Abiy Ahmed Ali foi anunciado como vencedor do Nobel da Paz 2019, nesta sexta-feira (11). O primeiro-ministro etíope foi reconhecido pela promoção de um acordo de paz com a Eritreia, segundo o Comité Nobel norueguês.

Mas quem é Abiy Ahmed Ali e o que fez para além do seu cargo como primeiro-ministro?

O anúncio

O anúncio foi feito hoje logo pela manhã: “O Comité do Nobel Norueguês decidiu premiar com o Prémio Nobel da Paz 2019, o primeiro-ministro Abiy Ahmed Ali pelos seus esforços para atingir a paz e a cooperação internacional”.

Em particular, o comité destacou os esforços de Abiy Ahmed Ali para a resolução dos conflitos na fronteira com a Eritreia. O prémio tem também a finalidade de premiar todos os intermediários e indivíduos envolvidos no processo de paz entre a Eritreia e as regiões de leste e nordeste de África.

Quando Abiy Ahmed se tornou primeiro-ministro em Abril de 2018, deixou logo claro o seu desejo para retomar as conversações de paz com a Eritreia. Essas conversações foram estabelecidas quase de imediato com o Presidente da Eritreia, Isaias Afwerki.

De acordo com a mesma nota, Abiy desde início “elaborou os princípios de um acordo de paz para encerrar o impasse a longo prazo ‘sem paz, sem guerra’ entre os dois países”.

O comunicado do comité sublinha ainda que “Abiy Ahmed Ali iniciou importantes reformas que proporcionam a muitos cidadãos a esperança de uma vida melhor e de um futuro melhor”.

A paz ainda não foi alcançada e está ainda em negociações e, nesse sentido, o comité espera que este prémio seja uma ajuda para alcançar esse objetivo, segundo declarações da presidente do comité, Berit Reiss-Andersen.

A Etiópia está em segundo na lista de países mais populosos do mundo, com 105 milhões de habitantes, logo atrás da Nigéria que conta com 190,9 milhões. Tem também uma das mais importantes e maiores economias mundiais, sendo considerada a maior da África Oriental.

Uma Etiópia pacífica, estável e bem-sucedida terá muitos efeitos colaterais positivos e ajudará a fortalecer a fraternidade entre nações e povos da região”, acrescenta a nota oficial de atribuição do prémio.

Um democrata nato

Abiy Ahmed Ali

Abiy Ahmed Ali (Fotografia: Al Jazeera)

“Nós, etíopes, precisamos de democracia e liberdade, e estamos autorizados a tê-los. Democracia não deve ser um conceito estranho para nós”.

Esta é uma das frases mais marcantes do Nobel da Paz, proferida quando tomou posse, em abril de 2018.

Desde o início do seu mandato enquanto primeiro-ministro que Abiy Ahmed Ali mostrou estar disposto a construir pontes de paz. Essas intenções ficaram imediatamente claras quando nomeou os líderes da oposição para algumas das principais funções do Estado, numa tentativa de aproximação inicial e de união patriota.

Nasceu a 15 de Agosto de 1976 em Agaro, Etiópia, e cresceu numa família multicultural. A mãe, de etnia Amara, uma religião cristã, e o pai muçulmano. É casado, tem três filhas e fala fluentemente vários idiomas, incluindo dialetos específicos do seu país.

Abiy Ahmed Ali tem 43 anos e um currículo que inclui um doutoramento e experiência militar. Em 2015 foi ministro da Ciência e Tecnologia e fundou a INSA, uma agência de segurança cibernética que tem como objetivo vigiar a população etíope.

Conflitos e negociações

A fevereiro de 2018, o ex-primeiro ministro demitiu-se do cargo, e a coligação que está no poder, constituída por quatro partidos, escolheu Abiy como indicado para o cargo.

A Eritreia tornou-se num país independente da Etiópia em 1993, após um conjunto de disputas fronteiriças que decorreram entre 1998 e 2000, causando dezenas de milhares de mortos. Desde então, a relação entre os dois países nunca foi pacífica. Mas as tentativas de paz do primeiro-ministro, agora Prémio Nobel da Paz, não são bem vistas por todos os habitantes da Etiópia.

Alguns cidadãos consideram que este ato constitui-se como uma traição a todos os militares que lutaram no conflito que durou dois anos.

O Prémio Nobel da Paz 

O Prémio Nobel da Paz é atribuído desde 1901 e já foram entregues 99 prémios desta categoria. Decidido desde o início por Alfred Nobel, o prémio da paz é o único atribuído em Oslo, sendo que os restantes são sempre anunciados em Estocolmo.

No ano passado, o vencedor do Nobel foi o médico Denis Mukwege e a ativista Nadia Murad. O congolês e a ativista dos direitos humanos foram premiados pelos esforços contra a violência sexual utilizada como arma em conflitos mundiais.

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