A 13.ª edição do MotelX, Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, está de volta e promete, uma vez mais, dar as boas-vindas ao horror de 10 a 15 de setembro. O arranque das festividades afigurou-se promissor, com a exibição lotada de Ma, thriller realizado por Tate Taylor, e Bacurau, obra brasileira que teve direito a duas sessões no dia de abertura.

Os filmes Koko-di Koko-da e The Gangster, the Cop, the Devil marcaram, também, presença, pondo fim às primeiras apresentações do festival. Os arrepios voltaram ao Cinema São Jorge e parece que vêm para ficar.

Reinventar, sem esquecer a tradição

O evento não é, certamente, recomendado aos que sofrem de triscaidecafobia. O número 13 encontra-se em grande destaque nesta edição, que chega mesmo a abarcar uma semana de sexta-feira 13. Se avistarem o serial killer Jason a passear pelos corredores, muito cuidado. O MotelX decidiu prestar homenagem ao filme de culto Sexta-Feira 13 realizado por Sean S. Cunningham. Uma peça de época que remonta aos anos 80, ao celebrar a superstição com muito suspense e gore.

Motelx 2019

(Fotografia: MotelX/Facebook)

Mas a nostalgia não acaba aqui. As exibições mais antigas incluem, ainda, uma sessão restaurada de Alien em resolução 4K. O filme de Ridley Scott faz 40 anos, marco que não passa despercebido aos olhos da organização. O documentário Memory: The Origins of Alien fará parte da secção Doc de Terror deste ano, com vista a aprofundar as raízes do clássico cinematográfico.

A nível de produções mais recentes encontra-se Midsommar de Ari Aster, realizador presente na abertura do festival. Aster irá acompanhar sessões, não só da sua criação mais recente, mas também de Hereditário, a primeira longa-metragem que o transformou numa notável figura do cinema de terror. A masterclass ‘Folk Horror and New Folk Horror: A Conversation with Ari Aster’ está, de igual modo, a seu cargo, com o objetivo de dar a conhecer o género Folk Horror ao longo dos tempos.

O MotelX é composto por nove secções distintas, duas delas competições pelo título de Melhor Curta de Terror Portuguesa e Melhor Longa de Terror Europeia. A abordagem nacional e internacional ao horror não constitui novidade, em particular no que toca ao incentivo a cineastas portugueses, um dos principais objetivos do evento. Um hino ao susto na sua infinita pluralidade, aberto ao público durante toda a semana.

Bacurau – 7.5/10

(Secção Serviço de Quarto)

Fonte: Victor Jucá / Divulgação

Bacurau pode ser apelidado de tudo, menos de aborrecido. Para além da calorosa aclamação da crítica, o filme valeu à dupla de realizadores brasileiros Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles o prémio do júri no Festival de Cannes 2019, conquista que fala por si só.

De facto, a inovadora mistura de terror, slasher, western e ficção científica não passa despercebida ao narrar a história da pequena aldeia de Bacurau, enlutada pela morte da sua matriarca. Desde então, a localidade nunca mais foi a mesma. Estranhos homicídios sucedem-se e alguém parece desejar a eliminação dos residentes um por um. No entanto, os habitantes estão prontos a ripostar sem misericórdia, envoltos num peculiar estado psicadélico.

A obra demora a responder às perguntas do espectador, arrastando-se, por vezes, demasiado. Torna-se necessário recolher pequenas pistas e dar voltas à cabeça para perceber onde o argumento quer chegar. O resultado é um intrigante paralelismo com a atualidade brasileira, focado na crueldade e corrupção da fação política. Os tópicos são pesados, mas a caricatura comanda. A comicidade nunca falha, à semelhança da saturada cinematografia e excelente uso da banda sonora.

De uma transição exagerada para a outra, atinge-se o âmago da questão: a revolta é iminente e a classe dominante não sairá impune. Sem dúvida, vale a pena ver e rever.