Rambo merecia melhor e provavelmente nós também. Contrariamente ao que aconteceu com o último dos filmes de Rocky Balboa e, depois, com o spin-off Creed, parece que desta vez ninguém se preocupou com o legado da personagem.

Em 2008, com Rambo, realizado pelo próprio Sylvester Stallone, todos esperávamos ter assistido ao desfecho de uma série em evidente desgaste. No entanto, guardaram-nos um remate final para 2019. 11 anos depois, na era da nostalgia, iríamos assistir à recuperação de um clássico? Resposta rápida: Não. 

O filme que Adrian Grunberg nos apresenta situa-se entre dois exageros tremendos: por um lado sentimentos melancólicos e nostálgicos de um veterano que chega à terceira idade com muitos traumas por resolver e, por outro, uma cedência gratuita aos ímpetos mais violentos e gore que o cinema pode mostrar.

Rambo é hoje um proprietário rural num rancho tranquilo no Arizona, que ajuda pontualmente em salvamentos e criou a neta da governanta Maria (Adriana Barraza) como filha. Gabrielle (Yvette Monreal) está prestes a sair para a universidade e decide, antes desse novo passo na vida, visitar o México em busca do pai que a abandonou. Fá-lo contra as indicações do “tio” e inicia uma viagem obscura que nos guiará àquilo que o protagonista descreve como “a negritude que vive no coração de um homem“.

Rambo The Last Blood

Fotografia: Divulgação

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O retrato que nos é apresentado do México não tem nada a ver com as férias a Cancun de que ouviste a tua vizinha falar. Pelo contrário, parece feito à medida de um guião escrito por Donald Trump: é um sítio de homens chungosos a beber na rua, traficantes de droga a cada esquina, desordem nas ruas e caos sem justiça.

Gabrielle, que é mais uma vez rejeitada pelo pai (Marco de la O) – uma personagem que, de resto, é meramente decorativa – acaba por se ver apanhada por uma rede de tráfico humano. E Rambo, o herói que o filme nos quer fazer crer que personifica os valores americanos, sai sozinho para derrotar os bad hombres de que o Presidente mais cor de laranja do mundo já nos falou.

Por ser demasiado confiante e impulsivo, primeiro é espancado e deixado para morrer. O habitual no canónico formato dos filmes da saga. Recupera, prepara-se, vinga-se à martelada com fúria destruidora e não fica satisfeito. Atrai os inimigos a passarem a fronteira – com direito a planos do muro e demonstrações de que é fácil para qualquer vilão entrar no sagrado solo norte-americano – e assim se inicia uma sequência tão rápida como inverosímil de explosões, artimanhas e armadilhas de morte, a fazer lembrar uma versão adulta das partidas do Sozinho em Casa.

Rambo The Last Blood

Fotografia: Divulgação

O filme, ao qual adivinhamos a intencionalidade de nos mostrar a faceta mais humana e familiar de Rambo é absolutamente falho em canalizar humanidade ou em criar empatia. A película, a espaços, surge-nos como caricatura autoirónica, que devolve o ícone de ação dos anos 80 envolvido num patriotismo absolutamente esvaziado e lamechas.

Se, por um lado, a história original de deceção pós-Vietname era, em grande medida, uma narrativa de revolta anti-autoritária que surgia enquadrada num cenário militar em que era fácil arrumar as personagens como boas e más, em 2019 parece que quem fez este Rambo: The Last Blood se esqueceu disso e decidiu fazer um vídeo em prol dos valores da filosofia Make America Great Again, transportando o filme – de forma mal-sucedida – para outro contexto.

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