Numa situação única, o Man Booker Prize 2019 foi atribuído a duas autoras: a Margaret Atwood pela obra The Testaments, e a Bernardine Evaristo pelo livro Girl, Woman, Other. Evaristo torna-se a primeira mulher negra a ganhar o Booker Prize.

O maior prémio do Reino Unido atribuído a ficção literária em inglês foi anunciado na noite de 14 de outubro. Numa histórica decisão, os jurados decidiram agraciar duas autoras: Margaret Atwood, a consagrada autora canadiana, pelo seu novo romance The Testaments, a aguardada sequela de A História de Uma Serva (The Handmaid’s Tale), e Bernardine Evaristo, autora anglo-nigeriana, pelo seu romance polifónico Girl, Woman, Other. Esta é a primeira vez que uma autora negra vence o Man Booker Prize.

JÚRI VAI CONTRA AS REGRAS

A decisão dos jurados deste ano foi contra as regras estabelecidas no regulamento do Man Booker Prize. Desde 1993, quando estas foram alteradas, o prémio só pode ser atribuído a um único autor. No entanto, o júri decidiu que lhe era impossível escolher entre estas duas obras, ambas extremamente relevantes no contexto atual, e mesmo após confirmar que tal decisão infringiria as regras, escolheram de qualquer forma ignorá-las e atribuir o galardão às duas autoras. O prémio de 50 mil libras será dividido entre as duas vencedoras.

Antes de 1993, esta situação ocorrera apenas duas vezes: em 1974, para Nadine Gordimer e Stanley Middleton (com as obras The ConservationistHoliday, respetivamente), e em 1992, para  Michael Ondaatje e Barry Unsworth (com as obras O Paciente Inglês Sacred Hunger). Após a decisão de 1992, as regras foram alteradas, proibindo que tal acontecesse de novo. No entanto, o júri deste ano acabou por decidir quebrar as regras, após uma reunião em que “discutiram durante cinco horas sobre livros que adoraram”, não conseguindo chegar a um compromisso, como declarou Peter Florence, presidente do júri deste ano.

AS VENCEDORAS

Foto: Jean Malek / Website Oficial de Margaret Atwood

Margaret Atwood é uma veterana quanto ao Man Booker Prize. Vencedora em 2000 com o romance O Assassino Cego (2000), e nomeada outras quatro vezes pelas obras The Handmaid’s Tale (1986), Cat’s Eye (1989), Alias Grace (1996), e Onyx and Crake (2003), a canadiana de 80 anos vence agora o galardão pela segunda vez com The Testaments, a sequela do seu mais conhecido romance, The Handmaid’s Tale, que se passa mais de quinze anos após o final desse primeiro livro, seguindo três mulheres cujas vidas absolutamente diferentes se cruzam num momento em que o regime teocrático de Gilead começa a apresentar sinais de fraqueza.

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Os jurados chamaram-lhe um “selvagem e bonito romance que fala connosco, no presente, com convicção e poder. A fasquia estava altíssima, e Atwood levanta voo”.

Foto: Jennie Scott / Website Oficial de Bernardine Evaristo

Bernardine Evaristo também não é nenhuma novata no mundo literário. Autora de sete livros, entre prosa e poesia, é professora de escrita criativa na Brunel University London e Vice Chair da Real Sociedade de Literatura. Ativista literária, Evaristo fundou várias iniciativas pela inclusão, e na sua literatura dá voz à diáspora africana, sobretudo em Inglaterra, onde ela própria se viu sub-representada. Nascida em Londres em 1959, o romance com que ganha o Man Booker Prize, Girl, Woman, Other, segue doze personagens, maioritariamente mulheres, negras, e britânicas, contando as suas histórias, espelhando a vibrante e diversa realidade do Reino Unido num romance que o júri definiu como “uma leitura imperdível sobre a Grã-Bretanha moderna e sobre o que é ser mulher. É um impressionante, destemido romance sobre as vidas de famílias negras britânicas (…) com um deslumbrante ritmo, Evaristo leva-nos numa viagem por histórias intergeracionais, movendo-se entre vários espaços e culturas”.