A estreia de Joker, uma das mais aguardadas do ano, aproxima-se a passos largos das salas de cinema portuguesas, com as primeiras exibições marcadas para 3 de outubro. No entanto, a história do icónico antagonista de Batman já fez furor a nível internacional, tendo sido apresentada nos festivais internacionais de cinema Toronto e Veneza, onde ganhou o prémio Leão de Ouro.

As críticas, na sua maioria positivas, apontam para um enorme sucesso, algo comprovado pelas previsões de box office disponibilizadas pela Warner Bros. A produtora espera arrecadar entre 45 a 50 milhões de euros apenas na semana de abertura, embora alguns estudos cheguem a estimar números próximos dos 80 milhões. A projeção traduz o retorno imediato do orçamento despendido no filme, próximo dos 50 milhões de euros, valores baixos para longas-metragens do género. Vários denotam a inflação contida nestas expetativas, face às características bastante peculiares do thriller.

De facto, Joker, realizado por Todd Phillips e protagonizado por Joaquin Phoenix, abarca um registo significativamente mais negro do que a maioria do espólio da DC Comics. A produção dá a conhecer as origens do vilão ao focar-se na violência e tramóia psicológica por trás do distorcido palhaço. O caos é a palavra de ordem, à medida que o espetador penetra no quotidiano de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), comediante falhado, determinado a enveredar por uma vida de crime em Gotham City.

Apesar do otimismo predominante no recente feedback, muitos expressam a sua preocupação perante o enredo que parece glorificar o assassino, numa conturbada época de inúmeros tiroteios nos Estados Unidos da América. Tal narrativa não parece eclipsar a excelente atuação de Phoenix, indicado pela generalidade como forte candidato ao Oscar de Melhor Ator na cerimónia de 2020. A questão, todavia, mantém-se: qual é, ao certo, o consenso dos críticos relativamente à película? O Espalha-Factos reúne as respostas.

Empire Online – Terri White

“O que eles [Todd Phillips e Scott Silver] e o filme pretendem é uma louca, moral, emocional e física caracterização do homem que se transformou no Joker. Como Arthur/Joker, Joaquin Phoenix é surpreendente. Phillips disse que tinha uma fotografia do ator por cima do ecrã quando escreveu o guião e acredito que isso compensou. Phoenix encarna Arthur: ao perder peso para o papel, ele parece magro, frágil e esfomeado. Sombras formam-se dos seus ossos expostos. A fisicalidade é precisa – a forma como se mexe, confunde, corre, senta, fuma e se encolhe. A sua habitual intensidade salta à vista e é cativante, até esmagadora por vezes. Compará-lo a Heath Ledger ou a Jack Nicholson não tem nexo: este é o Joker que nunca vimos – em muitos aspetos não é o Joker, é o Arthur.”

Fonte: IMDB

Vanity Fair – Richard Lawson

“Talvez seja um pouco mais fácil aceitar e digerir todo este horror num país onde homens do género pareçam mais raros. […] Quando Arthur sucumbe à fúria da sua própria mente […] o homicídio torna-se o seu único escape, a arma é a única amiga, com um sentimento interventivo – de força assertiva até. Porque espreitar por trás do duradouro desejo de Arthur por atenção e aprovação é algo que nos consome; com grande amor vem grande poder. É pouco claro o que Phillips quer que retiremos de tudo isto. Talvez seja um aviso sobre algo que já sabemos demasiado bem. Mas talvez, com toda a música de época […] e a interpretação de Phoenix, uma pequena parte de nós seja levada a concordar. O que nos devia assustar, na minha opinião.”

Joker

Fotografia: IMDB

Variety – Owen Gleiberman

“Como sabemos, as audiências não se cansam de um bom antagonista – daqueles que adoramos odiar. Quanto pior este agir, mais nós observamos. Claro, o facto de apreciarmos um vilão não implica que estejamos do seu lado; contemplar o contagiante espetáculo assustador de mau comportamento não é o mesmo que identificarmo-nos com este. Mas em Joker, […] Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), a aberração falhada e doente mental que irá, ao longo do tempo, transformar-se no inimigo do Batman, apresenta-se diante de nós não como um grande vilão, mas como um espécime patético de danos humanos crus. Mesmo quando bebemos das suas travessuras frouxas, com choque e consternação, não há como negar que sentimos algo por ele – uma pontada de simpatia ou pelo menos compreensão.”

Fonte: IMDB

IndieWire – David Ehrlich

“O Joker de Todd Phillips é, inquestionavelmente, a reinvenção mais ousada do ‘super-herói’ no cinema desde O Cavaleiro das Trevas; um verdadeiro original que será, sem dúvida, relembrado como um dos blockbusters mais transgressores do século XXI. É também um grito de guerra tóxico para ‘incels’ da auto-piedade e uma história de origem hiper-familiar, tão grata a Taxi Driver e O Rei da Comédia, que Martin Scorsese, provavelmente, mereceria crédito como produtor executivo. É possuído por um espírito provocatório, que raramente é encontrado no entretenimento mainstream, mas também realizado por um ‘rei do irreverente’, que peca por falta de disciplina ou nuances para retratar de forma responsável material tão perigoso, ao escolher, seguramente, a saída dos cobardes, perante os momentos mais críticos da narrativa.”

Fonte: IMDB