Vencedor da Palme d’Or em Cannes, o novo filme de Bong Joon-ho, Parasitas, é um dos filmes mais aclamadas do ano e coloca em perspetiva as motivações humanas sobre a sede de materialismo e a destruição da nossa essência num mundo capitalista.

A história de Parasitas parece, à primeira vista, algo bastante simples. São duas famílias: os Kim, uma família pobre que procura soluções extravagantes e imaginativas para fugir à condição em que vivem, como dobrarem caixas de pizza em troca de dinheiro; e os Park, uma família da elite coreana que acaba por contratar Ki-woo Kim (Woo-sik Choi) como explicador da jovem Da-hye (Ji-so Jung). Tudo o que acontece no seguimento desse acontecimento é simplesmente mirabolante, mas Parasitas compreende-se como uma obra cujo objetivo é deixar-nos a pensar. A pesar sobre quem somos, quem queremos ser e até onde estamos dispostos a ir para vivermos na nirvana que imaginamos. A obra de Joon-ho ensaia sobre a essência humana e disserta a respeito dos extremos a que o capricho nos leva.

Sun-kyun Lee e Yeo-jeong Jo são os patriarcas da família Park, em ‘Parasitas’

Quando em maio deste ano o júri do Festival de Cannes começou um processo de aclamação ao novo filme do realizador coreano, poucos foram os que ficaram estarrecidos. No currículo de Joon-ho, já conta uma nomeação no mesmo festival com o filme Okja, também para a mesma categoria, e também filmes como Snowpiercer ou The Host. Apesar de não ter saído vitorioso com Okja, a obra inaugurou um debate sobre a presença da Netflix nas cerimónias de prémios de cinema, que ganhou novos contrastes com a nomeação de Roma aos Óscares, no início deste ano.

É sempre a nossa humanidade que o ecrã nos devolve“, escreveu João Lopes, crítico de cinema e realizador, na sua obra Cinema e História, publicado em 2018. Parasitas é um exemplo que encaixa na ideia defendida pelo português. Nem todos os filmes nos devolvem a humanidade, mesmo que sejam autênticas cogitações sobre o assunto, mas a obra de Joon-ho é um dos poucos exemplos deste ano que realmente nos entrega uma reflexão engenhosa sobre o desmedido desejo humano. E é refrescante ver um filme com alma, numa altura em que o cinema dialoga desguarnecido.

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Apesar de se escrever em linhas universais, Parasitas é uma obra bastante atual. As classes não só separadas pelo dinheiro ou pelos sonhos que têm, mas também por algo elementar como um simples sinal de Wi-Fi. Há mais do que distâncias financeiras entre as personagens, há um mar de distância no que a normalidade diz respeito.

A obra é ainda a fusão perfeita entre a comédia e o drama. Não sendo uma obra particularmente engraçada, Parasitas é, seguramente, uma drama de situação. É possível rir-nos na sala de cinema, mas é na simbiose harmoniosa entre o lado escuro e o lado claro da narrativa que encontramos a pérola do realizador. É, em certa parte, semelhante à estratégia utilizada por Yorgos Lanthimos, realizador de A Favorita, onde o sarcasmo foi a adição que faltava na matemática dramática que a história apresentava.

São poucos os filmes com alma, nos dias de hoje, mas Joon-ho apresentou-nos um resultado nutrido de vida, que vale muito a pena ver.

Título original: Gisaengchung
Realização: Joon-ho Bong
Argumento: Joon-ho Bong
Elenco: Kang-ho Song, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Sun-kyun Lee
Género: Comédia, Drama, Thriller
Duração: 132 minutos

Parasitas chega às salas de cinema portuguesas a 26 de setembro.

Crítica. 'Parasitas', a alma que o cinema julgava perdida
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