Estreia de domingo para segunda (21), na HBO Portugal, a nova aposta da gigante das séries no mundo dos super-heróis. Watchmen é adaptada aos dias de hoje e pouco sobra que nos possa ligar ao filme de 2009, cuja narrativa se passava numa versão alternativa da Guerra Fria.

Numa fase em que se vive uma overdose de séries e filmes da Marvel e da DC, Watchmen prima por apresentar alguma diferença. Não escancara de chofre ao que é que vem e, embora tenha cenas de ação bem coreografadas, inclua logo uma explosão no primeiro episódio e não deixe créditos por mãos alheias no ritmo da narrativa, não se apura para o filão de produções em que o foguetório é mais importante que a substância. E essas caraterísticas têm se tornado cada vez mais manifestas, lamentavelmente, nesta era do Arrowverse.

Neste remix da história de Alan Moore e Dave Gibbons não há bonzinhos impolutos e a linha entre o certo e o errado parece quase sempre pouco definida ou com interseções. A série aborda temas complicados como tensões raciais, o avanço da retórica fascista e o abuso de autoridade. E, se no filme o cenário era o de uma Guerra Fria em esteróides, aqui parecemos viver um século XXI em esteróides, com as várias realidades dramáticas e tensas da atualidade amplificadas.

Watchmen A Sétima Cavalaria

A Sétima Cavalaria (Fotografia: HBO / Divulgação)

Watchmen é ambientada em Tulsa, no estado de Oklahoma, numa realidade alternativa em 2019. Robert Redford é o presidente norte-americano há mais tempo no poder, depois de ter sido eleito em 1992. Neste cenário, depois de um grupo supremacista branco seguidor de Rorschach autointitulado A Sétima Cavalaria ter começado a atacar casas de membros da polícia, os agentes da autoridade começam a usar máscaras e a ter de optar por meios alternativos para se defenderem. Vai haver sangue e, está na cara, o final não vai ser limpo. Não vem aí um dérbi clássico do Bem contra o Mal.

No primeiro episódio, que a HBO mostrou em antestreia esta quinta-feira em Lisboa, destacamos a interpretação impecável de Regina King, que interpreta Angela Abar, ou Sister Night. A atriz doseia, sem qualquer dificuldade, todas as camadas dramáticas da personagem: uma mãe e esposa carismática e extremosa, uma pasteleira dotada e uma vingadora implacável.

O que é possível ver nesta estreia é um olhar cru sobre aquilo de que somos capazes de fazer quando mascarados e anónimos. Damon Lindelof convida-nos para olhar sobre a negritude de uma sociedade onde a violência não tem rosto, mas ao mesmo tempo é reveladora da essência de cada um.

No final do primeiro episódio é difícil perceber onde estamos e para onde vamos exatamente. Há pistas por todo o lado e parece que ainda não vimos a pontinha do iceberg de uma enorme conspiração e jogo de sombras.

É uma história que volta a ter como pivô central a complicada e intrincada noção de identidade americana, contada com o som de fundo da banda sonora magistral de Trent Reznor e Atticus Ross, que assinam aqui um trabalho que confere emoção genuína e classe convincente a uma série que se distingue justamente por ser mais orgânica e natural que várias das suas congéneres.

Watchmen

Fotografia: HBO / Divulgação