O Espalha-Factos marcou presença no primeiro dia de programação da 23.ª edição do Queer Lisboa, Festival Internacional de Cinema Queer.

Este sábado (21), foi inaugurada a exposição “Sem Receio de Criar o Caos” e decorreram diversas sessões de longas metragens no Cinema São Jorge – entre as quais, Ilha, Carmen Y Lola e And Then We Danced.

“Sem Receio de Criar o Caos”

À semelhança do ano passado, a Galeria Foco, situada na Rua da Alegria 34, voltou a fazer parte do programa do festival. Houve uma sessão de inauguração (20), mas a abertura ao público ocorreu no mesmo dia do começo do festival (21).

Este ano, a exposição inspira-se na carreira de Harmony Korine, um dos nomes mais controversos do cinema independente norte-americano. Foi uma personalidade fundamental para mudar a representação das questões de género e sexualidade no cinema, levando-as ao limite nas suas obras.

Harmony Korine no set do filme Spring Breakers (2012)/ Fotografia por Michael Muller – © 2013 – A24

Korine estreou-se com Gummo (1997) e, recentemente, partiu para uma estética mais pop, visível em Spring Breakers (2012) e The Beach Bum (2019). A frase que dá nome à exposição foi dita pelo próprio realizador numa entrevista em Paris, em 2017.

A conjugação da obra plástica de Andy James, Dylan Silva, Karine Rougier, Filippo Fiumani e Rui Palma na exposição pretende justamente representar e elogiar alguns aspetos da obra de Korine.

Algumas das pinturas expostas foram produzidas em 2018, outras neste ano. Todas estão disponíveis para compra, sendo que os valores variam entre os 600 euros e os 6000 euros, contou Benjamin Gonthier, dono da Galeria Foco.

Rise Up, 2018/Filippo Fiumani – 180 x 150cm (Fotografia: Rafaela Teixeira/Espalha-Factos)

Esta parceria entre a Galeria e o Festival acontece devido à proximidade local, mas também por ser uma outra forma de fazer o público pensar sobre temáticas Queer, explicou Benjamin Gonthier. A parceria deve manter-se em 2020.

A exposição, com curadoria de Thomas Mendonça, vai estar a decorrer até ao final do Festival Queer Lisboa (28).

Ilha – 7/10

Competição Queer Art

Aldri Anunciação e Renan Motta em “Ilha”

O Queer continua a explorar o cinema brasileiro, sobretudo agora que o país tem debatido bastante sobre as temáticas LGBTI+ serem exibidas às massas.

Mais do que mencionar essas temáticas, a Ilha procura ser um filme sobre como fazer cinema. Entramos no episódio de vida de um famoso realizador da Baía que se vê raptado por um jovem que quer reconstruir subjetivamente a sua vida em filme.

Com alguns momentos cómicos, conversas profundas e um certo tom poético que percorre a narrativa, encontramos a essência desta longa que trata a possibilidade de reconstruir uma vida e a relação entre um raptor e um refém. Sem o cinema, não seria possível trazer à memória, nem navegar pela vida até à própria morte.

Ilha, de Ary Rosa e Glenda Nicácio, além de nos mostrar o que significa ser um amante da sétima arte, aproveita para fazer uma crítica essencial, através do uso da metáfora – o Brasil está cego e precisa de ter força.

Carmen Y Lola – 8.5

Competição Longas-Metragens

Zaira Romero e Rosy Rodríguez em “Carmen Y Lola”.

Liberdade para ser mulher, para sonhar e amar: esta é a ideia proposta pelo filme. Acompanhamos Lola (Zaira Romero), uma rapariga cigana que se sente atraída pelo mesmo género, mas é obrigada a esconder esse desejo da família – que se preocupa mais com seguir a tradição e aquilo que os outros pensam.

Tudo muda quando a nossa protagonista conhece Carmen (Rosy Rodríguez), outra rapariga cigana condenada ao mesmo destino, sendo que já se encontra noiva do primo de Lola. Ambas começam a sentir atração uma pela outra, mas é demasiado perigoso viverem o seu amor.

A princípio, considerei original terem-se focado na cultura cigana. No entanto, a fórmula já é tão repetitiva que funcionava com qualquer cultura tradicional, religiosa e conservadora.

As personagens, sobretudo a protagonista, estão muito bem construídas e conseguimos sentir empatia por elas – especialmente nos momentos de grande dor, transmitida incrivelmente pelo elenco. Vale salientar que as pessoas no filme não são atores, o que torna a experiência mais real.

Os filmes de coming of age lésbicos tendem a seguir uma estrutura que já é cansativa e previsível. A atração à narrativa até ao fim só se mantém para tirar a dúvida cruel: acabam felizes para sempre ou separadas? Este problema impediu-me de dar uma nota superior ao filme. Há um aproveitamento de todos os clichés que já vimos no género. Podia simplesmente contar-se o romance entre duas jovens sem pegar sempre no sofrimento pelo qual têm de passar, mas entendo, claro, que a produção é um sintoma da mentalidade social ainda existente.

Carmen Y Lola também está em competição para o Melhor Longa-Metragem e volta a ser exibido dia 23 de setembro, às 17h15, no Cinema São Jorge.

Programação

Os filmes trazidos para o Festival são organizados nas seguintes competições: Melhor Longa-Metragem, Documentário, Curta-Metragem, Filme de Escola (formato curta-metragem) e Queer Art, sendo esta dedicada ao cinema mais experimental.

Paralelamente, são organizadas outras atividades fora de competição: sessões especiais e ciclos temáticos, retrospectivas sobre representações da homossexualidade na história do cinema, secções dedicadas a subgéneros do Cinema Queer, bem como um conjunto de workshops.

Queer, festival mais antigo de cinema da cidade de Lisboa, vai decorrer até 28 de setembro.

Consulta a programação completa no site do Festival.