Apesar de só nascer em 2004, a RTP Memória recua até 1962 para ser o cofre-forte da televisão pública. O diretor Gonçalo Madail toma as rédeas de um trabalho dinâmico, encetado diariamente pelo jovem departamento da RTP Inovação. Pode parecer um paradoxo — só se não entendermos a função do canal de arquivo da Rádio e Televisão de Portugal.

Revisitar os produtos que, ao longo das últimas décadas, acompanharam os portugueses não é um anacronismo. Trata-se de recuperar conteúdos fora da caixa, programas matriciais na nossa história, e impedir o avanço da amnésia sobre anos que foram frequentemente torrentes de criatividade, com maquinistas como Júlio Isidro (que hoje desempenha um papel importante na RTP Memória)

No 15.º aniversário do canal, o Espalha-Factos falou com Gonçalo Madail sobre a continuada relevância da RTP Memória e a sua nova programação, com destaques para novas coleções temáticas — com destaque para Terminal M, dedicado às chegadas de personalidades ao Aeroporto de Lisboa — ou programas julgados perdidos, como Sheiks com Cobertura. Porque, afinal, um país sem memória é um país doente.

Espalha-Factos – Aquele lugar-comum, mas é verdade: são 15 anos com memória de 62.

Gonçalo Madaíl –  É verdade, são mesmo 15 anos com memória de 62, a RTP Memória é uma adolescente, uma quinciañera. Ela vive do arquivo e, portanto, é por isso que usamos esta brincadeira dos 15 anos com memória de 62.

EF – Dou o meu exemplo: tenho 18 anos e há coisas que [se não fosse pela RTP Memória] eu nunca na vida saberia o que eram, por exemplo, a Grande Noite.

GM – É verdade. Mas esse é o melhor dos serviços da RTP Memória: não tem a ver só com as pessoas mais velhas ou idosas irem à procura dos conteúdos mais remotos. A memória está a acontecer todos os dias, não é? Este colocar em perspetiva é que tem valor, isto é que é uma coisa gira de fazer, e essa juventude toda é que nos dá alento para continuar. Uma pessoa de 18 anos tem, obviamente, ela própria, memória televisiva — e não há desculpa com isto da Internet e de que não vêem televisão, está em todo o lado. Eu acho que a Internet até vai trazer o desafio maior, porque, afinal, estes conteúdos exibidos não vão ser assim tão efémeros: vão ficar na memória digital e pulular por esse universo fora. Vamos encontrá-los e reencontrá-los tantas vezes…

EF – É o caso do Sheiks com Cobertura, por exemplo.

GM – É um facto, é um facto! O Sheiks é uma daquelas coisas que é uma pérola por isso mesmo: porque ficou perdida no tempo, e graças à família Bacelar, apareceu-nos esta possibilidade de restaurar os doze episódios na íntegra, uma coisa que nunca mais ninguém viu em 40 anos. Além disso, é um programa com um rasgo criativo muito fora de comum, é uma coisa delirante, mesmo.

EF – Esta perspetiva da RTP Memória não foi sempre assim: houve alturas em que era vista como o reduto dos conteúdos mais antigos, mas a verdade é que hoje em dia está a desempenhar um papel muito ativo.

GM – Acho que isto tudo depende da forma como as equipas abordam — o entusiasmo das equipas. Claro que, aqui, a juventude e a frescura também ajudam à festa, obviamente, porque é outra vitalidade. E também houve empenho da empresa, o facto é esse: não posso negar, imagina a cara de boca aberta com que eu fiquei quando, na altura, o administrador Nuno Artur Silva disse “olha, gostava muito que pegasses na RTP Memória, mas com a equipa da Inovação” — uma coisa aparentemente paradoxal. Portanto, é preciso que as empresas se empenhem, e a RTP finalmente empenhou-se e bem na RTP Memória.

EF – E mais do que um paradoxo, parece-me a combinação ideal.

GM – Eu acho que está à vista, não é? Mas eu sou suspeito, vocês dirão. [risos]

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EF – Há algum conteúdo particular que ainda queira apresentar ao público, mas ainda esteja em consideração?

GM – Sim, nós temos mil e uma ideias. Eu acho que ainda nos falta fazer algumas coisas. Estas coleções temáticas foram muito importantes, porque isto não é uma fábrica de fazer documentários, não são assim tantas pessoas, portanto não renderia estar a trabalhar esse género de produtos, apesar desta equipa, além disto tudo, ainda fazer a coleção do Vejam Bem e documentários para a RTP1, os especiais com a Fátima Campos Ferreira — as entrevistas ao Siza Vieira, ao Eduardo Lourenço, à Maria João Pires… 

Tentamos fazer coisas com uma qualidade técnica absolutamente irrepreensível e de ponta, com câmaras 4K precisamente para pensar que estes são documentos históricos que vão ficar para o futuro. Mas a verdade, também, é que o arquivo é imenso, é tão vasto; e nós, à procura de tratar do teatro e do cinema com estas duas coleções novas que vamos apresentar, descobrimos esta curiosidade destas grandes figuras do mundo que passaram no Aeroporto de Lisboa. É impossível uma busca acabar em si mesma, porque vai espoletar outra a seguir, e desencadear mais uma ideia nova. Isto é imparável — e é eterno!

EF – Onde mais poderia surgir o conceito do Terminal M?

GM – Claro, absolutamente, e descobrir outras [personalidades] aqui: nós mostrámos a Maria Callas, o Fellini… mas, enfim, há outras que as pessoas nem imaginam: o Martin Luther King [Jr.?]? Ninguém diria. “Mas parou em Lisboa?” Parou em Lisboa, e esteve cá! É maravilhoso deixar sentir que a busca – pescamos um item e depois vamos descobrir dez.

EF – Houve algum conteúdo particularmente insólito que nem acredite que encontraram?

GM – Eu acho que o melhor exemplo é o Terminal M, mesmo. Eu acho que é talvez das coisas mais valiosas; ficámos atónitos quando percebemos que tínhamos este manancial e esta gente toda estava toda lá dentro. Diria também, no caso do cinema, descobri que ainda temos making ofs e bastidores de clássicos que as pessoas nem imaginam — não viram esse lado B, não é?, do Manuel de Oliveira e de outros grandes clássicos. É pá, isso é maravilhoso descobrir. Há dias, descobrimos uma imagem do Alexandre O’Neill com 16 anos. Haja vontade, olho, muita cultura — acho eu, é preciso muito background cultural das pessoas para saberem reconhecer, porque o arquivo é imenso e eterno.

EF – Imenso e eterno, e tem coisas como a Ágata a cantar “sexo é complexo” a crianças.

GM – Absolutamente, ou o Marcelo Rebelo de Sousa, há 40 anos atrás, a explicar à Nação como é que funcionava a nova Presidência da República — como é que ia ser a nova figura do Presidente depois da revisão constitucional — e a dizer: “Agora, caros portugueses, o Presidente da República pode convocar o estado de sítio, pode declarar o estado de emergência, é aqui neste Palácio de Belém que vai trabalhar…” Isto é uma ironia absolutamente notável. Enviámos ao Presidente, que ficou encantado, obviamente, com essa pérola. Está aberto a muitas surpresas.