Jorge de Sena foi, acima de tudo, um poeta. A sua obra é extensa e variada, entrecruzando géneros e formas, mas a poesia esteve sempre lá, na base de todo o seu ser literário. Sempre se sentiu, também, como um exilado, ainda antes de deixar o seu país, por não encontrar um lugar claro onde pertencia, ou por não conseguir pertencer a lado nenhum.

Nascido há cem anos atrás, a 2 de novembro de 1919, Sena teve uma infância solitária. Partilhou-a com livros, histórias e ideias, mas não com primos, irmãos ou amigos da sua idade. Talvez por isso tenha tido nove filhos com a sua mulher Mécia de Sena.

O interesse pelas letras revelou-se desde cedo, numa infância muito marcada pela sua mãe e avó. Escreveu os primeiros poemas antes de terminar o liceu, quando tinha 17 anos, mas as primeiras palavras escreveu-as apenas aos quatro anos, um ano depois de começar a ler.

Um conflito duradouro entre as letras e as armas avizinhava-se. Seu pai, Augusto Raposo de Sena, comandante da marinha mercante, esperava uma carreira militar para o seu filho. Porém, Sena acabaria por não conseguir conciliar as duas.

Tornou-se num verdadeiro homem de letras, apesar de ter concluído o curso de Engenharia Civil e de ter cumprido serviço militar.

Um amante de todas as artes

Escreveu poesia, teatro, ficção e ensaio. Foi ainda crítico em vários jornais e revistas da época, como Mundo Literário, Seara Nova ou Presença. Também se debruçou, na sua crítica, sobre o teatro e a ópera.

O cinema foi outra das suas paixões. Foi um ávido comentador nas “Terças-feiras Clássicas”, organizadas pelo Jardim Universitário de Belas Artes. Traduziu também vários poetas, como Kavafis e Emily Dickinson, dramaturgos, como Molière e Brecht, e ainda ficcionistas, como Faulkner ou Hemingway.

Jorge de Sena era um amante de todas as artes e “senhor de uma insaciável curiosidade intelectual”, como nos conta Jorge Fazenda Lourenço em O essencial sobre Jorge de Sena (2.ª edição).

O poeta foi também conferencista e professor. Estudou poesia e literatura portuguesa, com especial atenção a Luís de Camões e Fernando Pessoa. Na sua infância, Fernando Pessoa era um visitante regular em casa da sua tia avó Virgínia Sena Pereira, mas Jorge de Sena não teve consciência disso, pois tinha apenas 14 anos.

Viria a dedicar-lhe inúmeros ensaios e conferências e até a assumir semelhantes atitudes literárias.

O poeta do exílio

“Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações nasci.” – Em Creta, com o Minotauro

Este verso estabelece um paralelo com Bernardo Soares (Fernando Pessoa), quando escreve “A minha pátria é a língua portuguesa”.

Sena deixou Portugal em 1965 e não se sentiu mais português desde que partiu. Primeiro, estabeleceu-se no Brasil, depois nos Estados Unidos. Apesar de ter voltado a Lisboa algumas vezes, para conferências, por exemplo, não voltou a ser um cidadão português, nem mesmo após a Revolução.

Numa entrevista dada ao Diário de Lisboa, em 1968, disse: “eu sou uma espécie de exilado profissional. Eu acho que já o era em Portugal, antes de lá sair”.

Jorge de Sena morreu em Santa Barbara, na Califórnia, a 4 de junho de 1978, vítima de cancro do pulmão. Exatamente um mês antes, foi entrevistado por Frederick G. Williams, numa gravação inédita em vídeo que perdurou até hoje.