Maria do Céu Guerra venceu o Prémio de Mérito e Excelência dos Globos de Ouro e utilizou o discurso de vitória para celebrar o “maior prémio” que Portugal teve, os últimos 45 anos sem censura. A atriz quis ainda repartir as palmas com Fernanda Montenegro e chamar a atenção para a situação de opressão no Brasil.

A artista foi apresentada por uma arrebatadora homenagem que relembrou e enalteceu os feitos da sua carreira de cinquenta e quatro anos. O derradeiro vencedor da noite, no entanto, foi o seu discurso. Curto mas emocionante, relembrou a pobreza de alma que pairava sobre um Portugal envolto em censura e o quanto as mais de quatro décadas de democracia fizeram pela liberdade de expressão e opinião, permitindo o avanço nas artes.

Maria do Céu Guerra relembrou, no discurso mais apaixonado da noite, que a arte é sempre política e que a democratização da cultura é importantíssima para nos lembrar que, apesar de pensarmos que sim, a democracia nunca se pode dar por adquirida.

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Na parte final do agradecimento, fez uma homenagem à amiga e colega de ofício Fernanda Montenegro “que está no Brasil em dificuldades e a ser insultada por um governo que não merece aquele país“. Repartiu com ela as palmas recebidas, fazendo um apelo à liberdade de expressão artística, algo em falta no atual contexto brasileiro.

Um verdadeiro ícone da cultura portuguesa, Maria do Céu Guerra estreou-se em 1965 na peça Deseja-se Mulher, de Almada Negreiros e desde então tem vindo a protagonizar não só no teatro mas também no cinema, Os Gatos Não Têm Vertigens e Bastien, e na televisão, com séries como a recente A Família Ventura

Fernanda Montenegro “do lado das bruxas”

Na edição de outubro da revista Quatro Cinco Um, a capa mostra uma Fernanda Montenegro amarrada, com uma pilha de livros aos seus pés, como uma bruxa pronta para a fogueira. A fotografia protesta as tentativas de proibição da publicação de livros levada a cabo pelo prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella na Bienal do Livro, mas pode aplicar-se também à ameaça que o Governo Federal Brasileiro de aplicar “filtros” à Ancine (Agência Nacional de Cinema Brasileiro). 

maria do ceu guerra

Fernanda Montenegro na capa da Revista Quatro Cinco Um