O quarto dia do MotelX recebeu Lords of Chaos (2019), filme do realizador sueco Jonas Åkerlund, baseado na “verdade, mentira e o que realmente aconteceu” à controversa banda de (verdadeiro) black metal norueguês, Mayhem.

Contado na perspetiva de Euronymous, autoproclamado líder do grupo, a longa-metragem foi alvo de controvérsia devido à excessiva liberdade criativa na narração dos eventos e conteúdo bastante gráfico. Verídico ou não, vale a pena assistir a Lords of Chaos, integrado na secção Serviço de Quarto do festival.

Apesar da premência em escandalizar, o argumento é apelativo ao abordar tópicos substanciais, como a pressão de grupo ou o que significa viver à margem da sociedade. No fundo, todas as personagens envergam uma espécie de máscara, competindo constantemente para se afirmar entre si. E, afinal, o estilo de vida autêntico e satânico, longe do mundo superficial dos demais, não passava de uma farsa.

Pertencer, custe o que custar

Euronymous (Rory Culkin) acredita que está a começar uma verdadeira revolução ao fundar Mayhem: um nicho antissistema de interesses mórbidos que abomina a opressão da igreja pela “bondade”. O guitarrista coloca uma elaborada fachada sobre si próprio. Tem de ser o mais violento e radical da banda, detentor de qualquer ideia estapafúrdia proveniente dos seus subordinados. De imediato, o espetador consegue vê-lo como realmente é – um mero rapazinho assustado, que ainda recorre aos pais quando necessita de financiamento.

Fonte: IMDB

Por outro lado, Kristian (Emory Cohen) tenta a todo o custo entrar neste mundo, sempre sem sucesso, remetido constantemente ao estatuto de poser. Para ascender ao círculo destrutivo que tanto deseja, começa a incendiar igrejas e a vandalizar campas. Assim, o excluído passar a ser o que exclui.

Kristian, ou Varg ou Conde ou qualquer uma das suas identidades, transforma-se no pináculo do “tentar demais”. É nazi, satanista e anarquista, sem entender bem o que qualquer dessas coisas significa, caindo por completo no ridículo. Aqui encontra-se o excelente humor da narrativa, focado no absurdo daquele meio.

Estética de teledisco

A vertente técnica da produção merece, de igual modo, destaque. A beleza natural da Noruega é magnífica, à semelhança da estética associada às filmagens. As anteriores produções de Åkerlund consistem, na sua maioria, em telediscos, passado bastante notório. A lente espelha a ação de um ponto de vista conceptual, com os tons e movimentos enquadrados em perfeita sintonia. Já a nível de elenco, Culkin e Cohen são, sem sombra de dúvida, os grandes trunfos do projeto representando, de forma credível, a letargia e descontentamento associados às respetivas personagens.

Fonte: IMDB

O que significa ser genuíno? O que significa pertencer? Não está na revolta, no perder da identidade ou na hipocrisia, segundo retrata o sangrento desfecho. Somos avisados, desde início, relativamente ao culminar trágico da história, algo, no mínimo, expectável. Cada membro tenta lidar com o facto de estar perdido, perdendo-se ainda mais. Nunca poderia terminar bem.

A mão glamorosa de Hollywood é evidente no decorrer da longa-metragem, o que não invalida o prazer que foi assistir à bizarra perspetiva de Lords of Chaos.

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