Skin é um drama biográfico escrito e realizado por Guy Nattiv. O filme expande o universo da curta-metragem do mesmo nome que ganhou um Oscar este ano. Jamie Bell interpreta o skinhead Bryon Widner.

O filme conta a história verídica de um jovem indigente criado por skinheads racistas e notório entre os supremacistas brancos. Depois de se apaixonar por uma mulher com três filhas, a lealdade ao moviemento skinhead começa a estremecer.

Partilhar o nome e o realizador com uma curta-metragem galardoada coloca muito interesse e pressão a um filme. Será que Skin merece a atenção?

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Sensível e sóbrio

O tópico de supremacia branca é dos principais pontos de divisão nos Estados Unidos. A tensão racial que sempre caracterizou o país tem ganhado maior destaque durante a presidência de Donald Trump. Por isso, é preciso sempre algum cuidado quando se faz um filme sobre a temática.

Skin tem mérito na forma sensível como lida com a representação de um grupo de skinheads. Sem exageros ou romanticismos, o filme permite-nos olhar para as tradições de um destes grupos de forma realista. A sobriedade da narrativa é importante para o espectador entender a lealdade que Bryon e tantos outros jovens demonstram pela causa, mesmo sendo esta responsável por vários atos criminosos e condenáveis.

Se por um lado o grupo de supremacistas organizam pequenas festas e convívios agradáveis, por outro as suas crenças odiosas levam-os a praticar um racismo horrível e violento. Analisar a complexidade humana é essencial para melhor compreendermos a origem destes fenómenos.

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De realçar que a curta-metragem que ganhou o Oscar tem um tom completamente diferente e muito mais chocante. São curiosas as ligações estabelecidas entre as duas obras e é enriquecedor vê-las uma atrás da outra. Pelo valor humano e a forma mais credível de abordar as questões, esta longa-metragem superioriza-se à curta.

Por fim, nota para a boa interpretação de todo o elenco e, em particular, do ator principal Jamie Bell. Vera Farmiga (Shareen Krager), Danielle Macdonald (Julie Price) e Bill Camp (Fred “Hammer” Krager) também merecem destaque pelo seu trabalho.

Skin

Potencial desperdiçado

Nem tudo resulta em Skin e as suas falhas impedem o filme de se destacar entre os melhores deste ano. O principal problema surge na escrita. A transição do primeiro ato da narrativa para o segundo perde muito tempo com cenas desnecessárias pela repetição do seu propósito. Só a partir do meio do filme é que os acontecimentos começam a ganhar interesse. Podia-se ter utilizado o tempo para desenvolver outras componentes da história.

Esse é o segundo problema, pois alguns elementos são introduzidos só para depois não serem muito explorados. O caso mais concreto é a relação entre Bryon e a filha mais velha de Julie. É estabelecida uma relação de conflito que depois nunca muda e serve apenas para criar um momento dramático um pouco forçado.

A realização e a edição necessitavam de limar arestas. Skin tanto tem cenas de tensão bem executadas, como cortes e transições que encaixam mal. Não é um problema muito notável, como aconteceu por exemplo em Bohemian Rhapsody, mas incomodará os mais atentos.

Skin

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Veredito

Skin é uma história bonita sobre um homem que consegue escapar ao ódio através do amor e responsabilidade que sente pela sua mulher. Os temas de racismo e exclusão social são lidados com seriedade.

A narrativa do filme é interessante e faz justiça às pessoas verdadeiras que a inspiraram. Mesmo assim, o filme arrasta-se a certo ponto e existem coisas que podiam ter sido exploradas de uma forma mais profunda. A falta de consistência não arruína a experiência, apenas impede-a de ser especial.

Skin poderá não ser recordado daqui a uns tempos, mas a sua mensagem tocante de redenção vale a pena ser vista.

Skin: Nota Final
7Bom