O Pintassilgo, ou, na versão original, The Goldfinch, é inspirado na obra, vencedora de um Pulitzer, de Donna Tartt. Retrata as voltas e reviravoltas na vida de um rapaz que tem de amadurecer e lidar com a dor cedo demais, perdendo aquilo que é fundamental para o desenvolvimento de cada um – a infância.

Theodore Decker (Oakes Fegley, Ansel Elgort) vê toda a sua vida a mudar de um momento para o outro quando num dia, inesperadamente, visita o Museu Metropolitan, em Nova Iorque, com a sua mãe. No local, dá-se uma grande explosão – que faz alusão ao terrorismo, sem pretender fazer referência a ataques terroristas reais, como afirmou o realizador, John Crowley, no Festival de Toronto.

Theo consegue escapar vivo à explosão, mas perde a sua mãe, tendo de ir viver com a família Barbour. Além de sentir que perdeu um pedaço fundamental de si e da sua vida, há algo que trouxe consigo do local e ao qual se afeiçoou – o quadro do Pintassilgo que os meios de comunicação dão como destruído.

É a partir destas relações entre o protagonista e o quadro, o trauma da explosão e a perda da mãe que se desenvolve toda a narrativa. Temos acesso à história de vida do protagonista contada pelo próprio – vários momentos são dados em flashback, criando-se uma maior empatia e proximidade entre a personagem e o espectador.

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Ansel Elgort em O Pintassilgo

Fotografia: Warner Bros/Divulgação

Algo que me chamou bastante à atenção foi a forma como o filme retrata o funcionamento humano – por mais destruído e traumatizado que possa estar no interior, consegue de forma credível passar a imagem de alguém profissional, trabalhador, focado e saudável. Neste âmbito, também é abordado o consumo de álcool e outras substâncias como formas de escapar temporariamente à dor.

A ideia de que uma explosão, um breve período de tempo, pode mudar tudo na vida de alguém é muito poderosa e o filme soube transmiti-la bem, assim como as respetivas consequências.

O atentado no museu que ocorre na história afastou a pintura do Pintassilgo, algo belo e que deve ser imortal para ser visto por todos, da luz do mundo, da mesma forma que retirou a Theo a infância e moldou toda a sua vida.

Mesmo possuindo o quadro, Theo não olhava para ele, da mesma forma que nunca conseguia ver a mãe nos seus sonhos. É como se o protagonista já não conseguisse ver a beleza do mundo e quando a via era sob o efeito de algo. A arte, tida como bela, torna-se difícil de assimilar por trazer memórias negativas.

Da mesma forma, vemos Pippa (Ashleigh Cummings), outra rapariga que estava perto de Theo no dia da explosão, ser obrigada a afastar-se da música quando era esse o seu sonho de vida. O trauma tornou demasiado doloroso recordar ou simplesmente presenciar um concerto.

Pippa e Theo em crianças no museu aquando da explosão.

Fotografia: Warner Bros/Divulgação

Além de relações de causa e efeito bem trabalhadas, temos um elenco muito competente. A meu ver, o destaque vai para Oakes Fegley que interpreta o jovem Theo incrivelmente, com expressões faciais e semelhanças que depois vemos no adulto Theo (Ansel Elgort) – igualmente eficiente no seu papel,  dos melhores que teve. A escolha dos dois atores foi bem feita, pois acreditamos mesmo que se trata da mesma pessoa. Também Finn Wolfhard, que interpreta um amigo do jovem Theo, se destaca por aparecer num registo diferente e até com um outro sotaque –  os momentos entre os dois em tela são bastante bons e cheios de química. Já Sarah Paulson entrega a excelência habitual, enquanto Nicole Kidman se apresenta bastante contida.

A obra preocupa-se em perder tempo na construção das suas personagens e fá-lo bastante bem. Porém, considero alguns detalhes da vida adulta de Theo desnecessários para o todo da narrativa e o seu efeito no espectador. A família adotiva de Theo não precisava de ser constituída por tantos elementos.

O Pintassilgo transporta-nos para um drama de vida que nos faz refletir sobre todos os sobreviventes de atentados terroristas, a importância da arte e da necessidade da sua beleza não desaparecer dos olhos do mundo.

O filme estreia dia 12 de setembro nas salas de cinema portuguesas.

 

Título original: The Goldfinch

Realização: John Crowley

Argumento:  Peter Straughan

Elenco: Ansel Elgort, Oakes Fegley, Aneurin Barnard, Finn Wolfhard, Sarah Paulson, Luke Wilson, Jeffrey Wright, Nicole Kidman, Ashleigh Cummings

Género: Drama

Duração: 149 mins

'O Pintassilgo' : Os efeitos do trauma
Construção do protagonistaArgumento com saltos temporaisElenco competenteBanda sonora clássicaImpacto e efeito da narrativa no espetadorPlotwists
Duração Perda de tempo com pormenores irrelevantes e algumas personagens desnecessárias
8Valor Total
Realização7.5
Argumento8
Elenco8.5
Banda Sonora8.5
Fotografia7.5
Efeitos Visuais7.8
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