No 120.º aniversário do nascimento de Alfred Hitchcock, um dos mais aclamados realizadores do cinema mundial do século XX, os canais TVCine celebram a data com a transmissão de alguns dos seus mais emblemáticos filmes. Mas fica a pergunta: o que há de tão especial em Hitchcock?

Nascido em 1899, em Londres, Hitchcock é considerado um dos mais influentes cineastas do cinema mundial. Dirigiu mais de 50 filmes e, curiosamente apareceu em muitos deles, de maneiras quase tão imperceptíveis que ainda hoje se procuram as cenas em que o realizador possa ter passado para o outro lado da câmara sem que ninguém desse conta.

Apesar de nomeado seis vezes para os Óscares – uma vez como produtor, as outras cinco como realizador –  Hitchcock nunca conseguiu levar a estatueta para casa. Ainda assim, o cineasta é uma referência para quem trabalha atrás das câmaras e, essencialmente, para quem aspira contar histórias como o verdadeiro mestre do suspense.

Mas, afinal de contas, o que realmente distingue Hitchcock de Orson Welles ou Billy Wilder? A resposta pode ser complexa, mas a verdade é só uma. Hitchcock tinha um estilo, uma assinatura. E essa assinatura marcou a história do cinema.

O estilo hitchcockiano

Grace Kelly e James Stewart protagonizaram ‘A Janela Indiscreta’, em 1954.

A relação com o público era tudo para Hitchcock. O “verdadeiro cinema”, segundo o próprio, era aquele cuja história podia ser introduzida sem a necessidade de grandes diálogos ou frases inaugurais. Talvez por ter começado a carreira a realizar filmes mudos, para Hitchcock o “verdadeiro cinema” é aquele que, mesmo sem ser dita uma única palavra, atira o espectador para o centro da ação, tendo noção de tudo o que está acontecer e daquilo que pode vir, ou não, a acontecer. E é essa possibilidade, essa hesitação do real, a que chamamos suspense.

A câmara era muito mais do que um instrumento de captação de imagem. Fossem quais fossem as que o cineasta utilizava, elas tinham um propósito maior do que a sua função principal. As câmaras eram os olhos do espectador e era através delas que Hitchcock contava e construía as narrativas.

O diálogo, apesar de fundamental e sempre presente, para o cineasta não era nada mais do que um simples ruído no meio de outros tantos. Servia para contar histórias porque faz parte do ser humano: é quem somos e é a nossa principal ferramenta de comunicação. Ainda assim, nos filmes do mestre do suspense, os diálogos eram colocados num patamar menos elevado do que aquele em que estava a narrativa visual.

Alfred Hitchcock e Janet Leigh durante as gravações de ‘Psycho’

Era importante que o público soubesse mais do que as personagens, para que se criasse o verdadeiro momento de suspense: o segundo em que sabemos que algo está prestes a acontecer, que a personagem pode estar em perigo e que o espectador, com os nervos em franja, só tem vontade de gritar “Sai daí!”.

“O público tem cinco segundos de choque, mas o suspense pode prolongar-se por minutos, ou até mais do que isso”, confessou o cineasta. E é precisamente nessa ideia que se desenvolve o estilo hitchcockiano. Ao contrário do que alguns acreditam, as obras de Alfred Hitchcock não são filmes de terror. Não há momentos que assustem o espectador ou que dêem vontade, aos mais sensíveis, de abandonar as salas de cinema. Chamar Hitchcock de Pai do Terror é um atrevimento ousado. Apesar de conseguir espantar os espectadores com os seus revéses, as longas-metragens do realizador em nada se apaziguam a filmes que chegaram às salas de cinema nos anos 70, numa época em que o cinema perdia a inocência e acatava-se na ideia de que o mundo não era, como pensavam, tão perfeito.

Nos filmes de Hitchcock, o espectador é um voraz voyeur. O melhor exemplo desse voyeurismo acontece em A Janela Indiscreta, filme onde o espectador é convidado a entrar na vida da vizinhança, apenas através dos olhares atentos do protagonista.

Na cena acima, de Marnie (1964), a personagem principal corre o risco de ser descoberta. Não há qualquer diálogo durante a cena e, mesmo retirado o som, ainda é possível captar os perigos que a personagem pode vir (ou não vir) a enfrentar. É o momento em que a personagem entra num limbo, pois pode estar prestes a fracassar perante a sua missão ou pode sair vitoriosa.

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O progresso e a inovação

As inovações técnicas contribuíram para a consolidação de Hitchcock como um dos grandes mestres do cinema.

Nada disto seria possível sem as inúmeras inovações técnicas que Hitchcock trouxe à 7.ª arte. Os movimentos de câmara, as elaboradas edições e as alicerçadoras bandas sonoras – que realçavam os efeitos de suspense – foram técnicas que vieram a ser utilizadas, mais tarde, por diversos realizadores.

A arquitetura e o design de interiores foram outros dos aspectos que se tornaram indubitavelmente um marco na carreira do cineasta. Ao ter dado os primeiros passos no mundo do cinema como gerente de produção e designer de cenários, a experiência de vida ter-lhe-á certamente ajudado a construir o seu estilo visual. Para cada filme que concebia, Hitchcock esboçava páginas de storyboard e cada espaço em cena era mais do que um cenário, era uma personagem secundária.

Storyboard de ‘Os Pássaros’.

Todos os detalhes eram importantes para o realizador, até mesmo as cores passavam por um processo de dissecação minucioso. E, se há filme cuja direção estética tomou proporções fora do comum, foi em Vertigo (em português A Mulher Que Viveu Duas Vezes).

Em Vertigo, todas as cores em todos os momentos têm um significado e simbolismo específico. Scottie (James Stewart) e Madeleine (Kim Novak) estão no início do filme representados com duas cores distintas: vermelho e verde. Vermelho como representação do desejo, do amor e do medo de alturas que caracterizam a personagem principal; o verde como representação da fuga à realidade.

‘A Mulher que Viveu Duas Vezes’ será transmitido no dia 21 de novembro pelos canais TV Cine.

Em todas as cenas iniciais, estas personagens estão vestidas com as cores que lhes estão atribuídas e tocam apenas em objetos das cores que as representam. Mais tarde, quando a história avança, os protagonistas trocam de cor, pois os desejos de Scottie sofrem mutações ao longo da trama.

Apesar de não ter sido bem recebido pela crítica aquando da sua estreia em 1958, Vertigo tornou-se um filme de culto, sendo um dos mais claros exemplos de como a cinematografia de Hitchcock é muito mais densa e complexa do que aquilo que é observável a primeiro olho.

Se quiseres conhecer mais da filmografia de Alfred Hitchcock, o Espalha-Factos aconselha-te a acompanhares, todas as quintas-feiras, os filmes que serão exibidos no TV Cine 2 até 5 de dezembro. Vertigo, Psycho e Os Pássaros são algumas das longas-metragens que vais poder ver.

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