Mais um dia da 13.ª edição do MotelX na companhia do Espalha-Fatos. Desta vez, o festival internacional de cinema de terror deu as boas-vindas a Abner Pastoll e Carlo Mirabella-Davis, responsáveis, respetivamente, por A Good Woman is Hard To Find (2019) e Swallow (2019), filmes com grande destaque no alinhamento deste ano.

O programa das festas incluiu, também, o filme indiano Tumbbad (2018) e o agressivo The Golden Glove (2019), ambos integrados na secção Serviço de Quarto. Horror Noire: A History of Black Horror (2019), um dos quatro documentários selecionados para o evento, teve direito a encerrar a programação da tarde.

Os últimos projetos em exibição foram The Entity (2019) e The Hole in the Ground (2019), thriller que contou com a presença do realizador Lee Cronin para uma breve sessão de perguntas e respostas.

Tumbbad 8.5/10

(Secção Serviço de Quarto)

Sohum Shah em 'Tumbbad'

Sohum Shah em ‘Tumbbad’ (Divulgação/MotelX)

Tumbbad quase passava despercebido na programação do festival, mas este primeiro filme de Rahi Anil Barve, co-realizado por Adesh Prasad, foi uma agradável surpresa. Estreou-se na Semana da Crítica do Festival de Veneza, em 2018, e passa-se numa pequena aldeia chamada Tumbbad, na Índia.

Vinayak, filho bastardo do homem mais poderoso da aldeia, torna-se obcecado com um tesouro ancestral. Em sua casa vive uma senhora muito velha, que já devia ter morrido, mas permanece fechada e presa à sua cama, onde apenas dorme e come.

A velha sofreu uma maldição por ter tentado roubar o tal tesouro, mas o jovem tem de escapar da aldeia, a pedido da mãe, após o pai morrer, antes de lhe perguntar onde encontrá-lo. Quando Vinayak cresce, volta à aldeia para descobrir os segredos do tesouro e consegue descobri-lo. Porém, há um terrível e mortífero guardião que tem de enfrentar sempre que desce para mais e mais ouro.

Ainda que com um início duvidoso, o filme acabou por deslumbrar e revelou-se verdadeiramente incrível. Com uma história mitológica que nos ensina muito sobre a ganância do Homem e efeitos visuais impressionantes, Tumbbad foi dos melhores filmes do dia.

It Comes – 4/10

(Secção Serviço de Quarto)

Satoshi Tsumabuki em ‘It Comes’ (IMDB)

It comes tinha tudo para correr bem. Começa por apresentar uma bolha de felicidade muito divertida, originada pelo matrimónio de Hideki e Kana. O casal afirma-se como o arquétipo da perfeição, junto dos amigos. Ainda para mais, quando nasce a sua linda filha, cujo quotidiano é documentado pelo pai num blog. Pais atentos, filha amada – melhor era impossível.

Apesar do ambiente atípico a um filme de terror, há vários indícios que apontam para a aproximação de uma força maléfica. Fantasmas do passado assombram Hideki e lendas infantis parecem agora muito reais. Quando menos esperam, “a coisa” ataca. O filme começa, então, a perder-se.

A narrativa avança depressa, recorrendo a inúmeros recuos e avanços no tempo. Como se tal não fosse confuso o suficiente, o suposto “horror” retira qualquer sentido ao argumento. Não se percebe de onde provém o espírito, quais os seus motivos ou objetivos. Simplesmente, ataca e possui tudo o que mexe de forma aleatória, chegando mesmo a roçar o cómico.

A correlação entre os eventos retratados é muito ténue. Os efeitos especiais são maus e a interessante superficialidade do amor entre o casal desaparece. O espalhafato contínuo ainda consegue prender a atenção do espectador. Para além disso, há poucos pontos positivos a apontar.

I See You 7/10

(Secção Serviço de Quarto)

Helen Hunt

Helen Hunt em ‘I See You’ (Divulgação/MotelX)

O thriller de Adam Randall com Helen Hunt faz-nos questionar quem são os bons e maus da fita. Numa cidade aparentemente perfeita, há uma família cheia de problemas. A mãe traiu o marido, o filho é agressivo e o pai é um polícia magoado que investiga o desaparecimento de uma criança do bairro.

Porém, percebemos que nada é o que parece quando dois jovens sem-abrigo ocupam a casa desta família, descobrindo os seus segredos mais obscuros e arriscando a sua própria vida. Entre crimes atrozes e situações peculiares, tudo dá uma volta de 180º.

I See You é um filme surpreendente que nos faz refletir sobre o que realmente conhecemos das pessoas mais próximas de nós.

The Entity – 5/10

(Secção Serviço de Quarto)

Pam Gonzales em ‘The Entity’ (IMDB)

The Entity é um filme filipino, que promete fazer uso de um terror mais tradicional. As típicas possessões demoníacas, jump scares e casas assombradas não faltam, deixando a audiência a antecipar o próximo cenário arrepiante. A narrativa possui um tom vintage, não só devido ao excelente uso do piano e órgão, mas também graças a inúmeras referências a obras, como The Exorcist (1973), Carrie (1976) e The Shining (1980).

Luis decide visitar a casa onde cresceu, após a morte da irmã Manuella, e depara-se com um estranho cenário. O pai torna-se cada vez mais violento e ninguém fala sobre o que aconteceu. A pouco e pouco, Luis apercebe-se das forças malignas presentes no lar, associadas a uma série de acontecimentos passados. Deve, agora, salvar o progenitor, possuído pelo próprio Satanás.

A narrativa é muito interessante e sabe, sem dúvida, incutir o medo nos espectadores. No entanto, os pequenos detalhes não levam a lado nenhum, enquanto outros, essenciais para compreender o argumento, faltam. Luis acaba por se assumir como transexual, tópico mal explorado e inserido à pressa. Manuella, antes de morrer, estava grávida, facto mencionado uma única vez sem qualquer propósito.

A longa-metragem não é aborrecida, mas parece que foi construída de forma extremamente desleixada. Quem esperava o próximo The Conjuring (2013) fica bastante desapontado.

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Artigo escrito por Carolina Correia e Matilde Dias, no MotelX, em Lisboa.