Como celebrar o 60.º aniversário de um dos piores filmes de sempre? O MotelX tem a resposta. No penúltimo dia de festival foi prestada homenagem ao realizador Edward D. Wood, através da exibição do clássico Plan 9 from outer space (1958).

A sessão teve direito a debate, muitos risos e, até mesmo, a caixão, proporcionando um excelente fim de noite a todos os presentes. Rui Alves de Sousa foi o anfitrião do evento, responsável pelo comentário da longa-metragem, ao passo que o diálogo final ficou a cargo de Tiago R. Santos, Susana Romana e Rui Zink.

Castigar o culpado e recompensar o inocente

Plan 9 é, certamente, uma experiência cinematográfica singular. Daquelas que são tão más, que, de repente, ganham estatuto de culto e acabam perpetuadas ao longo de gerações. Desde conversações redundantes (“Futuros eventos como estes vão afetar-vos no futuro”), a ovnis a planar por um fio, a lápides de cartão ou desconexas sucessões de dia e noite, a longa-metragem torna-se inesquecível devido à sua vertente crua, baseada no “fazer muito com pouco”.

Se o ponto fulcral são criaturas de outra galáxia a querer conhecer a terra ou a tentar destruir a raça humana por completo, pouco importa. O humor não intencional desculpa as maiores falhas técnicas, principal razão pela qual a obra continua relevante nos dias de hoje.

Maila Nurmi em ‘Plan 9 from Outer Space’ (IMDB)

A atmosfera sentida na sala de cinema fomentou, em parte, o fascínio pelo filme. De facto, é diferente ver Plan 9 sozinho ou numa sala repleta de pessoas, que correspondem a cada deslize cinematográfico ao explodir em gargalhadas. Aqui reside a genialidade de trazer este filme para discussão em contexto de festival.

Inicialmente, parece que não há nada a dizer. Afinal, o argumento apenas proporciona enorme confusão, sem qualquer tipo de continuidade ou atenção ao detalhe. Contudo, juntar vários indivíduos para conversar e assistir à narrativa revelou-se, não só divertido, como bastante enriquecedor, suscitando uma oportunidade de intercâmbio entre pontos de vista.

Desmistificar o mito

O que faz um bom filme? O que faz uma obra perdurar e atingir a imortalidade? Será uma aborrecida produção, bem executada a nível técnico? Ou um projeto mal construído capaz de entreter sem dar pelo tempo a passar? O debate desconstrói esta dicotómica conjetura, gerada pela maioria do repertório do cineasta.

Cada convidado tem uma relação pessoal com o filme, ou, simplesmente, com a realidade do escrever por profissão e, muitas vezes, não sair bem. O importante, para quem tem paixão pela área, é continuar a tentar e, se o trabalho não ficar conhecido pelas melhores razões, há sempre a possibilidade de perdurar pelas más.

Johnny Depp em ‘Ed Wood’ (IMDB)

Também foram estabelecidos paralelos com Ed Wood (1994), filme de Tim Burton, sobre a vida do controverso realizador. A película fornece detalhes mais aprofundados sobre o caráter de Wood, explicitando o porquê de determinadas escolhas artísticas. O homem por trás do mito conserva este impulso em produzir e contar algo ao mundo, mesmo sem grande habilidade para o trabalho. Aliás, os segmentos proféticos em Plan 9, referentes ao futuro destrutivo do planeta Terra, revelam que há uma mensagem a perpassar, no meio da inequívoca embrulhada a que se assiste.

Duas horas bem passadas em pleno  Cinema São Jorge, com direito a velas, bolo e Parabéns a você. O culminar perfeito para o quinto dia do MotelX 2019.