O segundo dia do festival MotelX contou com a presença do realizador francês Quarxx na apresentação da sua mais recente longa-metragem All the Gods in the Sky (2018). O cineasta deseja que o público “ame ou odeie o filme, nada no meio”, declaração feita pelo próprio perante a quase esgotada sala Manoel de Oliveira, no cinema São Jorge.

A explosão do esotérico

“Polarizador” é, sem dúvida, a melhor forma de descrever a película, integrada na competição Melhor Longa de Terror Europeia / Méliès d’Argent. A indiferença afigura-se quase impossível perante os pesados cenários apresentados, à medida que penetramos no dia-a-dia de Simon Dormel (Jean-Luc Couchard). Este vive atormentado por ter paralisado a irmã Estelle (Melanie Gaydos), após um acidente na infância. O trauma dá origem a violentos acessos de paranóia, que levam o homem a acreditar na salvação mediante seres alienígenas.

20 anos passaram, Simon mora com Estelle, cuidando da rapariga da melhor forma que sabe, ou seja, com muito abuso físico e psicológico à mistura. Envolto em inocência tresloucada, pensa apenas que está a cumprir os requisitos para ambos obterem uma espécie de vida eterna, pondo fim ao seu quotidiano miserável.

A perspetiva de Simon pincela toda a narrativa, transformando All the Gods in the Sky num espetáculo doentio e verdadeiramente absorvente. O valor choque impera, assim como os toques apocalípticos, transformando a obra numa singular mistura de géneros. A cinematografia destaca-se pelos planos simétricos, e rasgos de cor, que acompanham o elenco no seu excelente desempenho.

Para além dos deuses

Os elementos intergalácticos fazem o filme parecer algo datado. As grandes imagens do sistema solar e a presença de aliens bastante artificiais roubam o potencial gerado pelo clima sinistro. A ideia do sobrenatural poderia existir só na cabeça de Simon, materializada de forma subtil e dispensando interpretações à letra. Os finais também se sucedem ao longo dos últimos trinta minutos de filme, conferindo desfechos variados ao enredo. Alguns poderosos, outros olvidáveis e desnecessários.

Quarxx esclarece o rumo criativo numa pequena sessão de perguntas e respostas com os espectadores. A obra começou por ser uma curta-metragem, inserida no produto final quase na totalidade. Contudo, o enredo pedia um culminar mais leve que, rapidamente, foi acrescentado.

Na última versão, ela [Estelle] perdoa-o. Há mais esperança na longa-metragem do que na curta, muito mais negra e sem qualquer redenção”, refere.

O realizador realça o caráter maleável da obra ao lembrar que “o filme tem significado livre, cada um pode criar as suas próprias conexões”. Uma experiência única com a possibilidade de ser avaliada do ponto de vista individual.

O que se segue para Quarxx? Primeiro, promete regressar às curtas-metragens, com gravações marcadas já para o mês de novembro. De seguida, irá retomar o formato mais longo para contar “a triste história de amor entre dois adolescentes”, agendada para o início do próximo ano. Será mais um espetáculo a não perder no espólio de um cineasta que o MotelX não esquecerá tão cedo.

Lê Também: MOTELX 19: POUCO TERROR EM ‘THE QUAKE’ E UMA HOMENAGEM MERECIDA
MOTELX 19: Do amor ao ódio em ‘All the Gods in the Sky’
7Valor Total
Votação do Leitor 1 Voto
5.8