Ari Aster é o convidado de destaque da 13.ª edição do MotelX. Este sábado (14), respondeu a algumas perguntas após a exibição de Hereditário, o seu primeiro filme, revelando as suas inspirações e como é o seu processo criativo.

Hereditário estreou-se em janeiro do ano passado, no Sundance Film Festival. A primeira longa-metragem do realizador foi aclamada pela crítica, tal como foi um sucesso de bilheteira internacional.

O filme conta a história de uma família que tenta ultrapassar a morte da avó. Porém, após o funeral, há várias situações estranhas e inexplicáveis que começam a atormentá-los. Rapidamente, a família transforma-se, devido a acontecimentos horríveis e influências demoníacas, acabando por se desintegrar completamente.

Para Ari Aster, esta é uma obra sobre família, mas, acima de tudo, sobre trauma. O realizador refere que foi muito importante que a metáfora do trauma não se perdesse à medida que o filme se tornava cada vez mais sobrenatural. E o culminar desta metáfora é a cena final.

“Na última cena, quando ele é coroado, isso tem muito a ver com o trauma, como altera completamente uma pessoa e como se não lidarmos com algo acabamos por venerá-lo”, explicou Aster.

Esta ideia da família a lidar com algo terrível foi, de facto, o ponto de partida para toda a narrativa. “Eu sabia que queria fazer um filme de terror, mas definitivamente começou com a ideia de uma família de luto devido a algo horrível, não conseguirem ultrapassá-lo e isso acabar por destruí-los“, esclarece.

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Hereditário // Fonte: Divulgação/A24

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O aspecto demoníaco e sobrenatural surgiu mais tarde, transformando este luto em algo apocalíptico. No entanto, o realizador refere que já tinha algumas imagens presentes desde o início, que o guiaram para o resto do filme. “A mãe a flutuar pela casa e a ideia de a mãe se matar da mesma maneira que a sua filha morreu foram imagens que tive muito cedo, foram essas coisas que me guiaram desde o início“, conta.

As inspirações de Aster

Para o realizador “é difícil ver filmes que não tenham sido feitos cuidadosamente”. Hereditário tem certamente esse cuidado, já que é um filme com muitos pormenores escondidos aos quais é necessário prestar atenção. Mas quais são as obras de terror que o inspiram?

Ari Aster conta-nos que adora vários filmes de terror japoneses, como The Wailing ou Onibaba. Do cinema americano destaca The Innocents (1961), Rosemary’s BabyAlien – que é exibido este domingo (15) no MotelX.

Sobre o seu processo criativo, diz que “a linha entre escrever e realizar torna-se muito ténue” e que o processo de escrita não acaba quando se realiza também o filme. “Normalmente, a forma como trabalho é esboçar muito e quando chego ao final e sei como vai terminar, como todas as peças se encaixam, volto atrás novamente.”

Admite delinear os seus planos excessivamente, pois os seus filmes acabam sempre com horas a mais, mas prefere trabalhar assim. Revela ainda que, originalmente, Hereditário tinha três horas, enquanto Midsommar tinha quase quatro horas.

Sei que há quem escreva cena a cena, eu costumava fazê-lo, mas agora se o fizesse acabava com 400 páginas ou mais, e estes filmes já são demasiado longos“, explica.

Ari Aster estará presente este domingo (15) numa Masterclass gratuita sobre folk horror, no MotelX. A sessão será guiada pelo escritor Howard David Ingham, às 17h30.

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