundo, “o próximo coração da inovação na Europa e queremos apostar aqui“, refere.

Apesar de tudo, para Daniela, diversidade é uma das palavras-chave da sua companhia. Na DefinedCrowd, 42% do staff é composto por mulheres, não por preenchimento de quota, mas por uma real aposta no talento independente do sexo e género dos seus integrantes. Definição corroborada por Michelle, que afirma que, durante a pesquisa para implementação da sua empresa em terras lusas, concluiu que Lisboa está “anos-luz” à frente de vários outros lugares de referência para o setor a nível internacional.

Da música para o ativismo pela água

A água e as suas necessidades são um dos setores mais atrativos nos negócios focados nos recursos, energia e sustentabilidade. A discussão sobre o tema prende-se, sobretudo, com a questão pertinente da crise climática, tema em destaque no espectro político, social e também empresarial a nível global.

Numa conversa moderada por Laurie Segall, jornalista correspondente da CNN em tecnologia, três dos protagonistas de Brave Blue World, documentário que pretende mudar a perspetiva sobre as soluções para a água e a sua necessidade, discutiram o futuro da temática e os impactos reais que esta crise pode reforçar.

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Jaden Smith, ator, cantor e agora empresário, começa por dizer que é necessário preocuparmo-nos “a sério” com a crise da água. Isto porque “vai afetar-te diretamente, assim como à tua família. Estamos à beira de não ter mais esperança. Mas ainda não estamos bem lá“. É por isso que é necessário começar a pensar em soluções para a problemática.

Fotografia: Tiago Serra Cunha/EF

É assim que surgem estratégias como as de Smith que, aos 21 anos, é co-fundador da 501cTHREE.org e da JUST water, duas empresas com foco na mudança ambiental através de impacto nos setores da energia, alimentação, água e abrigo. A segunda foi criada pelo artista aos 11 anos, “82% realizada com recursos renováveis e uma redução em 72% das emissões de CO2 comparativamente a empresas semelhantes no mercado“.

Numa conferência que também contou com a presença de Gary White e Paul O’Callaghan, discutiram-se visões, projetos e formas de levar água potável e saneamento a todas as populações do mundo. Uma conversa que, segundo a moderadora, ao estar a acontecer na noite de abertura de uma conferência sobre tecnologia e inovação, “estabelece o cenário” desta problemática.

As soluções passam pela utilização da tecnologia e inovação financeira para implementar soluções que já estão pensadas, mas ainda não atingiram o patamar para poderem ser implementadas. “Não é suficiente estar a par da situação“, é preciso pôr em prática soluções para um problema que vai para além da questão ambiental e passa pela pobreza e falta de acesso a água limpa, bem como a eliminação da chamada “máfia da água“.

Para o futuro, trabalham na implementação de plataformas que permita, a democratização destas necessidades e a possibilidade de investimentos que “permitam às pessoas fazer parte do impacto“, refere Gary White, de forma a garantir o acesso a água ao maior número de pessoas que seja possível atingir. A água “pode ser uma fonte de conflito, mas também pode ser uma fonte de cooperação“, através da qual se permite a “cooperação, em que as pessoas se podem juntar para a resolver, seja através da tecnologia ou da oportunidade de investimento“, conclui Paul O’Callaghan.

As imagens do primeiro dia