Dia 5 de setembro chega aos cinemas mais um filme inspirado no espólio literário de Stephen King. Desta vez, trata-se ‘IT Capítulo 2′. O tão aguardado culminar da batalha entre o palhaço Pennywise e o Losers Club chega 27 anos depois do seu primeiro encontro.

Obviamente, esta é uma história conhecida. Vários tentaram dar vida ao romance, seja através do grande ecrã ou de séries televisivas. Porém, o sucesso sem precedentes gerado pela adaptação de Andy Muschietti torna-se inegável. Em 2017, o mundo conheceu a primeira parte de IT pelas mãos do cineasta. A receção afigurou-se tão positiva que, ainda hoje, se destaca enquanto obra cinematográfica mais lucrativa de King, ultrapassando clássicos intemporais como The Shining (1980).

O texto que se segue contém spoilers sobre o filme ‘IT Capítulo 2’

Fotografia: Warner Bros./Divulgação

Uma sequela que acarreta tamanho peso deve dar resposta à tarefa, nem sempre fácil, de superar o antecedente. Para IT Capítulo 2, a estratégia reside na construção de uma jornada introspetiva, focada no fazer as pazes com a infância e encarar o passado olhos nos olhos.

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De facto, a longa-metragem prima pela profundidade. Pennywise personifica os receios mais íntimos de cada um, algo explorado tanto aos olhos da criança, como do adulto. O medo não é apenas o bicho papão a aguardar no escuro. Os maiores medos prendem-se, muitas vezes, com a vida real, premissa relevante nos dias que correm. No entanto, existe esperança no grupo de seis amigos. O coletivo traz ao de cima a valentia que, individualmente, falta e o companheirismo transforma-se, então, em sinónimo de força.

Ainda assim, IT Capítulo 2 continua a ser um filme de terror. Não faltam perseguições ou presenças fantasmagóricas, antes pelo contrário. Ainda assim, a película revela o porquê de um volume com mais de três décadas permanecer intemporal: a coragem consegue exceder o tamanho dos nossos piores pesadelos.

A lucidez da união

27 anos passaram e a pequena localidade de Derry continua igual, com uma nova vaga de misteriosos homicídios a assombrar a cidade. Para alguns parece mistério, outros acham o aviso bem claro: está na hora de regressar. Beverly (Jessica Chastain), Bill (James McAvoy), Richie (Bill Hader), Mike (Isaiah Mustafa), Ben (Jay Ryan) e Eddie (James Ransone) reúnem-se na terra natal para derrotar, uma vez mais, o palhaço Pennywise (Bill Skarsgård), em nome do antigo Losers Club.

Alguns pormenores parecem estar em falta relativamente aos eventos que marcaram a infância do grupo. Quem se afasta de Derry tem tendência a esquecer ou a desejar esquecer, uma pequena contraindicação inerente ao sobrenatural que envolve a cidade. Mas Mike nunca deixou a província e está preparado para guiar os seus já adultos amigos rumo à próxima aventura.

Fotografia: NOS Audiovisuais/Divulgação

Com traumas distantes agora à flor da pele, o grupo tenta travar a força maligna, que não hesita em consumi-los pelas inseguranças. Na verdade, a manipulação de almas fragilizadas constitui a principal fonte de poder de Pennywise. Receios como violência doméstica, reticência em expor a orientação sexual, bullying, culpabilização pela morte de entes queridos e hipocondria são as armas que a coisa prefere. Será possível vencer o próprio medo? A resposta encontra-se no encerrar de um ciclo. Cada Loser procura sarar determinada bagagem emocional. Quando tal sucede, o palhaço perde as suas forças, comprovativo último da evolução das personagens. Por fim, as cicatrizes desvanecem.

Fonte: NOS Audiovisuais

IT Capítulo 2 faz questão de incluir uma referência ao Pesadelo em Elm Street, obra de fórmula semelhante. Freddy Kruegger atormenta as suas vítimas durante o sono, período vulnerável no quotidiano de qualquer um. Acaba por ser derrotado quando o temor desaparece, provando que se alimentamos os nossos receios, podemos retirar-lhes importância. O paralelismo dá asas a uma poderosa mensagem de empoderamento, fiel à essência do livro. A realidade está, igualmente, repleta de tiranos que mobilizam as massas através do medo. A cegueira devido ao pavor é poderosa. Todavia, a clareza proporcionada pela união é mais.

Flutuar ou afundar?

A inclusão de temas de importância maior pode ser relevante, mas não faz um bom filme. IT Capítulo 2 prolonga-se por cerca de três horas. Averiguar a legitimidade dessa duração torna-se essencial. E, se por um lado tem os seus pontos fracos, os aspetos positivos saltam à vista.

Primeiramente, Bill Skarsgård brilha como nunca. O argumento acrescenta bastante dimensão ao antagonista e o ator sabe aproveitá-la. Pennywise distancia-se do simples adereço mais ou menos arrepiante da primeira parte. Ganha origens próprias e maior número de diálogos, que Skarsgård interpreta ao conjugar loucura, malvadez e, até mesmo, sofrimento. Sem dúvida, oferece uma prestação irrepreensível, ampliando o caráter retorcido e complexo do personagem.

Fotografia: NOS Audiovisuais/Divulgação

A localidade revela, também, um lado místico inédito. A magia espreita em cada esquina, exercendo magnetismo sobre os que se cruzam com a região. O ambiente passa de peculiar a coercivo, quase como se deixasse uma marca permanente. A pouco e pouco, o espaço assume a função de personagem, com uma aterradora personalidade, enraizada na sua essência desde tempos remotos. Ninguém escapa a Derry, nem depois da morte.

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Os atores que compõe o Losers Club provam que estão à altura dos desafios intrínsecos ao novo clima. A seleção do elenco, por si só, demonstra maestria. O aspeto dos adultos é reminiscente da sua versão mais jovem ao ponto de tornar a associação instantânea. As parecenças transcendem pistas flagrantes, como óculos ou cor de cabelo, estendendo-se, de igual modo, aos maneirismos e respetiva caracterização psicológica.

Fotografia: Warner Bros./Divulgação

Em contexto cinematográfico, lidar com conexões ao passado é desafiante. Os flashbacks são quase inevitáveis, fator que pode abrandar o decorrer da ação. Neste caso, pequenos pormenores justificam a necessidade de relembrar episódios, evitando momentos entediantes.

Mesmo assim, o filme não é perfeito, em particular quando cai no exagero. Há uma grande ânsia em chocar. Os sustos vão-se repetindo vezes e vezes sem conta, tornando a cena seguinte expectável. O suspense e efeito surpresa estabelecidos ao início desaparecem por completo, inclusive após segmentos humorísticos.

Fotografia: NOS Audiovisuais/Divulgação

Muitas destas cenas “assustadoras” chegam ainda a fundir-se no próprio humor. O espalhafato é tanto, complementado pelos efeitos especiais, que o propósito do acontecimento perde-se e as gargalhadas emergem. O tempo despendido nos episódios carnavalescos podia ser aplicado, por exemplo, no desenvolvimento de narrativas exploradas superficialmente. Pontas soltas mantém-se e certas escolhas ficam aquém, impedindo o aprimorar do desfecho.

Fotografia: NOS Audiovisuais/Divulgação

IT Capítulo 2 retrata um aguardado fim de era. A metamorfose do infantil em maduro e do medo em coragem. Vale a pena apreciar a obra nas salas de cinema. Há muito para ver, descobrir e refletir, apesar do “demasiado” não ser sempre a melhor política. Se o primeiro IT fez as audiências flutuar, este fá-las descer um pouco à terra ao enaltecer o crescimento pessoal. Uma reviravolta bem-vinda no típico formato coming-of-age, que se estabelece como marco significativo do terror.

 

Título original: IT Chapter Two

Realização: Andy Muschietti

Argumento:  Gary Dauberman

Elenco: Bill Skarsgård, Jessica Chastain, James McAvoy, Bill Hader, Isaiah Mustafa, Jay Ryan, James Ransone

Género: Terror

Duração: 169 minutos

‘IT Capítulo 2’: Quando a coragem suplanta o medo
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