A TVI entrou em 2019 numa fase de crise de audiências. Não só viu a liderança fugir para a SIC logo em fevereiro, como registou quedas sucessivas de share desde janeiro até agosto. Ao longo desses meses, o canal deslizou dos 19,0% para os 12,8% de quota de mercado. Em setembro recuperou um ponto percentual para os 13,8%, enquanto em outubro marcou passo e ficou nos 13,9%. Os valores mensais atingidos desde agosto são os piores números da TVI desde 1998. Por isso mesmo, é uma oportunidade para recordar como era a grelha e as audiências de Queluz na última época de crise de audiências.

1. Mudar para fugir da insignificância: TVI em revolução interna

Se recuarmos 22 anos atrás até ao ano de 1997, a SIC era a rainha incontestada da televisão portuguesa. O seu domínio era de tal forma avassalador, que era impossível imaginar o furacão TVI que se aproximaria dali a muito poucos anos. Segundo dados da Marktest para o bolo das televisões generalistas, 1997 foi mesmo o melhor ano de sempre da SIC e o auge do seu crescimento, fechando as contas anuais com uma quota de mercado de 49,3%. Para termos uma noção da diferença, no melhor mês de 2019, a antiga estação de Carnaxide não foi além dos 20%.

Em contraste, a TVI vivia nesse ano algumas dores de crescimento: entre 1994 e 1998, o canal oscilou entre os 12 e os 15% de share. Em 1997 registou 12,1% de quota de mercado, o pior registo desde 1993, o seu ano de estreia. Em 1998 recupera para 13,1% de share, mas é só em 1999 que inicia uma trajetória ascendente mais consistente, ao passar para os 17,4% de share, uma subida feita em grande medida às custas da RTP1. Só em 2000, com o arranque do Big Brother, é que o canal dá um salto de gigante, superando a barreira dos 20% de share.

Tal como sublinha uma retrospectiva do Dinheiro Vivo, por ocasião dos 20 anos da TVI, o canal viveu em 1997 alguns pontos de viragem. Em primeiro lugar, foi nessa data que a Media Capital entrou no capital social do canal. Miguel Paes do Amaral, presidente do grupo, iniciou nesse ano um processo de reformulação do canal, com vista reduzir o passivo financeiro e tornar a quatro mais rentável e lucrativa. Segundo Paes do Amaral, nessa altura as más práticas de gestão conduziram o canal a uma situação de quase insolvência, obrigando a uma gestão cuidadosa dos recursos. No final de 1998, a Media Capital já passaria a deter mais de 90% do capital da TVI, em contraponto com uma retirada dos grupos Sonae, Cisneros e Lusomundo.

Outro elemento simbólico de 1997 é que este foi também o ano em que a TVI se instalou em Queluz de Baixo, abandonando o edifício Altejo e o cinema Berna, onde se localizavam as instalações do canal nos seus primeiros anos de existência.

A direção de programas do canal também refletiu estes diferentes momentos da estação: José Ribeiro e Castro comandou a grelha entre 1993-1996, sendo seguido por Carlos Cruz entre 1996 e 1998. Foi em 1998 que José Eduardo Moniz entrou em cena, ocupando a liderança da TVI até 2009. Moniz, que foi um dos rostos principais da RTP1 entre 1977 e 1994, entrou para a direção de programação da TVI pelas mãos de Belmiro de Azevedo e da Sonae, antes da Media Capital assumir uma posição de controlo do capital social da TVI. Paes do Amaral já assumiu publicamente que a melhor decisão que tomou nessa altura foi a de manter Moniz como diretor-geral da estação.

O logótipo dessa altura, que se estreou em 1996, correspondia a uma esfera cinzenta com a letra ‘i’ no centro. Seria o logótipo oficial do canal até 2000.

TVI - Logo pré-2000

Fotografia: Reprodução

2. A TVI no verão de 1998: ficção internacional, informação e desporto

Focando a análise nos meses de junho a setembro de 1998, encontramos um canal com valores médios similares aos que obteve no mesmo período de 2019: 12,1%, 14,8%, 15,0% e 14,8%. Por comparação, a SIC alcançou nesse período 47,0%, 47,2%, 48,8% e 47,2%. A RTP1 oscilou entre os 29 e os 35%, enquanto a RTP2 navegou entre os 6 e os 8%.

Em junho, a TVI colocou seis programas no top 100 dos mais vistos. O primeiro deles foi um filme, na 77.ª posição e com uma audiência de 5,7%, tendo sido exibido a partir das 22h30. Nota ainda para a entrada do programa Directo XXI, o informativo antecessor do Jornal Nacional, que foi emitido às 21h, com uma audiência de 5,1 pontos e uma quota de mercado de 15,6%.

Em julho, foram 12 os programas da quatro a entrar no top. Destaque para um episódio da série Marés Vivas (Baywatch), que se ficou pela 63.ª posição e com um rating de 5,5%. A série fez parte do alinhamento das 20h da TVI. Também deu entrada na lista dos mais vistos a série norte-americana As Novas Aventuras do Super Homem (Lois & Clark: The New Adventures of Superman), igualmente emitida às 20h. Filmes estrangeiros e o informativo Directo XXI foram outros títulos em destaque nas audiências desse mês.

No mês de agosto, a TVI puxa dos galões desportivos e conseguiu emitir o 49.º programa mais visto do mês, com a transmissão de um jogo de futebol do Sport Lisboa e Benfica, com um rating de 6,7% e uma quota de mercado de 32,8%. Um jogo de futebol da Super Taça de Itália, a série Causa Justa (The Practice), filmes e novamente o programa Directo XXI foram outros títulos a entrar no top 100. No total, a TVI emitiu oito dos 100 programas mais vistos nesse mês.

Entrados em setembro, a TVI introduz 14 programas no top 100. O primeiro foi a série Ficheiros Secretos (The X-Files), com um rating de 6,7% e um share de 22,5%. O programa foi emitido às 22h, em pleno horário nobre, tendo alcançado a 52.ª posição. A série Causa Justa (The Practice) foi o segundo título mais visto da quatro, na posição 65 e com um rating de 5,9% e um share de 22,0%. A série também fez parte do alinhamento das 22h. As Novas Aventuras do Super Homem (Lois & Clark: The New Adventures of Superman) também entrou no top 100, juntamente com vários filmes, um jogo do Campeonato Italiano e o Directo XXI.