O quarto dia da 13.ª edição do MotelX contou com a exibição de Midsommar (2019), na companhia do realizador Ari Aster. A sala totalmente esgotada refletiu a antecipação que envolve a obra, bem como o entusiasmo pela perspetiva do cineasta, disponível para uma sessão de perguntas e respostas. O projeto já bateu recordes ao afirmar-se como a estreia independente mais lucrativa do ano nos Estados Unidos da América.

Mais do que um simples filme de terror, ou nas palavras de Aster “comédia negra”, a película chega a ascender ao estatuto de obra de arte, contando com uma cinematografia de cortar a respiração. O realizador brilha na sua segunda longa-metragem ao construir uma experiência audiovisual, que dá asas ao desenvolvimento de um estilo muito próprio.

No final da antestreia, confessa que “gravar um filme não é propriamente um processo criativo”, pois requer uma ótica meticulosa, convertida, muitas vezes, em frustração. Tal não podia ser mais premente, à medida que somos expostos a um argumento deveras complexo, em que todas as peças encaixam.

“Faz parte da cultura!”

A narrativa centra-se na jovem Dani, presa numa relação tóxica, que se esforça a todo o custo por manter. Quando os amigos do seu namorado partem rumo à comunidade de Hårga, na Suécia, esta decide juntar-se, pronta a refrescar as ideias e deixar velhos traumas para trás. Todavia, há algo de muito errado na população, mais próxima do culto do que da irmandade. A pouco e pouco, a desculpa do “é apenas cultural”, perante diversos cenários macabros, torna-se obsoleta.

Fonte: IMDB

Aster refere que o seu processo criativo passa por imaginar o cenário mais macabro e exagerado possível. A restante ação desenvolve-se a partir daí. Tal estratégia espelha a essência de Midsommar. Todos os momentos têm por base o surreal, deixando o espetador a indagar, “mas quem se lembraria de uma coisa destas?”.  A excelente construção do suspense contribui para este efeito surpresa, auxiliado pela banda sonora, claramente, escolhida a dedo.

De facto, todas as filmagens são surpreendentes. Os cortes abruptos, o foco em grandes planos durante diálogos particulares, o colossal e grotesco em cada imagem, transformam o projeto em algo inesquecível.

Ler nas entrelinhas

Midsommar é um filme que exige, também, alguma capacidade de retenção. Nada é completamente explicito. Ao invés, a audiência recebe várias ferramentas, seja mediante tapeçarias proféticas ou detalhes quase irrisórios, essenciais para a compreensão da conjetura seguinte. É refrescante assistir a uma película que não toma o público por burro, muito longe do soletrar da ação a que muitas produções cinematográficas recorrem.

No futuro, Ari Aster promete uma versão director’s cut, com mais 25 minutos de rituais, música e esclarecimentos perante determinadas reticências. Apesar da longa duração da narrativa, o cineasta confessa que foi difícil excluir algumas cenas, que fortalecem o ambiente sinistro e os motivos por trás do forte gore utilizado.

O filme foi pensado para ser muito mais redundante do que a sua versão final, até para realçar o desgaste provocado pela relação amorosa de Dani”, revela.

Resta aguardar por esta pequena continuação, daquele que é, provavelmente, um dos melhores filmes do ano.

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