Há 60 anos, Portugal mudou. O programa mais antigo da RTP e da televisão portuguesa, o Telejornal, entrava no ar para não mais sair. Esta sexta-feira (18), o canal festeja as seis décadas de transmissão com uma emissão de duas horas.

Há um nome sem o qual não se pode contar a história do noticiário. José Rodrigues dos Santos é um jornalista que dispensa apresentações. Começou na RTP como repórter e acabou, mesmo que por acidente, como pivô do Telejornal, já lá vão quase 30 anos. José Rodrigues dos Santos fala-nos na RTP, não como sua segunda casa, mas como primeira. Uma casa que tem de ser livre: sem mais nem menos.

A televisão em Portugal nasceu há 62 anos, com a RTP e o Telejornal faz agora 60. A RTP mudou Portugal?

Claro. A televisão teve um impacto em qualquer parte do mundo. Até lá as pessoas tinham rádio, não tinham imagens e a partir do momento em que as imagens aparecem trazem um impacto completamente diferente. Os meios de comunicação condicionam o desenvolvimento de um país. A Internet, por exemplo, mudou tudo na economia. Quando a televisão aparece traz um impacto semelhante e claro que Portugal se enquadrou nessa realidade.

José Rodrigues dos Santos

Fotografia: David Martins / Espalha-Factos

José Rodrigues dos Santos tem sido o pivô e cara principal do Telejornal durante 28 anos. Como é chamar à RTP a sua segunda casa há tantos anos?

Não sei se é a segunda ou a primeira casa…  Na verdade, mesmo tendo trabalhado na Rádio Macau, na BBC, na CNN, são 28 anos, metade de uma vida cá. Identifico-me muito com a RTP. Conheço-lhe as virtudes, conheço-lhe os defeitos, conheço os cantos à casa como conheço a palma da minha mão e isso ajuda-me a ajudar a RTP a enfrentar os desafios, as perceções que existem. Esta experiência de vida com a RTP acho que é importante para os dois lados.

Começou como repórter na RTP. Que saudades lhe traz esse tempo?

Continuo a fazer reportagem, não posso dizer que seja uma coisa apenas do passado, é muito do presente. Simplesmente acrescentei o trabalho de apresentador que acabou por se tornar o meu trabalho principal. É importante ter o lado de repórter porque um dos grandes problemas que existe entre a classe politica e muitos jornalistas é estarem dissociados da realidade. Fazer reportagem é estar em contacto com a realidade e essa ligação é importante.

Trago-lhe uma história que gostaria que comentasse. Estava no ar quando começou a Guerra do Golfo e teve de aguentar a emissão que ficou no ar durante 10 horas. Foi este acaso que o fez tornar-se pivô e depois do sucesso da sua transmissão a RTP ganhou juízo e pô-lo a apresentar o telejornal. Como é que tudo isto aconteceu?

Eu já estava a apresentar o 24 horas, ao final da noite, que começava por volta dessas 23h30. Quando em janeiro de 91 temos a notícia de que os americanos começaram a bombardear o Iraque, o primeiro grande conflito que existe do lado ocidental desde a guerra do Vietname. Por outro lado, não era nada comum haver transmissão em direto dos acontecimentos e, portanto, nós fizemos uma emissão em que tivemos por telefone ligação em direto a Bagdad, começamos a mostrar as coisas e isso nunca tinha sido feito em Televisão, foi algo completamente novo.

E penso que isso é que foi o grande impacto, eu aí beneficiei por ser fluente na língua inglesa, uma vez que tinha trabalhado em Inglaterra, podia fazer traduções em simultâneo e por outro lado, eu na BBC trabalhava muito na área da Geopolítica e na área militar e o evento no Golfo é exatamente sobre isso. As circunstâncias conjugaram-se para uma emissão que ficou histórica e eu acho que mudou a televisão em Portugal.

Se foi um acaso? Os ingleses têm uma expressão serendipity, que são acasos que calham bem e aconteceu graças ao domínio do inglês e da geopolítica que foram determinantes.

José Rodrigues dos Santos

Fotografia: David Martins / Espalha-Factos

Na Europa só há um jornalista há mais anos no ar como José. Trabalhou para a Rádio Macau, para a BBC e para a CNN. Qual é a imagem de José Rodrigues dos Santos lá fora?

Fora de Portugal… Se falarmos dos países de língua portuguesa, com exceção do Brasil, toda a gente me conhece, de Cabo Verde a Moçambique, passo na rua e as pessoas dizem-me “Olá Zé!” porque me veem todos os dias, efetivamente. Nos outros países reconhecem-me por causa dos romances, eles não veem o noticiário em português por isso a minha faceta de romancista acaba por ter um muito maior impacto.

José Rodrigues dos Santos, o jornalista, o pivô, o correspondente de guerra, o professor universitário e o escritor português. Qual destes cargos lhe enche mais o peito de orgulho?

Cada um de nós em qualquer trabalho que faça tem que ter orgulho do que faz, desde que o faça com honestidade. Eu procuro exercer cada uma das minhas funções, tanto na vida privada como na vida pública, de uma forma honesta e o que eu tenho orgulho é disso. Não tanto de “eu fiz isto e fiz aquilo”, mas por fazer o meu trabalho bem. Qualquer trabalho que façamos, tem de ser feito com empenho e com honestidade e se o fizermos podemos dormir descansados.

Como é o dia-a-dia de José Rodrigues dos Santos? Desde acordar até chegar à RTP para apresentar o Telejornal.

Cada dia é diferente. Sou uma pessoa que gosta muito de fazer desporto, escrevo os meus livros, faço o telejornal, viajo… Eu não consigo descrever um dia porque cada dia é diferente e isso resulta da tentativa de conciliar todas as coisas diferentes que tenho para fazer.

José Rodrigues dos Santos

Fotografia: David Martins / Espalha-Factos

Algum friozinho na barriga quando se senta na cadeira de pivô?

Não. Tenho é a noção que estou a falar para Portugal e para o mundo. Não sinto o menor nervosismo, aliás eu acho que nem no meu primeiro Telejornal senti o menor nervosismo. Mas eu já tinha a escola da rádio, há uma coisa normal: o medo do microfone que toda a gente que começa a fazer jornalismo tem e eu superei esse medo na rádio. Lembro-me quando fiz o meu primeiro noticiário, o “24 horas” , estive nervoso os primeiros 5 minutos e depois acabou.

Qual é o futuro da RTP? E já agora, qual é o seu futuro na RTP?

São duas perguntas muito diferentes. A RTP transcende-me em muito, eu estou ao serviço da RTP e a RTP continuará a existir, naturalmente o mundo está a mudar e tecnologicamente isso tem consequências, as pessoas cada vez vêm notícias de uma maneira diferente, já não se juntam todas para ver televisão à noite, já vêm o noticiário no telemóvel. As coisas estão a mudar e a RTP tem de acompanhar isso. Mas por outro lado há também um trabalho que existiu ao longo do tempo da relação da RTP com o poder político, o combate que ao longo de anos teve de ser exercido pelos jornalistas da RTP para se libertarem do poder político, uma vez que a RTP estava sobre a tutela do governo. Um momento muito importante foi quando o governo deixou de poder nomear ou demitir a administração, eu chamo-lhe o 25 de abril da RTP. E esta ideia que a RTP tem de ter uma visão crítica, tem de fazer escrutínio da realidade. Claro que quando digo isto, toda a gente está de acordo “Claro, como é óbvio!”, mas quando chega à prática dá problemas, porque o poder político reage mal. O Telejornal há uns tempos exibiu um gráfico da curva da dívida e o poder político reagiu mal… mas é verdade e o nosso trabalho é isso. E este trabalho deve ser encorajado, protegido e acarinhado, porque é o trabalho da RTP. O nosso compromisso é com o público.

José Rodrigues dos Santos

Fotografia: David Martins / Espalha-Factos

Uma RTP mais livre e crítica é o seu maior desejo?

Nem mais, nem menos, tem de ser livre. Temos que ter a nossa coragem, a nossa honestidade e a nossa força interior de continuar a fazer o jornalismo que tem de ser feito.

A escrita e o jornalismo lutam entre si pelo lugar de maior paixão. Sobre o jornalismo, o que é que o apaixona mais?

O facto de explicar o mundo e o país às pessoas. Se nós não falarmos nos problemas, eles não se resolvem. Papel muito importante que temos de continuar a exercer é o de provedor do cidadão, porque noticiamos as coisas.

Em breve vamos ter uma edição de aniversário dos 60 anos do Telejornal, alguma surpresa que nos possa revelar?

Há… para ver esta sexta-feira à noite.

José Rodrigues dos Santos / João Gama

Fotografia: David Martins / Espalha-Factos

Telejornal revisita a memória de olhos postos no futuro

A RTP, num comunicado enviado às redações, dá conta que esta edição especial é apresentada José Rodrigues dos Santos e João Adelino Faria, com coordenação de Adília Godinho e realização de José Véstia.

Além das notícias mais relevantes do dia, o Telejornal desta sexta-feira (18) mostra cidades do futuro no Norte da Europa e em Abu Dhabi e conversa com Marcelo Rebelo de Sousa e Daniel Innerarity. Isto ao mesmo tempo que visita a memória de Portugal e do mundo pelos olhos do Telejornal.

O principal noticiário do canal público apresenta também hoje uma nova roupagem sonora. A nova música do informativo foi construída com a Orquestra do Teatro Nacional de São Carlos, sob a direção da maestrina Joana Carneiro.

A RTP sublinha que, a seguir à própria RTP, o Telejornal é a principal marca da empresa e que, ao assinalar estes 60 anos, sublinha-se “a importância do serviço público de televisão” e relembra-se que a Informação da estação é considerada a mais confiável em Portugal, num estudo da Reuters e da Universidade de Oxford.