O segundo dia do MotelX foi marcado pela figura feminina, tanto à frente como atrás das câmaras, através de dois grandes destaques pertencentes à secção Serviço de Quarto: Carmilla (2019) e Sombra do Pai (2018). Ambos, apesar de muito diferentes, mantém os seus pontos de contacto ao focar tópicos como a emancipação e o final da inocência.

Carmilla – 7/10

(Secção Serviço de Quarto)

Filme Carmilla

Fonte: MOTELX / Divulgação

Em Carmilla, Lara vive imersa no aborrecimento numa vasta casa senhorial. A governanta Miss Fontaine comanda o quotidiano com mão de ferro, não permitindo à jovem qualquer tipo de transgressão. Assim se passam os dias, à mercê da letargia sem fim à vista. Até que uma inesperada visita muda o curso da vida de Lara.

A rapariga depara-se com a inebriante Carmilla, acolhida pelo seu pai após um acidente de viação. Dá-se, então, o ponto de viragem que desencadeia a tardia auto-descoberta. Lara aprende a libertar-se das mentiras incutidas pelo austero ambiente religioso, à medida que o amor floresce entre as duas. Carmilla possui algo de sobrenatural que atrai a companheira, disposta agora a amadurecer e ultrapassar qualquer obstáculo.

Apesar do desfecho anti-climático, a adaptação de Emily Harris retrata de forma exímia o culminar da infância, tendo por base um dos primeiros contos de ficção LGBT a incluir a presença do vampiro. A atenção ao detalhe é preponderante, tal como a necessidade de nadar contra a corrente pelo poder do romance.

A Sombra do Pai – 6/10

(Secção Serviço de Quarto)

A Sombra do Pai

Fonte: MOTELX / Divulgação

Por outro lado, se Lara escolhe crescer, em Sombra do Pai, Dalva é obrigada a fazê-lo. A morte da mãe e o estado de loucura iminente do pai fazem com que a menina tenha de ascender cedo ao papel de matriarca. Envolta no dilema permanente de lidar com os seus sentimentos e capacidades extraordinárias, Dalva explora a área da bruxaria, inspirada pelas superstições da tia. A pouco e pouco, começa a acreditar que consegue reavivar a mãe, colocando um ponto final à sinistra normalidade que o pai tenta incutir no seio do lar destruído.

Sombra do Pai é uma criação da realizadora brasileira Gabriela Amaral, que espelha o desenvolvimento pessoal e curiosidade inerentes à carência afetiva. O espiritismo confere à narrativa uma aura misteriosa, complemento perfeito face às desventuras da personagem principal. A direção nunca falha, com interessantes planos que puxam o olhar do espectador em múltiplas direções.

Todavia, o argumento consegue ser pouco claro ao recorrer a fenómenos de origem incógnita, sem nunca explicitar a verdadeira extensão dos poderes de Dalva. A história tropeça em si própria e torna-se, a pouco e pouco, confusa, ao invés de apresentar as explicações requeridas.

Da divergência à semelhança

Lara cresce rodeada de catolicismo autoritário. Dalva contacta desde cedo com o mundo do oculto. A primeira numa antiga família abastada e a segunda em tempos modernos não tão luxuosos. Onde existem polos opostos, surgem, também, semelhanças. O coming-of-age repentino, a luta das protagonistas contra o mundo e a busca incessante pelo amor transformam as produções numa excelente parelha, que enaltece bastante a 13ª edição do MotelX.

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