O novo álbum de Slow J é uma viagem introspetiva – dura, profunda, bruta. Um murro no estômago seguido de uma sensação de abraço que nos embala e nos leva por caminhos que nem sabíamos que existiam dentro de nós.

Em You are Forgiven, Slow J parece procurar uma espécie de perdão dentro de si, ao mesmo tempo que se vai estudando e desabafando com quem o ouve. Um álbum catártico, este, sem dúvida – ou pelo menos, assim o senti. O artista português, que não lançava um álbum há dois anos, consegue superar-se e superar o que já tínhamos visto dele. E não foi pouco: The Free Food Tape, em 2015, e The Art of Slowing Down, em 2017, mostraram o potencial de João Coelho, na altura uma jovem promessa do hip-hop português. Hoje é impossível falar de ‘hip-hop tuga’ sem falar de Slow J.

O álbum abre com a voz de Sara Tavares, que nos canta sobre a essência de tudo: o sonho (aquele que afinal move o Homem). Mas mais do que isso, sonhar de mãos dadas com a paternidade, aquela da qual Slow J nos vai falando ao longo deste álbum. Ser pai e ser filho, mas ‘Também Sonhar’ – tudo ao mesmo tempo.

Slow J parece querer puxar os seus próprios pés para o chão, voltar às origens (não apenas familiares e de sangue, em ‘FAM’ feat. outra jovem promessa, Papillon) mas também às origens dos seus próprios sonhos, das suas ambições quando era apenas João Coelho, rapaz. Todo o álbum transparece uma luta interior constante, entre o querer ser mais sem sentir culpa, sem esquecer o que é que o rapaz quis.

E como não há saudade como a portuguesa, nem dor como a do fado, Slow J junta o melhor de dois mundos e funde-o de forma sublime em ‘Lágrimas’, uma canção melancólica, dolorosa de ouvir, até, mas em que se mergulha numa dor imensa partilhada por “quem se ama”. Mas como “quem não chora de tristeza nunca chora de alegria” é preciso sofrer para se cimentar o diamante que vive em quem sonha.

Ao mesmo tempo que nos mostra o que é a dor pura e dura, as maleitas do amor em ‘Teu Eternamente’ (que foi apenas a ponta do icebergue), Slow J também nos deixa uma mensagem de esperança, de força de vontade, essa vontade e inquietação que ultrapassa todos os ‘Muros’ que surgirem no caminho: “Depois de tanta dor e tanta cura já não há limite enquanto houver procura por amor a mais”.

‘Só queria sorrir’ surge como o hino do álbum, um hino à motivação, à força de vontade, um ‘chega para lá’ à tristeza que nos pode assolar nos “dias de chuva” – “quem me vai dar a mão? Minha motivação”. Porque no fundo, independentemente da aprovação exterior, só nós sabemos o que queremos, o que vencemos e o que nos falta.

No fim, resta o ‘Silêncio’, esse que é preciso ouvir com a mesma atenção com que se ouve tudo o resto. Uma homenagem, uma ovação em forma de canção. Um desabafo, uma declaração de amor, tudo condensado numa só faixa, num só álbum. Slow J não faz música, faz pura magia.

E no fim só nos resta embarcar de novo nessa viagem na qual só Slow J nos consegue levar – e ainda bem que ele nos quer levar com ele.

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