A Netflix trouxe mais uma série baseada em factos reais e nós não conseguimos ficar indiferentes. Unbelievable é mais um drama que conta a história verídica de um violador em série e o trabalho incansável de duas detetives para descobrir a verdade.

Numa sequência sobre processos e falhas judiciais e jurídicos, esta história desenrola-se em dois caminhos que se focam no abuso sexual e na repercussão que este trauma tem nas vítimas.

A indústria do entretenimento tem um fascínio grande pelo crime, e existem muitos programas sobre investigações, crimes e criminosos em série. Unbelievable poderia ser só mais uma, mas não. Muito mais do que a importância dos criminosos, tem como principal ângulo as vítimas.

Baseada no artigo vencedor do prémio Pulitzer An Unbelievable Story about rape, de T. Christian Miller e Ken Armstrong, esta série inicia com um caso de abuso sexual, em 2008, na cidade de Lynnwood, Washington. Marie Adler, uma jovem que cresceu no sistema de famílias de acolhimento, é violada no seu apartamento enquanto dormia. Após apresentar queixa, a investigação policial inicia-se, mas rapidamente o seu passado problemático torna-se o foco principal da investigação, levando-a ser tida em descrédito.

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Unbelievable

Marie Adler a ser interrogada pela polícia (Fotografia: Netflix)

Marie é obrigada a contar inúmeras vezes a sua experiência a diferentes agentes que se apresentam cada vez mais hostis, impacientes, céticos e com pouco interesse em oferecer apoio. Os seus depoimentos são escrutinados até à exaustão, apresentando, eventualmente, algumas divergências. A jovem acaba por admitir ter mentido sobre a violação, o processo é arquivado e Marie acusada de falso testemunho.

Unbelievable sabe como chocar o seu público, mas sem nunca se render ao sensacionalismo, violência explícita ou desrespeito para com o assunto tão sensível que trata. Porém, revolta qualquer um no momento em que Marie vê a sua vida mudar, a perder amigos, família e oportunidades de emprego, por ter ficado publicamente marcada pelo trauma.

A produção desperta no espectador a fragilidade e desespero causados pela forma como o sistema judicial trata as pessoas que sofrem estes crimes. E é isso que o primeiro episódio faz.

Kaitlyn Denver

Kaitlyn Denver é Marie Adler em ‘Unbelievable’ (Fotografia: Netflix)

No entanto, ao mesmo tempo que acompanhamos o caos em que se torna a vida de Marie, ficamos a conhecer o outro lado da história. Um lado mais do estilo das séries policiais que acompanha as detetives Karen Duvall e Grace Rasmussen, que juntam forças ao descobrirem a conexão entre os casos de abuso sexual que investigavam.

Apesar de ser um lado mais argumentativo do que prático, representa um desenrolar igualmente forte. É no momento em que se dá a conexão entre ambas as personagens que a série se torna cada vez mais interessante. Duas mulheres completamente distintas e com formas de trabalhar opostas que se unem com o único propósito de encontrar o violador em série.

Unbelievable torna-se, também, tão real e intensa para quem a vê devido às interpretações. São duas performances sublimes interpretadas por Merritt Wever e Toni Collette. Duas mulheres autênticas, inteligentes, mas humanas, que, apesar dos defeitos e inseguranças, são ao mesmo tempo brilhantes detetives.

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Tonni Colette e Merritt Wever

Tonni Colette e Merritt Wever em ‘Unbelievable’ (Fotografia: Netflix)

Mas se estas duas atrizes fazem-nos querer ficar a ver para descobrir quem é o violador em série ou para continuar a ouvir Rasmussen a invocar Deus e a fazer rir Duvall, então justiça seja feita. Kaitlyn Dever, que interpreta a jovem Marie, merece o seu devido reconhecimento. Mostra-nos quem é esta jovem na sua fase vulnerável, com o seu passado complicado e a força para conseguir seguir em frente. Um exemplo de destreza, força e personalidade destemida.

Contudo, apesar de ter uma forte componente policial, esta série não segue à risca as típicas séries de ação e, em certos momentos, até se torna monótona e um tanto enfadonha durante o processo de investigação que parece não chegar a lado nenhum.

Criado por Susannah Grant, Ayelet Waldman e Michael Chabon, Unbelievable é um drama que não é lamechas e um suspense sem ser cliché. É uma série simultaneamente inteligente, cuidadosamente elaborada, ocasionalmente engraçada e tem a capacidade de colocar o espectador envolvido na história mesmo que este não queira.

Unbelievable mostra que, muito mais do que um abuso sexual, o trauma vem de uma realidade onde muitas das vítimas são desumanizadas e desacreditadas por agentes da lei, família ou amigos. Porque se a verdade for inconveniente ou não fizer sentido, até mesmo as boas pessoas, em quem confiamos, não irão acreditar em nós.

Vivemos uma série inteira a acreditar que Marie sempre esteve a mentir, até que ela própria o admitiu. Mas será que foi tudo uma invenção, ou seria algo demasiado inacreditável para todos?