O que é bom acaba depressa e o MotelX comprova tal premissa. O último dia do festival trouxe muitas surpresas aos espectadores, que puderam desfrutar, desde narrativas de culto como Alien (1979), a míticas produções nacionais, à semelhança de Rasganço (2001).

A tarde foi marcada pela masterclass Folk Horror and New Folk Horror, que contou com o realizador Ari Aster, convidado de honra do festival. Extra Ordinary (2019), candidato ao prémio de melhor longa de terror europeia, e Nightmare Cinema (2018) foram os outros dois grandes destaques do alinhamento, precedidos por The Wind (2018) e Bliss (2019), ambos pertencentes à secção Serviço de Quarto.

Come to Daddy (2019) foi o filme escolhido para encerrar o festival que contou com cerca de 100 obras e 70 sessões, na sua edição mais concorrida de sempre.

E os vencedores são…

A sessão de encerramento englobou a entrega das premiações para as três categorias de competição do festival. Erva Daninha (2019), por Guilherme Daniel, venceu o prémio Melhor curta de terror portuguesa / Méliès d’Argent. Daniel recebeu 5 mil euros e a nomeação para o prémio Méliès d’Or, atribuído pela Federação Europeia de Festivais de Cinema Fantástico.

Segundo o júri, composto por Howard David Ingham, Raquel Freire e Samuel Úria, “Erva Daninha foi o filme que mais nos surpreendeu, ficámos fascinados e perturbados desde o início. Numa competição muito forte, soube comunicar verdadeiramente uma estranheza sobrenatural e é um filme que nos dá a sensação de ser única e autenticamente português”.

Daniel Viana e Isabel Costa em ‘Erva Daninha’ (Divulgação / MOTELX)

Häuschen – A Herança (2019) foi, também, distinguido com uma menção especial, entregue à dupla Paulo A. M. Oliveira e Pedro Martins.

Why Don’t you just Die! (2018), filme russo da autoria de Kirill Sokolov, ganhou a distinção de Melhor Longa de Terror Europeia / Méliès d’Argent, com menção especial atribuída a The Hole in the Ground (2019) de Lee Cronin.  A escolha ficou a cargo dos realizadores David Gregory e Miguel Gonçalves Mendes, bem como da escultora e artista de efeitos protéticos Rita Anjos.

Por fim, o público considerou Midsommar (2019) o melhor filme em exibição no festival. Ari Aster confessou o seu carinho pelo evento, nas suas palavras “um dos melhores festivais a que fui, como realizador e admirador de filmes de terror”.

O MotelX regressa para a sua 14.ª edição no próximo ano, de 8 a 13 de setembro.

Alien – 8.5/10

(Secção Sessões Especiais)

Divulgação / MOTELX

Alien celebra 40 anos de existência e o MotelX decidiu celebrar, através de uma exibição do clássico realizado por Ridley Scott. A sala, completamente esgotada, indicou que os maiores marcos do cinema de terror continuam vivos, envelhecendo bastante bem.

Após uma breve resenha histórica, somos lançados para o espaço sideral, na companhia da tripulação do Nostromo. Quando surge um pedido de ajuda, proveniente de um planeta abandonado, os astronautas são obrigados a combater a forma de vida alienígena que invade a nave, colocando-se em perigo de vida.

O trunfo de Alien está no deixar espaço à imaginação. Os cenários mais assustadores são compostos por planos muito próximos, onde pouco se percebe. Talvez seja mesmo por isto que a obra continua tão emblemática. Estabelece um clima arrepiante sem recorrer a grandes efeitos especiais que, hoje em dia, poderiam, facilmente, parecer datados.

O filme marca, também, o primeiro grande papel de Sigourney Weaver, uma das grandes heroínas de ação da história do cinema. Seguir o dia-a-dia de Ripley, a última sobrevivente do Nostromo foi, sem dúvida, um enorme prazer, à medida que o espectador é apresentado a uma mulher sábia, que não tem medo de defender os seus ideais perante os companheiros.

A excelente banda sonora, argumento e cenários fazem de Alien um dos melhores filmes de ficção científica de todos os tempos, ainda muito presente nas memórias dos fãs. No espaço ninguém te ouve gritar, mas, no Cinema São Jorge, ouviram-se inúmeros aplausos para saudar a intemporal obra.

Come to Daddy – 7.5 / 10

(Secção Serviço de Quarto)

Elijah Wood em ‘Come to Daddy’ (Divulgação / MOTELX)

Come to Daddy consiste numa comédia negra do cineasta neozelandês Ant Timpson, com a participação do ator Elijah Wood, conhecido pela trilogia Senhor dos Anéis. O filme contraria as expetativas do público, ao retratar as relações pai e filho, com muito humor e ação à mistura.

Norval Greenwood reencontra-se com o progenitor, após longos anos de separação. Contudo, este, rapidamente, percebe que Brian está longe da tradicional figura paterna, envolvido em esquemas, com apenas um possível desfecho: a morte.

Come to Daddy é uma produção sucinta, repleta de referências à cultura pop, em que cada personagem age como uma caricatura de si mesma. Logo nos primeiros minutos são apresentadas duas citações contrastantes: “Os pecados do pai devem ser herdados pelos filhos” por William Shakespeare e “Não há ninguém como o meu papá” da cantora Beyoncé. Estas pequenas nuances estabelecem o tom cómico da aventura, que nunca falha em entreter.

De assustador pode ter pouco, não conservando, por isso, menos valor dentro do género, ao recorrer a inúmeros cenários de gore. Os clichés e o culminar da trama constituem os únicos aspetos que sabem a pouco. No entanto, o caráter magnético da narrativa transforma o filme num espetáculo digno de se ver.