O grande destaque do último dia do MotelX consistiu numa masterclass com o realizador Ari Aster, conhecido por obras como Hereditário (2018) e Midsommar (2019). A sessão teve como tema o Folk Horror e a sua evolução ao longo das décadas, género predominante nos trabalhos mais emblemáticos do cineasta.

Witchfinder General (1968), Blood on Satan’s Claw (1971), The Wicker Man (1973) e The Company of Wolves (1984) são apenas alguns dos títulos mais revisitados atualmente, dentro do universo de Folk Horror. O que mudou e o que se mantém? Aster responde na companhia de Howard David Ingham, autor de We Don’t Go Back: A Watcher’s Guide to Folk Horror, numa iniciativa promovida pelo The Miskatonic Institute of Horror Studies.

O debate foi transmitido ao vivo na página de facebook do MotelX.

Folk Horror: De onde vem e para onde vai

Para os iniciantes, foi apresentada uma breve definição de Folk Horror, rótulo relativamente recente para um tipo de filmes que, no fundo, sempre existiu. Segundo Aster, o género é baseado no “medo de indumentárias antigas e superstições, especialmente em contexto de isolamento” – horror muito focado nas pessoas e nas suas tradições.

Muitas vezes, atmosferas restritas abrem espaço à contestação do nosso sistema de crenças. A partir daí, acontecimentos peculiares sucedem-se e surge o Folk Horror, uma sucessão de “episódios inocentes, que não deviam estar a acontecer”.

Florence Pugh em ‘Midsommar’ (IMDB)

Ainda assim, a relação do cineasta com a área teve os seus altos e baixos. Antes de iniciar o argumento de Midsommar, decidiu privar-se de qualquer filme do género, apesar de já possuir algumas referências prévias. Todos os paralelismos entre a obra e outros filmes com o mesmo formato acabam por ser pura coincidência. Aliás, a inclusão do folk não ocorreu a Aster, até a produtora sueca B-Reel o sugerir.

“O objetivo principal era abordar uma separação amorosa […]. Mas a conexão entre o filme que tinha andado a tentar formar e essa estrutura foi imediata”, refere.

A presença de folclore em Midsommar é óbvia. No caso de Hereditário, esta torna-se mais subtil, mas não menos importante. As práticas sobrenaturais envolveram bastante pesquisa, devido à sua perpetuação de geração em geração, através de inúmeras vertentes.

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Aster revela que aprofundou tanto a bruxaria “ao ponto de me começar a afetar pela negativa”. Chegou mesmo a desfazer-se das referências bibliográficas sobre o mundo do espiritismo, essenciais ao desenvolvimento do enredo. Se escrever Midsommar foi “divertido e antropológico”, Hereditário teve um lado muito mais negro.

“Como bom judeu que sou, não acredito no oculto, mas mais vale prevenir do que remediar”, conclui.

As origens do género foram, também, discutidas, prova viva de que a história tem tendência a repetir-se. Folk Horror teve o seu início nos anos 70, quando a instabilidade política era grande, especialmente no Reino Unido. Hoje em dia, época conturbada à escala mundial, o formato volta a ganhar popularidade ao servir de espelho aos receios humanos. “Parece mesmo que o mundo vai acabar”, diz. “As pessoas sentem cada vez mais ceticismo perante o ambiente à sua volta”, comenta Aster.

Considerações finais

Os últimos momentos da masterclass estiveram reservadas a questões propostas pelo público. O realizador expressou grande admiração por obras cinematográficas como The Shining (1980), pois “fazer horror é, de certa, forma responder a este filme”. Mencionou, de igual modo, o seu processo criativo, muito focado na tentativa e erro, atingindo o expoente máximo face a situações de crise pessoal.

Quanto aos clichés típicos do cinema de terror, Ari Aster responde que “dá para ver quando os filmes são escritos sem qualquer relação particular com o enredo”. Elementos como o clássico jump scare funcionam bem se a ação assim o pedir, caso contrário acabará, inevitavelmente, por parecer forçado.

Após o painel, o cineasta participou numa sessão de autógrafos no lounge do MotelX. O conceito de folk horror ficou esclarecido e o público ficou satisfeito.

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