Os Condenados de Shawshank, filme realizado por Frank Darabont, chega agora à Netflix Portugal, quase 25 anos depois de ter estreado nas salas nacionais. Para celebrar esta nova inclusão no catálogo do serviço de streaming, decidimos olhar para Shawshank com a perspetiva de 2019, ou seja, por uma pessoa que nunca o tenha visto. Eu mesmo.

Sacrilégio? Talvez… O facto é que entre as mil e uma emissões d’Os Condenados de Shawshank nos últimos anos entre RTP, SIC, Canal Hollywood e tantos outros canais nunca me conseguiram apanhar. Fiquei sempre sem perceber o hype que se gerou em volta deste filme, hoje em dia objeto de culto mais por estar em número 1 do top 250 de filmes do IMDB do que propriamente pela longa-metragem em si.

Agarrei então na manta, neste tempo já chuvoso, sentei-me no sofá e preparei-me mentalmente para mais de duas horas e meia de duração – eu não sou muito fã de filmes excessivamente longos. Vamos então ver Os Condenados de Shawshank e perceber toda a euforia que o coloca como o filme mais bem cotado de sempre no IMDB, à frente de todos os filmes já feitos – desde o Citizen Kane ao Padrinho, do Psico ao Pulp Fiction.

Nestes 25 anos só me chegou a mim uma imagem de alguém à chuva a bracejar para o ar. Esta era a minha informação de partida, pelo que na verdade já me revelava uma potencial evasão à luz de trovões. Quanto ao resto da narrativa, estava surpreendentemente livre de spoilers, reconhecendo apenas pontuais cenas que provavelmente foram vistas de relance, ainda dos tempos em que vivia com a minha mãe e apanhava cenas isoladas de filmes sem contexto do Canal Hollywood, quando ela se deitava no sofá depois do trabalho.

Créditos: Divulgação / Columbia Pictures

Visto o filme, penso haver algumas razões que expliquem este surpreendente número 1 do IMDB (nota: sei que o IMDB vale o que vale e que não é uma autoridade assim tão importante no mundo do cinema, mas caramba, 9.3 em 10 com mais de dois milhões de avaliações é obra). Vamos enunciá-las:

1 – É um filme de valores universais: a amizade, a esperança, a resiliência e o perdão. Estes são os quatro maiores valores do filme e obra de Stephen King e não há nada mais generalista para agradar a um grande número de pessoas. Este filme consegue soltar a lágrima e encher as almas tanto dos que procuram cinema mais comercial como até quebrar a barreira dos que procuram cinema de autor.

2 – Mesmo em 2019, é um filme pouco problemático: uma das minhas preocupações era perceber se esta obra de Darabont ia, ou não, resistir às mudanças dos tempos. Há imensos produtos do entretenimento dos anos 90 que hoje têm mais dificuldade a navegar a era da internet e da “cancel culture“, mas Os Condenados de Shawshank não é um deles. Ora, todos os temas sociais mais susceptíveis são tocados ao de leve, os maus são castigados, os bons compensados. Os crimes são falados e admitidos, abrindo a porta ao perdão do espectador – não se sentindo pior por estar do lado de alguém que cometeu crimes de homicídio – e, além disto tudo, a narrativa transforma o protagonista de anti-herói em completo herói quando descarga dele o peso de ter morto a mulher e o amante. Além disto, vira-o o “injustiçado”, e não há nada melhor para o espectador e longe de se tornar problemático, um protagonista inocente, injustiçado por um sistema corrupto e demasiado castigador.

3 – Base literária e fontes de inspiração que vivem há bastante tempo no imaginário popular: o facto de Os Condenados de Shawshank se basear num romance de Stephen King e de já ter este suporte literário por trás também ajuda. Além disto, é uma história contada mil e uma vezes pela cultura popular: a fantástica evasão do inocente que, durante anos e anos, provações e provações, nunca perdeu a resiliência para se escapulir do seu destino injusto, rumando depois a uma nova vida no anonimato, mas livre. É engraçada a ponte que os presidiários fazem com O Conde de Montrecristo, de Alexandre Dumas, porque é exatamente a mesma história, versão americanizada. É uma lenda de heróis que habita a cultura popular há centenas de anos e, por isso, mais próxima de todos nós.

4 – Tecnicamente impecável e eficaz: um filme de estúdio e com tudo o que os estúdios fazem de melhor. São eficazes em tudo, nos cenários, na edição e montagem de som, nos planos e ângulos da câmera, na direção de atores, etc. Um filme que em 2019 está longe de parecer tosco.

Juntando estes quatro pontos num único sítio, isto funciona tipo a costa de Cabo Verde, geram-se as condições ótimas para a criação da tempestade perfeita. No caso de Cabo Verde, furacões, no caso de Os Condenados de Shawshank, o número 1 no top 250 de uma das plataformas mais populares de avaliação de filmes.

Os Condenados de Shawshank é um filme ultra generalista, de valores universais, prestações eficazes, uma boa adaptação do literário e tecnicamente irreprensível. De um filme comercial e com objetivos do grande mercado, não se pode pedir muito mais que isto. Muitos podem ver isto como defeitos, mas Shawshank de Darabont abraça tudo isso e é por isso que se tornou no objeto cult que hoje é.

Chega agora à Netflix Portugal, mesmo a tempo da celebração dos seus 25 anos de estreia no nosso país e também do tempo da manta e das pantufas.