O drama brasileiro Greta, de Armando Praça e protagonizado por Marco Nanini, estreou (22) no Festival Queer Lisboa. Trata de temáticas cada vez mais censuradas no seu país de origem e revela o lado soturno do Brasil.

No começo da sessão, o realizador deixou claro que a vinda deste filme para o Queer Lisboa foi dificultada, devido à enorme perseguição à comunidade LGBTI+ que existe no Brasil neste momento. Ainda assim, foi possível fazê-lo e Armando Praça considera que poder falar sobre estas temáticas, seja em que país for, é fundamental.

No filme, acompanhamos Pedro (Marco Nanini), um enfermeiro gay de 70 anos, que cuida de Daniela, a sua melhor amiga transgénero, que está doente. Para lhe conseguir um lugar no hospital, decide auxiliar Jean (Demick Lopes), um criminoso ferido a fugir do local, sem saber que este não vai, na verdade, desaparecer.

Pedro esconde Jean da polícia e ajuda-o no que consegue, dando-lhe lugar para dormir e comida na mesa. Em pouco tempo, a estranheza desaparece e começa a surgir um certo companheirismo e afetividade entre os dois. O protagonista deixa, assim, de se sentir tão só e consegue finalmente começar uma jornada de aceitação pessoal.

Greta (Fotografia: Divulgação/Queer Lisboa)

Amor e solidão são as duas palavras-chave desta longa. A narrativa ocupa-se de retratar a vida de um homem que quer amar e ser igualmente amado, como qualquer ser-humano. Fora da ficção, este desejo para quem está na comunidade é impedido ou perseguido, daí que seja preciso resistir “a essa tentativa de obscurantismo instalada no Brasil” e em outros países, referiu o realizador.

O fascinante neste filme é a sua capacidade de simplesmente contar uma história de amor sem apegar-se demasiado àqueles clichés em que o protagonista “coitado” é diferente, sofre bullying ou é motivo para rir.

Criação do Protagonista

Para criar Pedro, o realizador tinha dois desejos: que fosse um grande ator e que fosse alguém muito distante desse universo, ou seja, que nunca tivesse interpretado um papel destes no cinema.

Embora Marco Nanini seja assumidamente homossexual, nunca tinha feito nenhum papel relacionado com a temática na TV, nem no cinema. Pelo contrário, no Brasil é famoso por entrar em várias novelas e, sobretudo, pelo seu papel de pai de família normativa numa série que durou 14 anos, marcando uma geração.

Marco Nanini em ”Greta’ (Fotografia: Divulgação/Queer Lisboa)

O “filme é saudosista”, disse o realizador, no sentido em que todas os aspetos da linguagem foram escolhidos a partir do protagonista – ele funciona como o filtro da história. Assim, embora a história se passe em Fortaleza, cidade com bastante sol, não é isso que é retratado, mas sim o lado mais negro da vida do personagem.

Em Greta, é deixada de lado a imagem criada para os turistas e mostra-se um outro lado do Brasil, que está cheio de violência, discriminação, pobreza e solidão.

Qualquer grande comédia esconde um drama

Greta é inspirado numa peça muito famosa dos anos 70 que até hoje é encenada. Quando o realizador estudou o texto desta peça e a viu em cena, sempre ficou incomodado com o facto de a plateia se rir do protagonista; embora compreenda que, no período da ditadura militar, no Brasil, a única forma de tocar em certas temáticas fosse pela caricatura.

Fotografia: Rafaela Teixeira.

Embora o texto (da peça) fosse brilhante, tinha-se perdido no tempo, pois não fazia mais sentido rir desse tipo de personagens“, afirmou o realizador. Foi essencialmente por esta razão que lhe surgiu a ideia de fazer uma adaptação para o cinema, trazendo um olhar mais contemporâneo, sobrepondo o drama à comédia.

Em rigor, o que Armando Praça desejava, nas suas palavras, era “que as pessoas se identificassem e sentissem empatia com o personagem”, em vez de gozarem com ele. O que é certo é que na sessão em que o filme foi exibido, no Cinema São Jorge, ninguém se riu da personagem de Pedro.

Por vezes um pouco lento, mas sempre num tom consistente, Greta consegue chegar ao público, fazendo-o sentir verdadeiramente o que é viver como Pedro. A obra mostra-nos como o cinema realmente funciona como afirmação e legitimação destas pessoas. Serve para criar uma identificação da sociedade com estes grupos perseguidos.

O filme está a concorrer para o Prémio do Público e para o Prémio de Melhor Longa-Metragem no Queer Lisboa. O Festival decorre até ao dia 28 de setembro.

Greta foi um projeto pensado há dez anos e estreia dia 10 de outubro no Brasil. O realizador admitiu estar com algum receio das reações.

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Construção do ProtagonistaEfeito e impacto da narrativaElenco competenteAdaptação originalConsistência e solidez narrativa
O desfechoRitmo lento com planos demasiado extensos no tempoPouco aprofundamento de algumas personagens
7.5Valor Total
Realização8.5
Argumento6.5
Elenco8
Fotografia7.5
Banda Sonora7
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