O primeiro dia da Web Summit 2019 teve como grande destaque um diálogo com Edward Snowden. O ex-CIA expôs a vigilância que o Governo Americano exercia sobre os seus cidadãos. Seis anos depois, esteve em videochamada com Lisboa.

Paddy Cosgrave, co-fundador e CEO da Web Summit, introduziu aquele que para muitos “é a definição de whistleblower”James Ball, jornalista vencedor de um Prémio Pulitzer, esteve encarregue da entrevista a Edward Snowden.

As luzes desligaram-se na Altice Arena e James Ball perguntou: “Estás a ouvir?”. Do outro lado, a já conhecida voz do ex-espião americano. “Consigo”. A iluminação retoma e Edward Snowden surge nos ecrãs do Center Stage. O público aplaude, efusivamente.

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O antigo agente da CIA começou por falar no processo de entrada na organização governamental americana. “Segues as regras a tua vida toda. No primeiro dia fazes um juramento de serviço”, explicou. É um juramento de defesa da Constituição americana contra qualquer inimigo, estrangeiro ou local.

“Muitos anos depois descobres que o que estás a fazer é uma conspiração gigante para violar esse mesmo juramento”, continuou. Para Snowden, quando o governo age de forma secreta contra o conhecimento e consentimento geral, “o público tem direito a saber”.

O antigo espião quis, através das suas denúncias, passar duas mensagens: “Uma tecnológica e uma democrática”. A mudança de uma vigilância a um alvo específico para uma vigilância global foi o que arrepiou Edward Snowden. “A Lei não importava, os tribunais não importavam, os teus direitos não importavam”. Para o ex-CIA, a pergunta da nossa geração é: “O que fazemos quando as instituições mais poderosas da sociedade são as que têm menos responsabilidade para com a sociedade?”.

Edward Snowden

Fotografia: Tiago Serra Cunha | Espalha-Factos

“A tecnologia é a amplificação do poder individual”

Questionado sobre as diferenças  no mundo, passado seis anos das suas revelações,  Edward Snowden considerou que vivemos num “ponto de vulnerabilidade primária”. Para o ex-espião as pessoas estão zangadas com as entidades certas, mas pelas razões erradas. O modelo de empresas como FacebookAmazon e Google é “abusivo”, porém legal e é essa a questão: “Legalizamos o abuso da pessoa através dos dados pessoais. Criamos um sistema que torna a população frágil , para benefício dos privilegiados”.

Para Edward Snowden a tecnologia é a “amplificação do poder individual”. O problema é que o poder está a ser concentrado em algumas instituições. “A questão é como é que vais impôr a lei na expressão desse poder quando é usado contra o público e não a favor.”.

ex-CIA afirmou que o problema “não é E proteção de informação, mas sim a coleção de informação”“Regular a proteção de informação assume que coleciona-la é apropriado, que é correto espiar toda a gente “, explicou. Edward Snowden não acredita que nao há mal desde que dados pessoais nao sejam divulgados , porque “eventualmente, tudo é divulgado. É uma má estratégia”.

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O exilado político afirmou que “informação não é algo abstrato, é  sobre pessoas”. “A Lei não é a única coisa que nos protege. A tecnologia não é a única coisa que nos protege. Nós somos a única coisa que nos protege. A única forma de proteger alguém é proteger toda a gente. Obrigado e sejam livres”. A conferência terminou com esta despedida e o público deu um forte aplauso.

Edward Snowden surgiu na Web Summit com a atitude que o caracteriza. Corajoso, sem filtros e a colocar o dedo na ferida, mesmo num evento onde se encontram muitos dos visados. A luta pela privacidade digital continua e a mensagem de Snowden marcou a audiência do primeiro dia do certame.